Quem já teve a oportunidade de conversar com Eudoxia sobre qualquer assunto sabe o que é ter a experiência de passar por uma miríade de temas. Se for para falar de cinema, aponta-se favoritos e naqueles títulos talvez não muito alardeados para se prestar atenção - passando pela forma como se entrega a sétima arte hoje em dia. Se o tópico for música e a indústria, mergulha-se na profundidade dos significados, passando longe do óbvio e buscando sentido no que passa desapercebido pela maioria. E ainda tem o fato de ser admiradora das histórias em quadrinhos, arte pela qual tem verdadeira admiração por artistas plasticos que, por acaso, emprestaram seus talentos à chamada nona arte como o norte-americano Alex Ross (de clássicos como "Marvels" e "Reino do Amanhã") e Esad Ribic (de títulos como "Thor" e "Loki") ou roteiristas como Frank Miller (de "Batman - O Cavaleiro das Trevas", "300" ou "Sin City") e um bem específico - para descobrir, leia a resposta a nossa última questão. Bem, "o mundo é um moinho", girando e Eudoxia gira junto, mas observando cada rotação - às vezes, isso se transforma em arte e outras, em reflexão...
Não tinha como ser diferente, uma vez que "ela é carioca", "garota carioca" (da gema!) - ainda que, atualmente, divida seu tempo entre Lisboa e Alentejo (ambas, cidades situadas em Portugal), "com visitas recorrentes ao Brasil", segundo a própria -, nascida na cidade maravilhosa um ano depois do início da efervescente década de 1980 - no mês de lançamento de álbuns como "Ghost in the Machine" (The Police), "October" (U2) e "Diary of a Madman" (Ozzy Osbourne, 1948-2025), dentre outros . E, como todo mundo sabe, carioca não nasce, simplesmente. Carioca é concebido como entidade única, com frases e expressões intraduzíveis para muitos, mas com aquela habilidade de conversar um pouco sobre tudo - tudo... mesmo.
Na área acadêmica, escolheu a música, formando-se em Bacharelado de Canto pela UFRJ, além do Mestrado em Performance de Música pela Universidade de Évora. Já a carreira musical a levou por caminhos bem diversos como dividir o palco por CIN-CO anos ao lado de ninguém menos que Geoff Tate (ex-Queensrÿche, atualmente em carreira solo) nas comemorações de 30 e 35 anos do disco "Operation - Mindcrime" e também, num momento único da televisão brasileira, a gravar "Bachianas Brasileiras Nº 5" (de Heitor Villa-Lobos, 1887-1959), que foi exibida globalmente num capítulo do recente remake da telenovela "Renascer" (TV Globo) em 2024.
![]() |
| "Quero trabalhos que possam expressar tudo que sou", diz Eudoxia (Crédito de foto: Acervo Pessoal Eudoxia / Divulgação - Todos os direitos reservados) |
Nas horas vagas, se dedica à atividades como jardinagem, culinária, leitura, bricolagem e até uma microprodução de vinho (!). Porém, em momentos especiais, a música chama e ela se apresenta sob o codinome Eudoxia - do grego, significando "boa fama", "boa reputação", "bom julgamento" ou "bons pensamentos", além de outros significados interessantes (ela fala mais sobre isso aqui) -, ao lado da banda formada pelo guitarrista e produtor Gus Soularis, pelo arranjador e baixista Ronaldo de Oliveira e o baterista Gelson Costa - e tem show marcado em terra brasilis para lançamento do recente EP "The Shadow Works", mais especificamente em 24/01/2026 no Red Star Studios (localizado à Rua Teodoro Sampaio, 512 - Pinheiros / SP) e a venda de ingressos já está liberada no site oficial. Nesta entrevista por e-mail, falamos sobre a novíssima fase, a situação atual da música frente à disponibilização digital e, vejam só, até da nona arte... Com a palavra, Eudoxia!
Poltrona POP - Qual a motivação principal para a mudança de nome artístico? Adequação à países estrangeiros? Estética?
