Retornar a Derry é, inevitavelmente, aceitar um convite para o abismo. Em It: Bem-Vindos a Derry, a HBO prova que o verdadeiro horror não reside apenas no fundo de um bueiro, mas nas camadas históricas de uma cidade corrompida pelo tempo. Situando-se como uma prequela ambiciosa que busca decodificar a gênese do palhaço Pennywise sob a ótica do Macroverso de Stephen King, a série equilibra-se entre a sofisticação estética de um drama de época e a visceralidade de um horror cósmico. A produção se sustenta como uma expansão necessária do "Kingverso", conectando fios invisíveis que ligam o isolamento do Hotel Overlook à opressão institucional de Shawshank.
A série atua como uma pedra angular para a mitologia do autor, utilizando Derry como o epicentro de uma realidade onde as leis da física se dobram perante o Macroverso. O roteiro é hábil ao inserir referências a O Iluminado, sugerindo que certas propriedades da "iluminação" (ou o shining) manifestam-se através da sensibilidade de personagens ao ambiente maléfico.No que tange às referências a Primavera Eterna — Rita Hayworth e a Redenção de Shawshank (conto que originou o filme Um Sonho de Liberdade), a produção utiliza a icônica Penitenciária de Shawshank como um espectro institucional. Menções ao sistema prisional do Maine e figuras de autoridade que evocam a rigidez administrativa daquela prisão cimentam a ideia de um universo compartilhado. Essas conexões são ferramentas de roteiro que ampliam a sensação de um mal sistêmico, corrompendo tanto o sobrenatural quanto as instituições humanas.
Não obstante o reconhecimento da importância da série no aprofundamento do universo compartilhado, o roteiro, assinado Andy Muschietti, Barbara Muschietti e Jason Fuchs, com a colaboração de nomes como Cord Jefferson, Austin Guzman, Gabriel Hobson e Helen Shang, por vezes se perde em um ritmo inconstante e falha ao inserir bizarrices que desafiam a lógica interna e a suspensão da descrença. Pecados imperdoáveis em projetos desta monta, que tem uma base de fãs tão grande e longeva, e que é demasiado ousado. Porém, a força das atuações e riqueza técnica salvam a experiência.
Taylour Paige e Jovan Adepo, interpretando Charlotte e Leroy Hanlon, ancoram a narrativa com performances que reagem de formas opostas ao estranhamento visual. Charlotte exibe uma expressividade vibrante em busca de entender as rachaduras na realidade, enquanto o Leroy de Adepo mantém um controle corporal rígido e estático. Essa química funciona como um contraponto de sobriedade frente às bizarrias da trama, impedindo que o espectador se perca nas abstrações do roteiro e servindo como o centro gravitacional emocional da série.
Blake Cameron James (acima), no papel de Will Hanlon, traz a vulnerabilidade de uma criança que percebe a quebra das leis da física antes dos adultos. Embora entregue momentos de overacting em cenas de medo explícito, ele serve como o elo mais sensível entre a inocência e a destruição. A dinâmica familiar dos Hanlon é essencial para humanizar o horror cósmico, tornando a ameaça de Pennywise algo profundamente pessoal e urgente.
No núcleo de injustiça social, Stephen Rider entrega um trabalho excepcional como Hank Grogan, transmitindo o peso de um homem esmagado pelo sistema e pelo sobrenatural. Ao seu lado, Amanda Christine, como sua filha Ronnie, demonstra uma maturidade cênica impressionante. As cenas entre ambos são capturadas com uma iluminação intimista e naturalista, que contrasta drasticamente com a estética expressionista das aparições do palhaço, evidenciando o abismo entre o drama humano e o fantástico.
Clara Stack e Matilda Lawyer trazem uma leveza necessária como as amigas Lily Bainbridge e Marge Truman. A dinâmica orgânica e pouco ensaiada da dupla é crucial para estabelecer a rotina de Derry antes da interrupção pelo horror. Já o destaque absoluto do elenco juvenil é Arian S. Cartaya, que personifica Rich Santos com um carisma que remete aos melhores personagens do "Clube dos Otários". Sua atuação tridimensional é fundamental para transformar a série em uma história sobre pessoas reais enfrentando entidades inimagináveis.
