A aura que envolve o universo de Westeros sempre foi pautada pelo espetáculo trágico do poder, e no terceiro ano de A Guerra dos Tronos - A Casa do Dragão (Game of Thrones: House of the Dragon, para os íntimos), o showrunner Ryan Condal busca fincar os pés do drama em uma atmosfera quase shakespeariana de decadência familiar. Com episódios, em sua maioria, excelentes, a terceira temporada de A Casa do Dragão tenta reparar os vários problemas da temporada passada, encerrando, de fato, a mesma em seus primeiro e segundo episódios que funcionaram como uma season finale da temporada anterior, logo no início da temporada atual que se inicia, na prática, no seu terceiro episódio, que traz diversos elementos estruturais que demonstraram e evidenciaram de que este seria, ou deveria, ser o primeiro episódio da terceira temporada.
Textualmente, o roteiro deste ano apresenta um ritmo oscillante, mas indubitavelmente superior à compostura cadenciada e por vezes estagnada de seu antecessor. A condução da narrativa aposta em diálogos mais incisivos e menos meramente expositivos, organizando o conflito através de maquinações políticas diretas e sequências de combate visceral. Contudo, o peso de ter que reorganizar o tabuleiro geográfico da temporada passada ancora a progressão natural dos atos. Há uma tentativa visível de amarrar as pontas soltas antes de permitir que os nós dramáticos realmente se arrochem, o que resulta em uma estrutura de capítulos com clímaxes ligeiramente deslocados.
Nas atuações o grande destaque é para a atriz Phia Saban, intérprete da personagem Helaena Targaryen. Sua sutileza e estudo da personagem garantiram uma das melhores interpretações do ano. Ela entende Helaena, ela vive Helaena, Ela é Helaena. Todos os detalhes necessários para viver uma mulher com alguma neurodivergência, não diagnosticada (e isso nem é preciso), são aplicados em sua excelente performance. Você acredita que ela é uma pessoa especial.
Outra performance matadora é de Emma D'Arcy, como Rhaenyra Targaryen. Se seu nome não for lido durante a apresentação dos indicados ao Emmy uma injustiça será cometida. Trata-se de uma atriz comprometida com seu trabalho e executa tudo com uma maestria digna de nota. É uma das melhores atrizes de sua geração.
Um dos pontos baixos da temporada foi todo o núcleo de Harrenhal. Ewan Mitchell como Aemond Targaryen e Gayle Rankin como Alys Rivers repetiram o que foi o pior enredo da segunda temporada. Nem mesmo a participação de Alicent Hightower, interpretada pela bela Olivia Cooke, melhorou o arco que parecia servir apenas como uma maneira de afastar alguns personagens importantes da trama principal e poupar os custos com mais um dragão na dança, já que Vhagar, a dragoa de Aemond, mal aparece na temporada.
Um ponto alto é a redenção de Aegon II Targaryen, vivido por Tom Glynn-Carney.
Os demais atores, desde os importantes como Matt Smith, aos dispensáveis, como Abubakar Salim, se saíram bem e, se tiveram algum prejuízo à sua performance isso se deve ao próprio roteiro que tem muitos núcleos, atores e coisas para lidar com poucos episódios para contar tudo o que precisa ser contado. Especialmente em uma temporada que dedicou seus dois primeiros episódios a concluir a temporada anterior para poder pegar o próprio ritmo.
Do ponto de vista da direção e da visão artística, a produção opta por uma abordagem de câmera visivelmente mais participativa e menos contemplativa. Os diretores de fotografia empregam movimentações fluidas que transitam com facilidade do íntimo ao monumental. A mise-en-scène valoriza o isolamento físico dos governantes em relação a seus súditos e exércitos, criando uma clara assinatura visual de decadência moral onde castelos gigantescos parecem aprisionar seus próprios ocupantes. A fotografia explora com inteligência a profundidade de campo para desenhar a constante paranoia entre as facções, contrastando a iluminação fria das fortalezas com as tonalidades quentes e opressivas dos focos de incêndio dos dragões.
O design de som é exemplar ao equalizar o ruído diegético das asas e rugidos com a opulência da trilha sonora, permitindo que a mixagem crie uma sensação de urgência sufocante nas cenas de ação sem soterrar a organicidade das interpretações.
Em seu subtexto, a obra expande seu diálogo atemporal sobre a autodestruição motivada pelo apego cego às instituições e aos nomes de família. A Dança dos Dragões deixa de ser apenas uma disputa pelo Trono de Ferro e passa a servir como uma alegoria cortante sobre como o poder sem responsabilidade inevitavelmente devora a si mesmo e a todos que estão ao seu redor.
Com mais momentos positivos que negativos, a temporada se encerra com um tabuleiro montado para a season finale daqui a dois (longos) anos. No saldo final, a produção reafirma sua capacidade de entregar um entretenimento televisivo de altíssimo nível, mesmo quando tropeça na própria ambição narrativa. É uma obra monumental que exige paciência, mas recompensa o espectador quando decide abraçar sem pudores a inevitabilidade de sua própria tragédia.
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