Eudoxia - Desde que me mudei do Brasil em 2017, os anos foram muito intensos para mim... Houve muitas mudanças na minha vida e eu terminei mudando a perspectiva que tinha sobre mim mesma - e, também, o que via como horizonte de possibilidade para mim. Além de que eu terminei atuando em várias frentes ao longo dos anos... Além de cantora lírica e vocalista de rock, também sou locutora, tradutora... Terminei me descobrindo como compositora e letrista. A nova fase vem para me dar um novo começo e também criar uma marca que me permita "costurar" todas essas facetas - sem ter mais que fazer escolhas, se sou uma coisa ou outra. Basicamente, eu não quero mais ter escolher qual "chapeuzinho" usar. Quero trabalhos que possam expressar tudo que sou e tenho.
Poltrona POP - Quais as mudanças que o novo trabalho [o EP "The Shadow Works"] trouxe ao seu estilo de composição?
Eudoxia - A primeira mudança é que 'The Shadow Works' é todo meu! (risos) Do conceito, das composições, das letras e também das atmosferas. Nos meus trabalhos autorais anteriores, eu fui apenas letrista e intérprete. Aqui as coisas mudaram... Quando a ideia nasceu e eu comecei a planejar, a primeira decisão era liberdade artística total. Eu não queria colocar rótulos antes de que o projeto existisse. Eu queria ver no que ia dar primeiro, porque acredito que a identidade artística é algo que se define ao longo do fazer e não tomando decisões. E como ia ser um projeto curto - eu só teria tempo para fazer três faixas -, eu queria três músicas bem diferentes umas das outras. E eu sinceramente sou muito feliz com o resultado!
Poltrona POP - Mesmo que tenha nascido nas mãos (acordes e voz) de uma mulher [Sister Rosetta Tharpe, 1915-1973], rock ainda é um estilo musical massivamente dominado por homens. Como é fazer a diferença e estar "incorporada às fileiras" de "guerreiras" a defenderem o estilo?
Eudoxia - Eu acredito que o rock é um estilo de transgressão, de ruptura de moldes. Foi assim que nasceu e eu creio que esta é a única coisa que devemos preservar. Todo o resto está passível de ser mexido, transformado, contestado. Acho que a sua natureza é a de criar espaço para todo mundo mesmo: criar tribos que cruzam países, culturas, etnias, barreiras linguísticas e quaisquer outras que surjam. E eu gosto de ver como, hoje, o rock já não tem mais essa cara de clube dos garotos. Na minha adolescência foram raras as mulheres que enveredaram por este caminho e, muitas vezes, terminaram sendo nichadas, como "rock feminino". Hoje, isso acabou. Estamos em todos os lugares, todos os estilos, em todas as frentes, com os instrumentos que for. Sim, há resistência... Tem sempre gente torcendo o nariz e diminuindo o trabalho das pessoas, mas acho que isso é um sintoma da força das mudanças que vemos. Eu tive um avó que viveu 100 anos. E foi uma mulher histórica em sua trajetória, se divorciou de um casamento que não lhe servia e foi buscar sua vida e seu espaço no mundo... E encontrou a felicidade, viveu com uma alegria que vi poucos terem na vida. E olhar para ela me fazia pensar muito, porque ela foi uma mulher que nasceu sem o direito ao voto, mas teve a coragem de buscar viver de forma que fosse bom para ela, ao invés de se adequar ao que os outros queriam que ela fosse como mulher e mãe. Eu penso que hoje, apesar de todos os desafios, dúvidas e estranhezas que temos diante do mundo, a gente vive também um mundo que começa a comportar as pessoas que quebram o molde do que a sociedade lhes impõe. E eu acho que a sociedade precisa cada vez mais de pessoas que acreditem em si, busquem seus sonhos e se mostrem maiores do que rótulos ou papéis sociais. E acho que, por isso, vemos tantas mulheres no rock. Sinceramente, é uma onda da qual gosto de fazer parte. E que isto sirva de convite para mais pessoas, mulheres ou não.
Poltrona POP - No livro "Como A Música Ficou Grátis" (Ed. Intrínseca, 2015), o jornalista Stephen Witt diz que "o verdadeiro segredo [do compartilhamento de arquivos de música]" se dava porque "a internet era feita de pessoas" e que esse comportamento era "um fenômeno social". Quais as benesses - e primordiais desafios - de se fazer música num mundo em que arte virou sinônimo de algo "gratuito" (ou "de baixo custo de consumo")?