As participações dos veteranos James Remar e Bill Skarsgård funcionam como a "cereja do bolo". Remar traz uma gravidade militar necessária ao General Francis Shaw, ancorando a subtrama institucional. Enquanto isso, Skarsgård reafirma seu domínio absoluto sobre Pennywise, utilizando sua linguagem corporal desarticulada para criar uma atmosfera perturbadora. Sua presença sugere que o palhaço é apenas a ponta de um iceberg de uma entidade muito mais vasta que habita o vazio entre os mundos, validando a produção como uma prequela legítima.
Contudo, é na figura de Dick Hallorann que a série encontra sua ponte metafísica mais sólida, graças à atuação estupenda de Chris Chalk (abaixo). Chalk não apenas encarna a juventude do icônico cozinheiro, mas canaliza com precisão a melancolia de quem carrega o fardo da "iluminação" em um mundo que pune a diferença. Sua performance é contida, mas carregada de uma eletricidade latente; ele utiliza o olhar para sinalizar a percepção do invisível, transformando a telepatia em algo palpável e, muitas vezes, doloroso. Ao conectar o trauma racial da segregação velada em Derry com a sensibilidade psíquica que o tornaria o mentor de Danny Torrance décadas depois, Chalk eleva o personagem de um mero easter egg a um pilar dramático. Sua presença em cena valida as teorias sobre a conexão entre os eventos da Rua Neibolt e a energia residual do Hotel Overlook, consolidando Hallorann como o elo definitivo entre as diferentes manifestações do mal no Macroverso.
O design de produção de Paul D. Austerberry e a direção de arte de Colin Woods capturam com maestria a essência da década de 1950. A cenografia de Jeffrey A. Melvin constrói uma cidade que parece "viva", com camadas de sujeira sob a fachada de perfeição suburbana. Os figurinos de Luis Sequeira, com destaque para o trabalho de Lyndsay Reader nos trajes indígenas, adicionam uma verossimilhança histórica que torna as incursões do Macroverso ainda mais impactantes e surreais.
A fotografia de Daniel Vilar, Rasmus Heise, Catherine Lutes, Luc Montpellier e Paul Sarossy opera em um sistema de dualidade meticuloso. Para a realidade terrestre, utilizam-se tons quentes e nostalgia melancólica. Contudo, nas manifestações do Macroverso, a estética transmuta-se com cores hiper-saturadas e distorções ópticas. Esse contraste visual ilustra visualmente que o mundo humano é apenas uma membrana frágil cercada por um abismo caótico, onde habitam seres fundamentais como a tartaruga Maturin.
A trilha sonora de Benjamin Wallfisch atua como o tecido conjuntivo da obra, misturando arranjos orquestrais clássicos com sintetizadores dissonantes para sinalizar presenças paranormais. A música constrói um desconforto auditivo constante que preenche as lacunas deixadas pelos efeitos visuais (VFX), que infelizmente não acompanham o padrão de excelência da HBO. A montagem de Esther Sokolow, Matthew V. Colonna, Glenn Garland e Grant Wooldridge busca equilibrar os núcleos, embora enfrente dificuldades com passagens enfadonhas que esticam a trama desnecessariamente.
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| Os efeitos visuais da série são terrivelmente ruins |
Sob a liderança de Andy Muschietti e o suporte de Andrew Bernstein, Emmanuel Osei-Kuffour e Jamie Travis, a direção geral sustenta uma coesão visual impressionante. O trunfo da obra reside na condução do elenco, capaz de eclipsar eventuais inconsistências do roteiro. Contudo, o episódio final tropeça ao ceder ao uso excessivo de fan services. Ao priorizar esse recurso em detrimento da substância, a produção compromete a construção narrativa e o encerramento das subtramas que, até então, haviam expandido o universo da franquia com êxito.
Desde que ignoremos os diversos problemas da produção, It: Bem-Vindos a Derry pode ser uma boa diversão. É, indubitavelmente, uma obra que respeita a mitologia original, servindo como porta de entrada para novos fãs embarcarem nas dezenas de adaptações da obra de Stephen King — mesmo que seja conectada, direta e oficialmente, apenas a duas delas —, e oferece um mergulho fascinante nas sombras da cidade mais amaldiçoada da literatura moderna, deixando claro que o destino do multiverso é uma disputa constante entre forças que transcendem nossa compreensão.
Marlo George assistiu, escreveu e já vomitou universos
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