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CRÍTICA [STREAMING] | "Stranger Things: Histórias de 85" (Temporada 1), por Marlo George

A chegada de Stranger Things: Histórias de 85 ao catálogo marca a primeira incursão da franquia no território da animação, propondo uma expansão lateral do universo de Hawkins. O que se percebe, de imediato, é uma tentativa de destilar a "aura" oitentista que consagrou os irmãos Duffer em um formato mais palatável e sintético. Contudo, ao buscar essa síntese, a obra acaba por sacrificar a densidade atmosférica em prol de uma acessibilidade que beira o genérico, situando o espectador em um cenário familiar, mas que carece do vigor que outrora definiu o gênero do horror infanto-juvenil contemporâneo.

O roteiro estrutura-se como um compêndio de tropos já explorados exaustivamente nas duas primeiras temporadas da série original. O arco dramático é previsível, movido por conflitos que se resolvem com uma facilidade desconcertante, onde os diálogos abandonam o subtexto em favor de uma exposição didática. A sensação, para o espectador veterano, é a de ouvir a clássica canção do Matanza, "Bom é Quando Faz Mal": temos todos os ingredientes nocivos e fascinantes da diegese de Hawkins, mas aqui eles aparecem em uma versão "diet", amenizada e visivelmente infantilizada, o que compromete o senso de perigo real.


Se na série live-action a força reside na química orgânica do elenco, aqui somos apresentados a novos personagens que falham em convencer. Embora a adição de rostos inéditos seja uma tentativa de oxigenar a trama, o que vemos são figuras caricatas e vazias, cujas motivações parecem presas a diretrizes de representatividade (DEI) que soam anacrônicas e forçadas. Essa abordagem, infelizmente, data o produto antes mesmo de sua maturação, transformando o que deveria ser uma evolução orgânica do grupo em uma ferramenta de checklist que não sustenta o peso emocional necessário para gerar empatia.

A direção opta por uma estética segura, rendendo-se ao convencionalismo da animação comercial moderna em vez de explorar as possibilidades visuais do gênero. Não há uma assinatura clara ou um uso inovador da mise-en-scène; a câmera comporta-se de maneira funcional, apenas registrando a ação sem utilizar a profundidade de campo ou enquadramentos que sugiram o mistério inerente ao "Mundo Invertido". A visão artística parece ter sido suprimida por uma necessidade mercadológica de transformar o terror em um produto de prateleira para o público infantil.

No campo técnico, a animação mostra-se competente em termos de fluidez e acabamento, apresentando uma paleta de cores que mimetiza bem a identidade visual da franquia. Entretanto, a trilha sonora é lamentavelmente insossa, falhando em criar a tensão característica dos sintetizadores que se tornaram a marca registrada de Stranger Things. O design de som é burocrático, incapaz de preencher os vazios de uma trama cansada. Curiosamente, a salvação da imersão para o público brasileiro reside na dublagem. Ao manter as vozes originais da série, a versão nacional cria uma ponte afetiva que a audiência americana — obrigada a aceitar imitadores — simplesmente não possui.


Nas entrelinhas, Histórias de 85 revela o esgotamento de uma fórmula que se recusa a envelhecer com dignidade. O subtexto da obra não propõe reflexões atemporais, mas sim uma conformidade com o momento atual da indústria, onde o conteúdo é priorizado sobre a substância. Ao tentar abraçar pautas sociais de forma superficial, a série acaba por se tornar um artefato de sua própria época, correndo o risco de ser esquecida assim que a próxima tendência de algoritmo surgir, evidenciando que nem toda história de Hawkins merece ser recontada.


Marlo George assistiu, escreveu e já está com ranço de nostalgia

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