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CRÍTICA [CINEMA] | "Devoradores de Estrelas", por Kal J. Moon

Dirigido pela dupla Christopher Miller & Phil Lord, estrelado por nomes como Ryan Gosling, Sandra Hüller, James Ortiz, Lionel Boyce e Ken Leung - dentre outros -, o filme "Devoradores de Estrelas" é uma grata surpresa ao trazer um assunto complexo mas ajustando a narrativa para que todo mundo consiga entender... Mas é esse filmaço todo que estão dizendo por aí? Que bom que perguntou...


Astrofísica para iniciantes
Tem duas frases que este escriba geralmente fala. A primeira, em reuniões entediantes, quando alguns dos participantes insiste em falar em linguajar técnico que a maioria do quórum não entende: "OK, muito bom, agora me explique como se eu fosse uma criança de quatro anos de idade...". A segunda é mais um esforço criativo quando está em alguma conversa em que precisa falar sobre um conceito em que os pares talvez desconheça: "Como é que eu vou explicar isso sem parecer um babaca...?". Ambas as frases parecem ter servido de estímulo narrativo para o roteiro de "Devoradores de Estrelas".

Na trama - livremente baseada no livro de Andy Weir, já publicado inclusive no Brasil -, Ryland Grace é o único sobrevivente de uma desesperada missão de emergência - se ele falhar, toda a humanidade e o planeta Terra serão destruídos. Mas no momento ele não sabe disso. Ryland não se lembra nem do próprio nome, muito menos de sua missão ou de como cumpri-la. Tudo o que ele sabe é que dormiu por muito, muito tempo. E que despertou a milhões de quilômetros de casa, com apenas dois cadáveres como companhia. Com as memórias confusas retornando aos poucos, Ryland vai perceber a tarefa impossível que tem nas mãos. Viajando pelo espaço em sua pequena nave, cabe a ele descobrir a resposta para um enorme mistério científico - e derrotar a ameaça de extinção da nossa espécie. O tempo está acabando e o humano mais próximo está a anos-luz de distância, então Ryland terá que fazer tudo isso sozinho... Ou será que não?


O roteiro escrito por Drew Goddard - que adaptou "Perdido em Marte" (outro livro de Weir), tendo sido indicado ao Oscar por seu trabalho nesse filme - parte do princípio que sua audiência é inteligente, não importa a idade ou classe social. Por conta disso, tanto o personagem Ryland Grace (que é um professor de ciências para pré-adolecentes) quanto a maioria dos cientistas ao seu redor usam exemplos mais simplificados para que a audiência entenda tudo o que está sendo tratado pois se tratam de conceitos complexos para a grande maioria das pessoas que não estudaram astrofísica.

E, sim, antes que alguém tente, em vão, negar, isso, em roteiro, é chamado de "exposição". Então, por que diabos a crítica está se rendendo de amores por esse filme cheio de soluções "diluidoras de dificuldades" se, geralmente, são conta esse tipo de prática? A resposta é igualmente simples: críticos de cinema, em sua maioria, também não entendem conceitos avançados de astrofísica e também precisam de explicação para entender e "abraçar" a ideia - estranho mesmo foi não terem feito o mesmo quando o bacana "Interestelar" estrelou, acusando os irmãos Nolan de "exagerar na explicação". Parece que agora tá liberado não entender de conceitos complexos, galera...


Entretanto, "Devoradores de Estrelas" não é um filme simplório. Além de não tentar parecer mais inteligente que sua plateia, também respeita o tempo de cada indivíduo para que, aos poucos, monte o quebra-cabeças narrativo - e que, não, não é difícil de entender, mas requer algum esforço mínimo para "alcançar a mensagem". Sabe quando assistimos uma série médica e, após os sintomas apresentados, tentamos adivinhar qual a doença do paciente? É mais ou menos por aí que o roteiro ordena sua cronologia de eventos - tanto nas descobertas do protagonista até em relação à sua ligação com o projeto e qual o objetivo final de sua missão. E ainda tem boas homenagens a clássicos do cinema como "Contatos Imediatos do Terceiro Grau" e a franquia "Rocky" - dá até pra forçar um pouco e dizer que a cena do mop tem coreografia inspirada numa cena-chave de "La La Land"...

Mas, vale avisar que o roteiro parte de uma premissa que extrapola diversos conceitos comuns como "O que aconteceria se o sol se extinguisse?" ou "Como estabelecer comunicação com uma raça alienígena sem saber nenhum vocabulário daquele povo?" ou, ainda, "Como gerar combustível suficiente para um foguete viajar para outro quadrante da galáxia a fim de investigar o que pode vir a acontecer com o planeta Terra?". São muitas perguntas, que vão sendo respondidas de forma simples, objetivas e... inteligente. Dito isso, tem alguns momentos - e não são poucos - que não havia necessidade de explicação pois a audiência já havia entendido o que tinha sido explanado, o que empobrece um pouco a narrativa, além de algumas conveniências que "facilitam" a jornada dos protagonistas simplesmente porque "o roteirista quis"


Além disso, o roteiro se utiliza de praticamente todos os elementos que compõem a já surrada "Jornada do Herói". Nossos protagonistas não queriam aceitar a missão, são convencidos a isso por conta de um bem maior, enfrentam o mal e falham, voltam ao treinamento, tornam a enfrentar o mal, vencem mas não sem algum nível de sacrifício. E, ao final, ambos estão transformados e não são mais aqueles que eram quando iniciaram esta aventura - sem contar que não importa o que aconteçam com eles, histórias serão contadas a seus respeitos, imortalizando-os para sempre na mente e corações daqueles que tiveram contato com seus relatos.

