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CRÍTICA [CINEMA] | "Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria", por Kal J. Moon

Indicado ao Oscar 2026 de Melhor Atriz, escrito e dirigido por Mary Bronstein, estrelado por nomes como Rose Byrne, Delaney Quinn, Danielle Macdonald, Mark Stolzenberg, Daniel Zolghadri, além de participação especial de Christian Slater, do apresentador Conan O'Brien, do rapper A$AP Rocky e da própria Bronstein, o filme "Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria" se torna o veículo perfeito para mostrar que ser mãe está bem longe do paraíso, embora "padecer" esteja na ordem do dia...


Vocação x Obrigação
Difícil analisar um filme que não tem um gênero específico mas uma imensa mistura. Embora tenha alguns (poucos) momentos de comicidade, não é uma comédia. Mesmo que livremente baseado numa história real, não é uma cinebiografia. Ainda que trate de denúncias sobre a exploração do mercado hospitalar a clientes e pacientes que não estão necessariamente doentes, não é um desses suspenses investigativos a fim de revelar uma verdade.

E, por mais que disserte a respeito das agruras de uma mãe que precisa se desdobrar para manter, minimamente, o bem-estar de sua filha doente, seu emprego e, até, sua própria insanidade no processo, não é, necessariamente, um daqueles dramalhões, feitos para mostrar cenas que levariam o público às lágrimas a cada cinco minutos. Talvez, "Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria" seja tudo isso - e essa é a parte mais complicada para se ter em mente quando assistir essa produção.

Na trama, Linda é uma mãe exausta e sobrecarregada que vê sua vida desmoronar. Entre a ausência do marido afastado por conta do trabalho, uma filha com necessidades especiais por uso de uma sonda e a queda do teto de seu quarto por conta de infiltração do andar superior, Linda tenta segurar as pontas enquanto se divide entre cuidar de sua filha, atender seus pacientes como psicóloga, ouvir conselhos inúteis do grupo de apoio à mães de crianças com necessidades especiais e, ainda por cima, seu próprio terapeuta não ajuda nem um pouco com respostas cada vez mais vagas. E surtar nem é opção... 


Independente de se questionar a natureza - e pretensa qualidade - do roteiro, o filme tem apenas um trunfo chamado Rose Byrne (de "Vizinhos" e que, há dez anos, esteve em "X-Men - Apocalipse"), que tem ganho prêmios como o Globo de Ouro e o do Festival de Berlim - ou recebido indicações, como o recente já citado Oscar. O filme é centrado nas desventuras de sua personagem e explora bastante que ser mãe não é nem um pouco parecido com o que é apresentado num comercial de margarina ou de sabão em pó. E Byrne, que aparece em praticamente 97% da rodagem, consegue demonstrar toda a exaustão de alguém que só queria um pouco de descanso e uma ajuda de vez em quando para cuidar de sua filha doente.

A reflexão do roteiro em deixar sua jornada cada vez mais angustiante se perde nos já mencionados poucos momentos de humor. Ainda que Byrne esteja muito bem no papel, ela não domina tão bem assim o timing de comédia quase involuntária do roteiro - não dá pra não deixar de imaginar o que Julia Louis-Dreyfus (por conta da semelhança física e até de fala de ambas as atrizes) conseguiria entregar em seu lugar. Mas, dito isso, toda a aclamação de premiações é válida pois a atriz realmente se entrega ao papel como se sua vida dependesse disso.

Mas, ainda questionando o roteiro escrito pela própria diretora Mary Bronstein (e também atriz, aparecendo numa tomada do filme) - com cenas livremente inspiradas em sua própria vida (até uma bem BIZARRA, envolvendo um hamster) -, bem, mesmo que toda a trama multitemática sirva de alerta para muitas pessoas que possam estar vivendo em situação parecida, toda a reviravolta promovida por essa singular história não é apresentada de forma equilibrada e satisfatória do ponto de vista de entretenimento. Talvez o fato desse ser seu segundo longa-metragem como diretora mostre que ainda precise se aprofundar mais no mister de escrita de roteiro para tentar uma terceira vez...


Entenda: ninguém está dizendo que a vida de uma mãe em apuros deveria divertir a quem assiste. Mas os dilemas precisam interessar a audiência a ponto de torcer pela personagem e se emocionar com suas dores. Da forma como o roteiro se desenha, temos uma persona que talvez não seja lá muito cativante e até se culpa pelos problemas e falta de desenvolvimento na saúde de sua filha, com atitudes disruptivas mas não de um jeito que a audiência ~"compre a ideia". Nem mesmo o fato dela ser psicóloga e tratar de uma mãe que está tendo os mesmos problemas que ela - mas numa escala bem mais perigosa - traz esse comprometimento do público em relação à personagem. E o fato de ter tantas subtramas mal exploradas (e um trecho repetitivo que remete a uma desnecessária psicodelia) não ajuda.

(mas, apesar dos pesares, a última sequência do filme é realmente emocionante, chegando de fato ao cerne da questão)

O restante do elenco meio que orbita em torno da performance de Byrne e reage bem ao que é proposto. O apresentador de talk show Conan O'Brien interpreta o psicólogo da protagonista e está numa atuação bem funcional. O rapper A$AP Rocky (do recente filme "Luta de Classes") funciona mais como um misto de pseudo interesse romântico e alívio cômico do que como um personagem realmente importante para a trama - mas também funciona, dentro da proposta.

O veterano Christian Slater (do filme "Pisque Duas Vezes") aparece somente bem próximo do final mas tem um papel cuja dificuldade é expressar falta de empatia apenas com a voz na maior parte do tempo, pois interpreta o marido da protagonista, ausente por conta de um trabalho distante e dialoga com ela através do telefone - também funcional. E a pequena Delaney Quinn (que esteve em "Os Roses - Até que a Morte os Separe") também tem a mesma dificuldade pois a audiência ouve apenas sua voz durante a maior parte da rodagem, vendo seu rosto somente na cena final - porém, sua entrega convence bem naquela quase irritante necessidade de falar o tempo todo com a mãe, por conta de seu estado de saúde.


Já nos quesitos técnicos, nada chama muito a atenção - por ser um filme de baixo orçamento, tudo está bem correto mas nada digno de nota ou mesmo citação. "Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria" é o tipo de filme que, se não estivesse no atual circuito de premiações, provavelmente não teria chamado tanta a atenção e seria um daqueles exemplares que assistiríamos numa sessão de sábado à noite na TV aberta - e, talvez, nem terminaríamos de assistir. Uma pena pois, pela quantidade de temas abordados, era para ser um filme memorável.




Kal J. Moon sabe bem o que é cuidar de uma pessoa doente mas acredita que não pode ser, nem de longe, comparado a ser mãe de uma criança doente. Abrace sua mãe assim que puder e agradeça pois são anjos na Terra...

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