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CRÍTICA [CINEMA] | "A Única Saída", por Kal J. Moon

Dirigido por Park Chan-wook, estrelado por nomes como Lee Byung-hun, Son Ye-jin, Park Hee-soon, Lee Sung-min, Yeom Hye-ran, Cha Seung-won e Oh Dal-su, o filme "A Única Saída" é o perfeito exemplo de história que, se tivesse caído em outra mão, seria uma daquelas produções de se aplaudir de pé. Mas o diretor de 'Oldboy' bem que tentou mas não alcançou o necessário para conquistar o grande público - resultando em algo estranho (mesmo para a já disruptiva lavra do diretor).


(MUITO) Perdido na tradução
É complicado falar de uma nova obra lançada por Park Chan-wook sem parecer um daqueles ~"cinéfilos tênis verde" que costumam recomendar filme iraniano para assistir durante o churrascão de final de semana, bebendo cerveja artesanal de qualidade duvidosa e, quando possível, citando paráfrases erradas de filósofos mortos.

Mas, de sua geração, este é um dos que tem mais assinatura "legível" em cena: se qualquer poltronauta já assistiu algum filme dirigido por ele, basta assistir outro e, mesmo sem ter visto os créditos, é perceptível que se trata de outra obra do talentoso sul-coreano. E isso não quer dizer que suas produções sejam previsíveis e que se sabe exatamente o que esperar - além de uma boa história sendo contada (mas não pelos meios corriqueiros que se tem por aí aos montes). Porém, em "A Única Saída", talvez ele tenha tentado fazer algo um tantinho diferente - e isso comprometeu o conjunto.

Na trama - livremente adaptando o livro "O Corte", de Donald E. Westlake (1933-2008) -, um homem é demitido da empresa de papel onde trabalhou por 25 anos. Algum tempo depois, ainda desempregado, encontra uma solução: criar um anúncio de emprego falso para buscar os melhores profissionais da área e eliminar (literalmente), um a um, sua concorrência, a fim de se destacar nas próximas entrevistas de empregos.


A começar pelo roteiro - assinado por egressos da TV como Lee Kyoung-mi (da série "Enfermeira Exorcista"), Jahye Lee (de "Guerra e Revolta") e pelo próprio diretor -, justamente por ser uma adaptação de um livro originalmente lançado em 1997 (que já teve uma adaptação comandada por ninguém menos que Costa-Gavras em 2005), que tenta atualizar o humor negro do texto base para algo próximo do farsesco a fim de, quem sabe, agradar a crítica (essa parte até funcionou pois a produção acabou preenchendo o rol de melhores roteiros do ano passado em muitos veículos)...

O problema é o grande público, aquele que vai ao cinema em busca de algo apenas para distrair a cabeça por quase duas horas do estresse diário. E, por mais estranho que possa parecer, grande parte de júris "especializados" em festivais e premiações do audiovisual pensam exatamente como o "grande público" e não compraram essa ideia - somente a crítica e jornalistas que acham que entendem algo sobre como funciona um roteiro bem escrito de fato - e, não à toa, ficou de fora da indicação de Melhor Filme Internacional do Oscar em 2026.

Em diversos momentos, a audiência se pega pensando porque determinado (a) personagem reage de determinada maneira - principalmente a esposa do protagonista em dois momentos bem divisivos - se, uma cena anterior, mostra-se o exato oposto de suas ações seguintes. Não tem como defender um roteiro com tantas inconsistências, mesmo sob a alegação de se tratar de uma sátira que busca se aproximar do surrealismo para falar de temas ditos socialistas - ainda que exagerando situações para debater esses mesmos temas (quase como se alguém tivesse que gritar numa reunião para ser ouvido). 


A maioria das interpretações beira a caricatura em diversos momentos - e isso é culpa do diretor, que não conseguiu com que seu elenco "alcançasse" sua visão de trama (e, aí, é cada um por si para garantir a grana do aluguel). Exceto por Lee Sung-min (do recente filme "Maldito Dia de Sorte") que interpreta a primeira vítima - do sistema e do protagonista -, talvez o único personagem tratado com respeito no que concerne `profundidade dramática que o texto deveria oferecer aos personagens - pois se a comédia (ainda que "mórbida") não gera a sensação de se estar assistindo algo engraçado, melhor não insistir para que o tema principal não passe desapercebido pelo público.

(E o principal problema do texto é não discutir, em momento algum, que o protagonista não é alguém sem saída de fato mas, sim, aquele tipo de pessoa que só pensa no resultado material - e a trama tinha formas muito mais criativas de lidar com a questão do etarismo, podendo confrontar tudo o que é mostrado com a questão da idade dos envolvidos - isso até tem na obra mas de forma bem superficial, preferindo perder tempo com subtramas que não agregam em nada o avanço da história principal)


A direção de fotografia de Kim Woo-hyung (do filme "1987 - Quando Chega O Dia") também oscila de qualidade pois tenta se equilibrar entre o quase documental (em momentos beirando a contemplação da natureza) com cenas que misturam violência e o tal ritmo anárquico de humor negro - porém, algumas tomadas carecem de timing para funcionar (vacilo da montagem da dupla Kim Ho-binKim Sang-beom). A trilha sonora composta por Cho Young-wuk (parceiro do diretor em obras como o já citado "Oldboy", "A Criada" e o recente "Decisão de Partir") também oscila de qualidade e não é nada marcante desta vez.

"A Única Saída" é o tipo de produção que tinha tudo para dar certo mas, por conta da mão pesada do diretor, da falta de habilidade dos roteiristas, do elenco totalmente perdido e todo o conjunto, torna-se uma grande perda de tempo, que só deve agradar a um nicho minúsculo que acha que tem a capacidade reconhecer uma boa história. Baixe (bastante) a expectativa, assista e tire suas próprias conclusões. 




Kal J. Moon odeia quando, em entrevistas de emprego, lhe perguntam 'que tipo de animal você é?'. Precisa respirar fundo para não dar uma resposta malcriada...


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