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CRÍTICA [CINEMA] | "Obsessão", por Kal J. Moon

Escrito e dirigido por Curry Barker, estrelado por Michael Johnston, Inde Navarrette, Cooper Tomlinson, Megan Lawless e Andy Richter, o filme "Obsessão" chama a atenção por conta de uma boa ideia mas peca na execução...


O pesadelo da idealização
Em seu livro "Deuses Americanos", o roteirista e escritor Neil Gaiman descreve uma cena em que uma profissional liberal do sexo pede a seu cliente que a trate como uma deusa durante o coito. Isso inclui acender uma vela antes de iniciar o "rito" e "idolatrá-la" verbalmente enquanto realiza o ato. O que ocorre no clímax é um misto de humor negro e algo saído de um filme de terror - mas, no fundo, só denota que o tal "amor romântico" não passa de uma "adoração a um ser humano". Por outro lado, a maioria das pessoas já deve ter visto um ou mais cachorros correndo atrás de uma motocicleta, latindo ferozmente. Mas, quando o veículo pára, não sabem o que fazer. O filme "Obsessão" parece oscilar entre esses dois extremos para contar a sua história - além de buscar inspirações em "A Substância" (com regras muito bem estabelecidas) e "Atração Fatal" (com consequências indesejadas em relação a uma falta de correspondência de sentimentos - e em uma cena bem específica).

Na trama, após quebrar o misterioso “One Wish Willow” - ou "Salgueiro do Desejo" - para conquistar o coração de sua paixão, um romântico incurável acaba conseguindo exatamente o que pediu, mas logo descobre que alguns desejos têm um preço sombrio e sinistro. 

O roteiro de Curry Barker - um bem-sucedido Youtuber que lança esquetes e curtas em seu canal, com bastante audiência - aborda a clássica fórmula de "garoto encontra garota" e toda a problemática norte-americana que enfiaram na cabeça de toda uma espécie a respeito da tal pessoa "certa" para cada outra pessoa. Apesar do tema misturado ao terror (e à fantasia) fazer bastante sentido para chamar a atenção de toda uma nova geração, que parece estar cada vez mais individualizada e menos interessada em relacionamentos complexos, ainda há quem insista nessa falácia de amor "verdadeiro" e "nascidos um para o outro". Esse filme fala - de forma cínica, exacerbada e bem óbvia até - sobre como idealizar pessoas (que são falhas, no final das contas) é algo tremendamente errado.


O problema é que o roteiro de Barker - como a maioria dos roteiros de iniciantes em longas - é bem... previsível. Quando toda a situação é estabelecida - e uma adição à "regra principal" é verbalizada -, a audiência consegue, por si só, imaginar como se dará a cena final. Inclusive, vale salientar que Barker quase arruína de vez o final da trama e teve de ser convencido tanto por seu pai (o roteirista e dramaturgo Jeff Barker) e uma das produtoras do filme a mudar o final original para o que acontece em tela na versão final (e isso só denota a inexperiência do autor em resoluções de roteiros para longas-metragens).

(Falando nisso, o final dessa trama é completamente divisivo e questionável, uma vez que todas as consequências recai sobre a real vítima - o que, segundo a própria trama, só demonstra que o protagonista é tão covarde que, mesmo na decisão mais importante de sua vida, não consegue assumir a responsabilidade pelos seus atos)

Além disso, algumas situações mostradas ao longo da rodagem mostram que, em mãos mais experientes, poderiam ser resolvidas de forma simples e objetiva - como, por exemplo, a cena em que a personagem Nikki começa a gritar num restaurante, causando constrangimento ao protagonista Bear. Ainda que a trama parta de um pressuposto "fantástico", com situações que beiram o absurdo, teria de haver ao menos um contraponto ali, com um garçom ou maitre pedindo compostura ou ambos seriam retirados do recinto, certo? Mas absolutamente ninguém reage ao redor, como se nada incomum estivesse ocorrendo... Pois é.

