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CRÍTICA [CINEMA] | "Michael", por Kal J. Moon

Dirigido por Antoine Fuqua, estrelado por nomes como Jaafar Jackson, Colman Domingo, Nia Long, Miles Teller, Larenz Tate e participação especial de Juliano Krue Valdi, dentre outros, o filme “Michael” é uma espécie de coletânea de melhores sucessos de parte da carreira artística do Rei do POP. Mas o que a produção entrega... faz jus a tudo isso? Que bom que perguntou...

O "moonwalking" do descancelamento
Katherine Jackson - matriarca da família Jackson - contou certa vez numa entrevista que, quando bebê, bem novinho, o pequeno Michael Joseph Jackson (1958-2009) estava junto dela, sentado perto de uma velha máquina de lavar enquanto ela se dispunha a esse serviço tão cansativo e vagaroso que é lavar roupas. E, a cada rimbombar da máquina, a cada sacudidela, a cada ciclo, a pequena criança se agitava e fazia movimentos semelhantes a uma dança infantil, mesmo estando sentada. Katherine disse que olhou aquilo e disse “Hmmm... Essa criança tem algo de especial...”. Só esse trecho do segundo parágrafo dessa crítica tem mais curiosidade e informação do que no filme inteiro dedicado ao Rei do POP.

Há quem diga que o filme “Michael” não seja para a crítica apreciar mas, sim, para fãs presenciar as coreografias de dança, com figurinos idênticos aos originais (alguns, inclusive, são originais mesmo, emprestados por fãs - como a cantora e atriz Lady Gaga, por exemplo - que compraram em leilões e conservaram adequadamente), ouvirem as canções de sucesso e terem a breve sensação de experimentar algo próximo de ver um show do maior artista POP de todos os tempos. 

E para quem acha o contrário... Bem, basta assistir a qualquer filme da Marvel Studios depois da fase 1, que raramente ousou ou entregou tramas e performances que desafiava o status quo mas, sim, trouxe tudo o que a imensa legião de fãs dos personagens da Casa de Ideias mais queriam - não o que precisavam. 

Mas, sejamos sinceros: os filmes “Bohemian Rhapsody”, “Back to Black” (sobre Amy Winehouse), “I Wanna Dance with Somebody - A História de Whitney Houston” e até o recente “Elvis” seguiram a mesma cartilha de não trazer nenhuma grande polêmica para ser debatida e, independente do que a crítica disse à época, foram razoavelmente bem sucedidos em matéria de aceitação de público (e, vale lembrar, na questão da bilheteria também). Então, essa proposta mais “chapa branca” do filme “Michael” irrita por quê mesmo, hein? A resposta é simples: desde toda a polêmica que envolveu o cantor, compositor e exímio dançarino nascido no bairro pobre de Gary, em Indiana (EUA), destruir a imagem dele sempre rendeu muito dinheiro à indústria da mídia - crítica, inclusive.

Mas, ainda respeito do filme, os grandes problemas da residem na formatação do roteiro - escrito por John Logan (indicado ao Oscar por “Gladiador”, "O Aviador" e "A Invenção de Hugo Cabret"): hiper formulaico e raso, sem apresentar personagens com alguma profundidade (nem mesmo o principal biografado!), atendo-se apenas a resumir bastante a cronologia dos fatos até os momentos em que as tais polêmicas da vida pessoal ainda não haviam acontecido. E, vale ressaltar, Logan está responsável pelo roteiro de "You Should Be Dancing", cinebiografia do trio Bee Gees. Dá até medo...


Porem, diversos momentos importantes - e nada polêmicos - deixaram de ser incluídos, como o primeiro especial de TV estrelado pelo grupo Jackson 5 (com um brincalhão Michael Jackson olhando para a câmera e dizendo “Não, não há nenhum problema com seu televisor e essa transmissão não foi feita em preto e branco”) ou a primeira visita ao Brasil (num show no Maracanãzinho em setembro de 1974) ou ainda a performance do grupo no programa apresentado por Cher - em que ela e o grupo fazem a icônica “dancinha do robô” num trecho da canção “Dancing Machine ou ainda o breve namoro com a jovem atriz Brooke Shields (ou mesmo a decepção amorosa de ficar na friend zone com Diana Ross) - mas ,como essa parte seria na parte da adolescência / fase "jovem adulta" de Michael (não abordada na produção), provavelmente teriam de escalar um outro ator para vivê-lo...

"Michael" é um filme correto mas tímido. Curioso pois existem momentos em que há uma tentativa de diálogo social, como quando se é mostrado que, quanto maior o sucesso da família, menos pessoas negras estão na plateia - o que pode ser o indício, segundo a abordagem, de que os shows de Michael Jackson não eram mais bancados por pessoas pobres (só a música alcançava todos os tons de pele; os shows, não - obrigado, Marlo George, sem o qual...). A única cena realmente chocante é a ~"surra raiz" que Joe Jackson dá em Michael com apenas dez minutos de rodagem... Uma cena crua e muito violenta, como o era o patriarca daquela família problemática.

E isso afetou não somente a direção de Antoine Fuqua (de “Dia de Treinamento” e outros filmes bem qualquer nota) como a atuação do elenco principal. Dizer que os estreantes Jaafar Jackson e o pequeno Juliano Krue Valdi arrasam com suas versões de Michael Jackson na infância e na idade adulta é chover no molhado. Mas, nas partes que exigiam dramaturgia, faltou bastante para alcançar uma sintonia maior com a tensão de algumas cenas (isso vale mais para Jaafar do que para Juliano, que, mesmo com pouco tempo de tela, entrega o pacote completo - e não duvidem se o jovem ator for considerado nas temporadas de premiação). Porém, a culpa não é dos atores mas, sim, da direção - ou da falta dela...