A direção da dupla Christopher Miller & Phil Lord (mais conhecidos pelos filmes "Uma Aventura LEGO" e "Anjos da Lei 2", além de roteiristas de "Homem-Aranha no Aranhaverso" e "Homem-Aranha: Através do Aranhaverso") é segura pois estabelece, desde a primeira cena, um tom mais leve e divertido, apesar das circunstâncias funestas envolvendo o ponto em que se encontra o protagonista. Os diretores também tem completo domínio de escala pois temos diversos elementos cênicos servindo tanto como espetáculo visual mas intrínsecos à narrativa e não como meros adereços.


No elenco, o grande destaque é mesmo a química entre Ryan Gosling (indicado três vezes ao Oscar, sendo a última em seu papel de Ken no lastimável filme "Barbie") e James Ortiz (que faz a voz original do alienígena Rocky - advindo do obscuro filme "World's End"). O período entre a solidão do personagem de Gosling até a descoberta de uma nave alienígena mostra que o ator finalmente deixou de ser apenas mais um rostinho bonitinho com cara de bobo para se adequar a projetos que exigem mais que belos sorrisos ou cabelos penteados de forma a agradar o público feminino. A preocupação da audiência em tentar montar o quebra-cabeças narrativo da trama perpassa pelo seu personagem, que é o perfeito veículo para a oclusão de seu relacionamento com o alien Rocky - que é tão inteligente e engraçado quanto ele próprio... Não é impossível pensar que pode concorrer novamente ao Oscar mas somente o tempo dirá.

Outros destaques do elenco vão para Sandra Hüller (indicada ao Oscar por seu trabalho em "Anatomia de uma Queda") - que expressa muito com bem pouco exasperação. Sua personagem é o tipo de líder que não precisa gritar para convencer o que necessita ser feito (e o que precisa ser feito, será feito, custe o que custar... - talvez, com a campanha certa, receba uma nova indicação ao careca pelado) - e Lionel Boyce (da cultuada série "The Bear - O Urso"), que interpreta o segurança Carl, uma das primeiras pessoas a interagirem com o protagonista e a guiarem-no em direção às necessárias descobertas iniciais e urgentes. Boyce imprime bastante seriedade a princípio mas adiciona, aos poucos, algum humor - mesmo em momentos em que a situação nem é tão favorável.


A direção de fotografia comandada por Greig Fraser (vencedor do Oscar por seu trabalho em "Duna") escolhe uma abordagem cromática em alguns momentos (com bastante vermelho e verde) e algo um tanto rotativo em outros instantes (como se quisesse representar a forma como o protagonista pensa) - ainda aliada à edição de Joel Negron (do filme Marvel "Thor - Ragnarok"), tem um resultado bastante satisfatório.

Já a trilha sonora composta por Daniel Pemberton (indicado ao Oscar pelas canções instrumentais de "Os 7 de Chicago") é evocativa, tribal, etérea e atmosférica - como se fosse projetada para um documentário ou um programa educativo. Não é ruim mas somente as interessantes "The Message" e "Learning to Communicate" - tocadas nos momentos mais importantes da trama - ficam na mente da audiência.


Além disso, o design de produção de Charles Wood (de diversos filmes Marvel como "Guardiões da Galáxia" e "Doutor Estranho no Multiverso da Loucura") é, simplesmente, perfeito - fortíssimo candidato na temporada de premiações. 

Com ótimos predicados técnicos, elenco competente e roteiro didático mas não a ponto de subestimar a inteligência da audiência, "Devoradores de Estrelas" talvez não seja o sucesso de bilheteria que todos esperam mas, com certeza, vai ser responsável por popularizar a descoberta científica com o passar dos anos - e, isso, já é um feito e tanto...


Mas, como sempre advertimos, baixe a expectativa e, se não tiver dinheiro para ir numa sala IMAX, 3D ou cheia desses badulaques que servem mais para encarecer o ingresso do que em enriquecer a experiência do espectador, vá com tranquilidade num dia de promoção sem nenhum desses apetrechos, que a diversão é garantida e a mensagem é muito oportuna nesses tempos tão escrotos...

ATENÇÃO: Tem uma cena pós-créditos, que fala de um dos protagonistas e sua relação com o planeta Terra. Mas contar mais do que isso seria spoiler...




Kal J. Moon já comeu lamen cru, também ficou encrencado por conta de suas opiniões "fortes" e não acredita que as nações de nosso planeta se unirão em prol de um objetivo em comum - mas espera que mentes criativas as convençam do contrário a qualquer momento...

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