(OK, existe uma segunda situação em que ocorre algo parecido e, aí, sim, temos o desconforto das pessoas ao redor - talvez, a cena mencionada anteriormente possa ter sido filmada numa locação real, sem auxílio de figurantes por conta do baixo orçamento da produção)


O roteiro é até "esperto" em inverter a situação de "vítima" em histórias de terror onde, costumeiramente, se torce para que a pessoa vença o mal no fim. Bear não é esse tipo de personagem por quem a audiência torça. Ele torna-se vítima de seu próprio desejo e egoísmo. Não desistiu de continuar "usufruindo" dele nem quando os sinais eram bastante evidentes para que fizesse o contrário - se não por autopreservação, pelo menos por compadecimento da verdadeira vítima.

E, nesse sentido, atrama se parece mais com um roteiro de uma peça de teatro do que realmente algo feito para ser filmado - se não houvessem outros cenários a serem explorados nessa trama, facilmente daria para montar uma adaptação teatral dessa história (e, talvez, mais bem resolvida). Em alguns momentos, têm-se a impressão de que as cenas se prolongam demais.- e aí já é um demérito do próprio Barker, que também trabalhou como editor e montador.

Quanto à direção de Barker, mesmo com um projeto problemático, até que convence. As tomadas se "parecem" com a de um filme "de verdade", sem reinventar a roda, um "básico bem feito" - mérito compartilhado com a direção de fotografia de Taylor Clemons (também egresso do mercado de curtas-metragens e clipes musicais), que estabelece boa compreensão e estabelecimento de chiaroscuro para mudança de personalidade de Nikki ou clima de tensão em algumas tomadas. Barker também sabe o que quer de seu elenco - e nem sempre são decisões "fáceis" de se "alcançar", são propostas que conversam mais no campo "feérico" ou "abstrato" (por falta de palavras melhores). O filme também se utiliza de uma paleta de cores bem próximo do marrom em tomadas noturnas, mas nas cenas diurnas os ambientes são bastantes estéreis, refletindo o estado de espírito do protagonista.

Dito isso, apesar de todo o elenco estar bem funcional, o destaque é mesmo a dupla de protagonistas Michael Johnston (que, um dia, já esteve na série "Teen Wolf" e, hoje, trabalha também como ator de voz original em games como "Final Fantasy VII Rebirth", "Star Wars Jedi - Fallen Order" ou "God of War - Sons of Sparta") e Inde Navarrette (mais conhecida por seu papel de filha de Lana Lang na série "Superman & Lois", mas que esteve, recentemente, no filme "Boca de Fumo").

Ambos têm uma "química inversa" - que casa bem com a proposta do roteiro - e trabalham bastante a aproximação e a subsequente repulsa gradativa, numa mise-en-scène admirável para jovens atores. Apesar disso, a personagem de Navarrette exige bem mais em matéria de complexidade de dramaticidade - uma vez que existem três estágios de atuação: a Nikki "real", aquela "criatura" que Nikki se torna e a Nikki "inconsciente" (e a atriz abraça cada "conceito" adequadamente e entrega uma performance convincente em cada "fase"). 


Navarrette também se esforça em expressões faciais que fogem do que é considerado um comportamento humano, beirando o cartunesco e utizando até expressões que se assemelham a de "clowns" ou mímicos como se estivesse, de fato, "possuída" (note a diferença e sutileza no sorriso da Nikki real e da Nikki "após o desejo ser realizado" - igualmente adequadas à proposta do roteiro. 

Mas Johnston também faz por onde e traz alguma credibilidade a seu personagem (mesmo com decisões questionáveis de roteiro - mas que, em momento algum, o papel parece "mal interpretado" pelo ator), que vive o verdadeiro pesadelo do "escravoceta" (não, não tem outra palavra para descrever o personagem) - principalmente aquele não sabe o que fazer quando, finalmente, consegue o que tanto desejava.

"Obsessão" não é um filme ruim, mas está longe de ser a oitava maravilha do cinema como estão alegando por aí. Porém, mesmo com percalços narrativos, aborda temas importantes como o egoísmo masculino e o julgamento moral de vítimas em relacionamentos tóxicos - além de ser, praticamente, uma denúncia a respeito dessa idealização da "pessoa amada" (um conceito tão obsoleto e que sempre acaba em decepção). Baixe bastante a expectativa, reflita e, talvez, até dê para apreciar o que é exibido.




Kal J. Moon assistiu e, quando acabou, cantou: "Não era amor, era... Cilada!".

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