(para não dizer que o roteiro não tem cenas inspiradas, pelo menos uma cena no terço final traz um momento de conclusão de arco narrativo - sem spoilers, repare quando tocar a canção "Workin' Day And Night" , momento em que Michael passa um recado ao público mas há algo mais ali e isso se conecta com a primeira cena do filme, em que Joe Jackson diz para o pequeno Michael olhar para ele)

Mas o que o roteiro entrega para o restante do elenco é tão simplório que mais parecem figurantes com falas do que personagens - baseadas em pessoas reais - com alguma relevância na trama (e deveriam ter mas não foi o caso aqui). Além de Jaafar e Juliano, o único ator que teve algum resquício de importância dramática foi Colman Domingo (indicado ao Oscar recentemente por sua performance no bacana “Sing Sing”). Ainda que o roteiro tenha transformado Joseph “Joe” Jackson (1928-2018) quase num vilão digno de filme infanto-juvenil (e, vale lembrar, com anuência da própria família, que ajudou a financiar o filme), o ator entrega um pouco além do que o fraco roteiro lhe entrega - não muito do que é realmente capaz, verdade, mas perto do restante, Domingo ainda tem com o que entregar.

Antes que alguém cisme em dizer que o roteiro precisava mostrar a origem da violência e das exigências de Joe Jackson, vale lembrar que aquele homem, na vida real, era um metalúrgico que, nas horas vagas, era músico de uma banda sem futuro, que tocava em locais baratos, num deles conheceu sua futura esposa, engravidou-a, teve que casar às pressas, como métodos contraceptivos não eram moda na época entre pessoas de baixa renda, tiveram muitos filhos numa fria casa de um bairro de periferia e, em poucos momentos de frustração, gostava de ficar em silêncio dedilhando seu violão - um sujeito bronco, ignorante, de pouca instrução, violento mas com algum talento para negociação e para enxergar potencial musical (porém, nada mais que isso).


Até o dia em que descobriu que seus filhos, já crescidos, tocavam o violão escondidos de madrugada e, óbvio, deu uma surra em todos (dizem que sobrou até para Katherine - mas não há comprovações ou confirmações disso) mas, quando o sangue esfriou, quis saber o quanto os filhos conheciam de sua paixão... E assim teria surgido sua persona de empresário iniciante, que, por acaso, também era o pai dos artistas - e, como geralmente acontece, os abusos ocorrem mais do que se é tolerável...

(toda essa "profundidade" - e "explicações" - que a maioria dos críticos procura foi mostrada com bastantes detalhes na minissérie em duas partes "Os Jacksons - Um Sonho Americano" - que, infelizmente, não está disponível em streaming atualmente no Brasil - mas seria impossível mostrar tudo o que ocorreu na vida pregressa de qualquer membro da família Jackson sem esse filme ter, pelo menos, umas oito horas de duração)

Outra grave dificuldade do filme foram as próteses estéticas de maquiagem e perucas dos diferentes penteados utilizados pelo elenco. E, okay, desde que a indústria cinematográfica se firmou como um meio audiovisual lucrativo, o departamento de maquiagem sofre para alcançar êxito em emular o tom de pele de pessoas afrodescendentes - ainda que estes sempre ficam muito bem quando pintados de verde, como Zoë Saldaña em "Guardiões da Galáxia" ou Cynthia Erivo em "Wicked", dentre outros, por conta do contraste no tom de pele -, mas, na maioria das vezes, a aplicação é praticamente imperceptível... 

Porém, neste filme, são tão mal feitas e grosseiras que mais se assemelham a algo saído de um filme de humor ou de terror com baixo orçamento. Em uma determinada cena, aparece o empresário esportivo Don King (interpretado brevemente no terço final por Deon Cole, de "Vingança & Castigo"). Por algum motivo, a peruca do ator não era grisalha como o cabelo característico da persona real e, sabe lá porque cargas d'água, ainda o fizeram utilizar uma daquelas próteses de orelha - semelhantes às que se vê em cospobres de "Star Trek" -, só que muito mal pintadas de marrom e, no contraluz, ficava hiper reluzente! Mas se Rami Malek ganhou o Oscar usando uma dentadura enorme e um bigode falso ridículo, talvez seja a oportunidade de Domingo agarrar o careca dourado...

A trilha sonora é composta, em suma, de grandes sucessos tanto da família Jackson como um todo. Tanto que não há crédito de compositor de trilha sonora mas, sim, de diversos profissionais de mixagem de som e afins, para garantir uma experiência acima da média nas salas de cinema (se estiver equipada com aparelhagem decente de som, será algo inesquecível). Pois é...

Em termos gerais, “Michael” entrega exatamente o que o público que curte apenas a música e a coreografia do maior entertainer que já existiu - e que jamais haverá outro como ele - quer ver. Se esse é o seu caso, então, a diversão será completa. Do contrário, talvez seja melhor curtir esse “greatest hits” em casa mesmo e poupar seu suado dinheirinho...

(Em tempo: se a tal promessa de continuação se cumprir, talvez, quem sabe, a crítica tenha o que alega ter faltado nesse filme - para ter, de novo, o que falar mal. Aguardemos as cenas dos próximos capítulos...)


Kal J. Moon já apanhou de cinto, sabe fazer o passo "Moonwalk'" (é sério!) e sentiu falta da "dancinha do robô"...

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