Existem filmes que não apenas narram uma história, mas tentam capturar o peso invisível do tempo sobre os ombros de um homem comum. Sonhos de Trem, dirigido por Clint Bentley (Sing Sing), é uma dessas obras que se recusa a pressa moderna para abraçar uma aura contemplativa e quase mística.
Adaptado na obra de Denis Johnson, o longa nos transporta para o Oeste americano do início do século XX, mas esqueça os duelos de revólver; aqui, o conflito é o silêncio da natureza contra a transitoriedade da vida humana. É um cinema de sensações, onde o cheiro do pinho e o estalar das brasas parecem saltar da tela, situando o espectador em uma jornada mais espiritual do que puramente física.
O roteiro, assinado por Bentley e seu parceiro Greg Kwedar, é um exercício de contenção admirável. Ao evitar diálogos expositivos — aquele vício de explicar ao público o que ele já está vendo, a infame "Regra Netflix" —, a narrativa se constrói através de elipses inteligentes e uma estrutura que mimetiza a memória. O triunfo aqui reside na construção do comportamento estóico de Robert Grainier, interpretado por Joel Edgerton; ao contrário de tantos personagens de "poucas palavras" que o cinema recente tenta vender como estóicos, mas que não passam de cascas vazias e inexpressivas, Grainier personifica o modelo real da filosofia: ele aceita a ordem natural do universo e foca sua vida naquilo que pode controlar. O texto flui com uma qualidade literária rara, tratando a tragédia familiar que consome o protagonista não como um clímax ruidoso, mas como um vazio persistente que dita o ritmo (ora lento, ora febril) de sua existência solitária.
Joel Edgerton (Star Wars: Episódio III - A Vingança dos Sith) entrega aqui, sem exageros, uma das atuações mais honestas de sua carreira. Na pele de Grainier, ele utiliza sua expressividade contida para transmitir décadas de luto sem precisar de um único grito. Há uma economia de gestos que se alinha perfeitamente à proposta tonal do filme. A química com Felicity Jones (Rogue One: Um História Star Wars), que interpreta sua esposa Gladys, é estabelecida em poucos minutos de tela, o que torna a ausência dela um personagem vivo no restante da trama. Até as participações menores, como o veterano William H. Macy (O Quarto de Jack), trazem uma vivacidade que impede o filme de se tornar um monólogo visual cansativo.
Clint Bentley demonstra uma visão artística amadurecida, distanciando-se do convencional ao optar por uma mise-en-scène que privilegia a imensidão do cenário em contraste com a pequenez do homem. Sua direção não busca o espetáculo; ela busca a testemunha. O uso recorrente de planos abertos que engolem o protagonista reafirma a insignificância de Robert diante de uma América que se moderniza brutalmente. Bentley sabe quando deixar a câmera estática para que sintamos o fardo do personagem e quando movimentá-la para acompanhar a inexorabilidade do progresso que os trilhos de trem representam.
Tecnicamente, o filme é um deleite sensorial, sustentado pela fotografia soberba do brasileiro Adolpho Veloso (Becoming Elizabeth). Veloso trabalha com uma luz naturalista que remete aos grandes mestres do gênero, utilizando a profundidade de campo para criar quadros que lembram pinturas a óleo, o que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de Melhor Fotografia deste ano. A paleta de cores, dominada por tons terrosos e o azul gélido das montanhas, é complementada por um design de som primoroso. A trilha sonora de Bryce Dessner e a voz onírica de Nick Cave não se sobrepõem à imagem; elas flutuam na diegese, misturando-se ao som do vento e das máquinas, criando uma imersão que é, ao mesmo tempo, belíssima e sufocante.
Nas entrelinhas, Sonhos de Trem é uma reflexão atemporal sobre a exclusão e o "progresso" que deixa fantasmas pelo caminho. O subtexto sobre a exploração ao trabalhador braçal serve como um espelho para as nossas próprias desolações modernas. O filme sugere que, embora o mundo mude — do biplano que corta o céu à ferrovia que rasga a mata —, a essência da dor e da busca por sentido permanece a mesma.
Em última análise, Sonhos de Trem entrega exatamente o que sua premissa promete: um passeio transportador pela alma humana. Além da indicação para Veloso, o longa ainda concorre aos Academy Awards de Melhor Filme, Roteiro Adaptado e Canção Original. É uma adição vigorosa à filmografia de Bentley e um lembrete de que o cinema ainda pode ser um espaço para o silêncio e para o pensamento. Pode não ser o filme para quem busca adrenalina barata ou reviravoltas mirabolantes de roteiro, mas para quem se dispõe a sentir o passar das décadas em cem minutos, é uma experiência imprescindível. Afinal, no grande trilho da vida, somos todos passageiros de sonhos que o tempo, inevitavelmente, acaba por levar.
Marlo George assistiu, escreveu e sabe que a felicidade depende da qualidade dos seus pensamentos
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