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CRÍTICA [STREAMING] | "Máquina de Guerra", por Marlo George

Quando era criança, nos idos anos de 1987, comprei a revista Cinemin, nº 35, da editora Brasil-América. A matéria de capa era o filme Predador, de John McTiernan, blockbuster estrelado por Arnold Schwarzenegger, e que foi um hit de seu tempo, sendo, hoje em dia, mais homenageado pelo meme de um jovem Schwarza cumprimentando Carl Weathers, ao brado "... Motherfucker", expressão que irei me abster de traduzir.

Adquiri a revista pelo entusiasmo de ter visto mais um filme do "grandalhão austríaco" nas telonas e queria guardar algumas recordações deste clássico que tinha adorado. Minha relação com a franquia, desde então foi, após muitos anos, ter curtido bastante Predador: A Caçada, de 2022, e detestado Predador: Assassino de Assassinos, animação lançada pela Disney+ no ano passado. Para além destas produções, assisti uma ou outra coisa relacionada ao universo do alienígena caçador mais voraz e perigoso do cinema, mas sem muita empolgação. Agora,a Netflix traz uma produção que, em muitos aspectos, se espelha neste clássico do cinema "brucutu", com uma estrela importante e que vem despontando no seguimento com grande destaque.


Máquina de Guerra
chega ao catálogo da Netflix com a musculatura de um blockbuster, mas com a alma de um simulacro. Situado no saturado sub-gênero de "caçada na selva", o filme de Patrick Hughes tenta resgatar a aura dos filmes de monstros dos anos 80, propondo uma tensão que oscila entre o treinamento militar rigoroso e o horror sci-fi. Contudo, a obra parece mais interessada em habitar o espaço seguro de uma estrutura testada do que em imprimir uma identidade própria, resultando em uma experiência que, embora competente em sua execução técnica, carece da "centelha vital" que transforma um filme de gênero em um clássico instantâneo.

O roteiro, assinado por Hughes e James Beaufort, opera em um ritmo constante, mas perigosamente previsível. A narrativa utiliza a estrutura clássica de Facing the Monster, mas peca pelo excesso de diálogos expositivos que tentam, sem sucesso, dar profundidade a um conflito que deveria ser puramente visceral. O desenvolvimento do arco dramático é prejudicado por uma falha de conexão entre o trauma interno do protagonista e a ameaça externa; o transtorno pós-traumático do "Recruta 81" surge como um acessório biográfico, em vez de ser o motor que impulsiona ou dificulta sua sobrevivência, tornando a progressão narrativa um exercício de "causa e efeito" sem grandes surpresas.

No campo das performances, Alan Ritchson, mais conhecido por seu trabalho na série Reacher, da Prime Video, e como Rapina na série Titãs, baseada nos quadrinhos da DC Comics, entrega exatamente o que sua persona pública promete: uma presença física imponente e uma estoicidade inabalável. No entanto, a direção opta por uma despersonalização excessiva — negando-lhe até mesmo um nome — o que limita a expressividade do ator a grunhidos e olhares fixos. A química com o elenco de apoio, especialmente com o personagem de Stephan James, é o que sustenta o pouco peso emocional da trama, embora o roteiro force discursos motivacionais que soam artificiais diante da urgência da caçada. A entrega está alinhada à proposta tonal, mas o talento de Ritchson parece subutilizado em um papel que exige mais fibras musculares do que nuances dramáticas.

A direção de Hughes revela uma visão artística que se rende ao convencional. Embora utilize a profundidade de campo de forma interessante para esconder a ameaça na folhagem — uma clara referência à mise-en-scène de John McTiernan —, a assinatura visual é diluída por uma montagem frenética que, por vezes, confunde a percepção espacial do espectador. O diretor falha em tornar o antagonista algo memorável; ao optar por um design robótico genérico, a câmera perde a oportunidade de explorar o horror biológico ou a estranheza do desconhecido, transformando o "monstro" em apenas mais um obstáculo digital na tela. Faltou carisma à ameaça.

Tecnicamente, o filme brilha na fotografia de Aaron Morton (O Senhos dos Anéis: Os Anéis de Poder), que explora uma paleta de cores densa, com verdes saturados e sombras profundas que auxiliam na imersão claustrofóbica da floresta. O design de som é agressivo, com uma mixagem que privilegia o impacto dos metais e das explosões, criando uma diegese barulhenta e urgente. A trilha sonora, contudo, é genérica e funcional, servindo apenas como uma "parede de som" para preencher os vazios de tensão, sem oferecer um tema que acompanhe o espectador após o encerramento da sessão.

Nas entrelinhas, Máquina de Guerra flerta com um subtexto sobre a desumanização do soldado e a perda da identidade dentro de grandes corporações militares. Há uma reflexão atemporal sobre como o indivíduo se torna apenas um número em uma engrenagem maior (o tal "81"). No entanto, o filme evita aprofundar essa crítica, preferindo focar na espetacularização da violência — muito benvinda pra quem que desligar o cérebro. Ele conversa com o momento atual ao refletir o medo da automação e de uma guerra impessoal gerida por máquinas, mas a mensagem é sufocada por um patriotismo latente que parece saído de um vídeo de recrutamento.

O filme entrega o entretenimento bruto que promete, mas falha em se tornar uma adição relevante à filmografia de Alan Ritchson ou ao gênero de ficção científica. É um filme que funciona bem como ruído de fundo, executado com competência técnica, mas sem a coragem de ser algo além de uma sombra de seus antecessores. No fim das contas, a obra prova que, no cinema, nem toda máquina bem lubrificada possui um coração batendo sob a carcaça de metal.



Marlo George assistiu, escreveu e também tem a mania de carregar os outros nas costas (se for necessário)...

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