Eudoxia - Se eu não tivesse um show para preparar, eu escreveria realmente tudo que penso sobre essa sua pergunta, mas eu vou tentar resumir. Acho que a maior benesse é que as coisas não são mais detidas por um clube de dez caras. Antigamente, todas as decisões de um meio passavam por uns dez nomes de cada ramo - os chamados "gatekeepers" (ou os "guardiões dos portões"). Com as tecnologias atuais, essa concentração de poder foi quebrada - mas eu não disse que concentração de decisão tenha sido extinta - e criou-se infinitas outras possibilidades. Antes, os únicos meios que tínhamos para alcançar muitas pessoas eram rádio, TV e jornal. Os custos eram altíssimos e os caminhos nem sempre claros. Hoje, o sucesso está muito mais atrelado à capacidade que alguém vai ter de enxergar oportunidades e também de acreditar em si. Isso é fascinante! Vemos, todos os dias, pessoas fora do padrão de idade, de comportamento, de gênero, de aparência e de discurso que conseguem plataforma. Isso é grandioso! Mas acho que um dos maiores desafios é remunerarmos as pessoas [de forma] justa e devidamente. Me impressiona o quanto somos capazes de gastar em tecnologia, telas mais definidas, fones mais práticos... Mas quem está produzindo o conteúdo que alimenta toda essas máquinas termina suando sempre para pagar as contas. Ainda mais em um mundo em que é cada vez mais fácil fazer uma transferência [de valores], cruzando de um lado ao outro do mundo, em moedas diferentes. E eu não falo apenas das pessoas que fazem música, mas também de programadores dos grande blockbusters milionários ou roteiristas e atores que alimentam o streaming que fez com que cinemas ficassem cada vez mais vazios. É um contrassenso violento dos dias atuais e acho que existe uma urgência em mudarmos este modelo.
Poltrona POP - Como fã moderada da nona arte, imagine que você é convidada para compor uma canção-tema de um filme baseado numa histórias em quadrinhos - daquelas que ganham clipe com cenas da produção e tal. Você teve acesso ao roteiro e parece que será uma boa adaptação. Qual projeto você gostaria de colaborar musicalmente?
Eudoxia - Aqui eu preciso te corrigir... Passo longe de ser "moderada" com a nona arte. Eu tenho uma paixão real por quadrinhos e um dos meus projetos é escrever algumas das minhas próprias histórias. Algumas, já comecei a esboçar... É uma vontade antiga. Tem muita coisa que eu ia adorar que caísse nas minhas mãos para fazer. Mas se é para escolher um nome, eu tenho que ser justa e citar o deus-criador Will Eisner [1917-2005]. Eu sou apaixonada pela obra dele e adoro os temas que ele abordou. Eu ia adorar colaborar musicalmente com "O Edifício" - uma das novelas gráficas que compõe o [encadernado] "Nova York - A Vida na Cidade Grande" [Quadrinhos na Cia, 2019] -, acho que é a obra que mais amo de todas. E nela, a personagem principal é o próprio edifício em que as histórias ocorrem. Acho que Eisner merecia adaptações para o cinema que trouxessem a profundidade e a seriedade dos seus temas, com a beleza que ele garimpava da aridez dos cenários que retratava.
A Equipe Poltrona POP adoraria assistir uma adaptação cinematográfica de "O Edifício" (dirigida por Miguel Falabella?), aguarda com ansiedade o dia para ler uma graphic novel criada por nossa entrevistada e agradece imensamente pela disponibilidade da cantora e compositora Eudoxia em reservar um tempinho em sua turnê para responder às nossas perguntas. Que seja a primeira de muitas... É, 2026 começou com o pé direito e esquerdo - os dois, abrindo as portas!
Para ouvir o EP "The shadow Works", acesse o player abaixo:
Em todo o site, deixamos sugestões de compra geek. Deste modo, poderemos continuar informando sobre o Universo Nerd com fontes confiáveis e mantendo nosso poder nerd maior que 8.000. Afinal, como você, nós do portal Poltrona POP já éramos nerds antes disso ser legal!
Para ouvir o EP "The shadow Works", acesse o player abaixo:
Em todo o site, deixamos sugestões de compra geek. Deste modo, poderemos continuar informando sobre o Universo Nerd com fontes confiáveis e mantendo nosso poder nerd maior que 8.000. Afinal, como você, nós do portal Poltrona POP já éramos nerds antes disso ser legal!


