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CRÍTICA [STREAMING] | "Stranger Things" (Temporada 5), por Marlo George

Após quase uma década, encerra-se a jornada de Will, Mike, Dustin, Lucas e Onze. Criada pelos Irmãos Matt e Ross Duffer, a série foi inicialmente rejeitada por pelo menos vinte estúdios — incluindo a Warner Bros. —, que duvidavam do apelo de uma trama ambientada nos anos 80 protagonizada por um grupo de nerds de RPG. Ao ser finalmente capitaneada pela Netflix, Stranger Things tornou-se um fenômeno global, gerando uma franquia que hoje abrange HQs, livros, peças de teatro, games e projetos de spin-offs em animação e live-action.

Talvez nem mesmo os Irmãos Duffer pudessem prever tamanha magnitude. No entanto, quanto a "imaginar", acredito que o fizeram. Afinal, a série fundamenta-se em um jogo que reside puramente na imaginação — o Dungeons & Dragons —, do qual os criadores sempre se declararam adeptos fervorosos.


O interessante é que este projeto, no qual poucos acreditavam, demonstrou um potencial colossal logo em sua bem-sucedida estreia em 2016. O alvoroço foi imediato: astros que outrora viviam no ostracismo, como Winona Ryder e Paul Reiser, foram resgatados, enquanto novos talentos eram revelados ao mundo. A expectativa para a segunda temporada foi imensa, embora esta não tenha repetido o êxito absoluto da primeira, em grande parte devido ao controverso e "defenestrado" sétimo episódio, "A Irmã Perdida", amplamente criticado pelos fãs.

A terceira temporada entregou o "puro suco" do final da Guerra Fria, posicionando os soviéticos como vilões centrais em uma trama que dividiu opiniões. Já a quarta temporada mergulhou profundamente na diegese da obra, explorando a origem do mal em Hawkins e abordando a complexa questão da sexualidade de um dos protagonistas, consolidando-se como uma das fases favoritas do público.

Com o final de 2025, chegou a tão aguardada quinta e última temporada. A conclusão da história do grupo de amigos que acolheu uma garotinha perdida, desencadeando problemas paranormais para seus familiares e amigos, era o evento do ano. Contudo, se o clima pesou na ficção, a realidade não ficou atrás: as redes sociais — o nosso "Mundo Invertido" real — tornaram-se palco de discussões acaloradas. Como a temporada final foi dividida em três partes, houve espaço de sobra para a polarização e críticas sobre os rumos narrativos escolhidos.

A primeira parte, lançada em 26 de novembro, apresentou quatro episódios interessantes, mas prejudicados por certa "embromação" e barrigas no roteiro que comprometeram o dinamismo. Posteriormente, no Natal, os três episódios seguintes mostraram-se decepcionantes, replicando falhas estruturais e adicionando pouco ao lore dos Duffer. As parcas explicações sobre o funcionamento do Mundo Invertido apenas reciclaram teorias que já circulavam há tempos entre os fãs na internet.

Finalmente, chegamos ao último dia do ano. Às 22 horas, estreou o capítulo final deste fenômeno. E o que posso dizer sobre este encerramento é que ele é, verdadeiramente, ÉPICO!


Embora nem todas as pontas soltas tenham sido amarradas, os Duffer provaram ser exímios costureiros. Apesar dos altos e baixos, eles souberam conduzir os pontos frouxos da trama para apertá-los em um puxão decisivo neste último episódio, unificando os pilares da história principal. As resoluções foram, em sua maioria, satisfatórias.

A produção também foi perspicaz no uso de easter eggs, como a emocionante menção a Eddie Munson no discurso de formatura da turma de 89 e a execução de um clássico de David Bowie nos créditos finais — uma homenagem elegante às suas referências. Até o número total de episódios da série, 42, parece ser uma reverência ao clássico de Douglas Adams, O Guia do Mochileiro das Galáxias. Houve ainda o momento em que Mike escreve sua elegia para Onze, claramente inspirado nos finais de Conta Comigo e It: A Coisa, homenagens indispensáveis a Stephen King, a maior influência criativa dos Duffer.

Em uma análise metafórica, Stranger Things é sobre abuso — mental, físico e, em certos aspectos gráficos, até sexual. Em diversos momentos, a lascívia de Vecna ao aprisionar suas vítimas evoca uma crueza perturbadora. Assim, quando testemunhamos sua queda final pelas mãos maternas, ainda que impiedosas, encerra-se um ciclo de abusos de toda ordem. A derrota do vilão traz o alívio do fim do terror, mas não apaga as cicatrizes nem cura as feridas abertas. É o final agridoce que a série exigia.

Os reencontros e despedidas de cada núcleo foram escritos com maestria, utilizando diálogos sucintos e momentos de silêncio que ecoarão na memória dos personagens e dos fãs. No entanto, o maior ponto de discórdia residiu na insistente "imortalidade" do elenco principal. Após anos de ameaças globais, a ausência de baixas entre os protagonistas soou como uma oportunidade perdida de conferir peso real ao encerramento, gerando uma sensação de que as apostas nunca foram verdadeiramente altas. Em vez de um sacrifício impactante de um dos heróis de Hawkins, a série optou por descartar apenas uma personagem resgatada da segunda temporada que prometia relevância. O seu retorno, que parecia ser um trunfo narrativo, acabou se revelando um recurso mal aproveitado no episódio final, servindo apenas como um "bode expiatório" para evitar o luto por figuras mais queridas, o que pode foi, de certo modo, frustrante, pois esperava por um desfecho mais corajoso.

Gostaria de nutrir a genuína fé de que presenciaremos, em breve, algo com o mesmo impacto cultural, o desenvolvimento meticuloso de personagens e a força narrativa arrebatadora de Stranger Things. No entanto, ao observar o atual cenário de produções cada vez mais genéricas e esquecíveis, torna-se difícil acreditar que outra obra, independentemente do gênero ou nicho, consiga capturar a imaginação do mundo com tamanha maestria e longevidade. Mesmo com seus erros de percurso — esta temporada final não foi perfeita —, a série deixa um legado que dificilmente será replicado. Eu realmente gostaria de ter esperança de que novas histórias alcancem esse patamar de excelência técnica e emocional, mas, infelizmente, não sou um homem de fé.


Marlo George assistiu, escreveu e gostaria de arrancar algumas cabeças por aí...

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