Lembra quando todo mundo curtia assistir à comédias rasgadas estreladas por uma dupla desastrada, que se estranhava a princípio e que se metia "em altas confusões" em busca de um objetivo em comum? Lembra que não era necessário que o roteiro desse tipo de comédia tivesse muitas complicações acerca das atualidades, mas, simplesmente contava sua história de forma simples e objetiva, cumprindo bem o papel de entretenimento?
Lembra quando o mundo era menos chato, aborrecido e se levava menos a serio? Aparentemente, alguém em Hollywood ainda lembra pois o filme "Mayday" traz aquele tipo de diversão descompromissada que até tem algum resquício de conscientizar a audiência, mas prima por trazer uma trama coesa e momentos bem engraçados - e até se estranha de que essa produção não tenha ganhado uma chance nas telonas dos cinemas...
O roteiro de John Francis Daley & Jonathan Goldstein (ambos do bacana - e subestimado - "Dungeons & Dragons: Honra Entre Rebeldes") é simples, porém muito eficaz em estabelecer a conexão entre a dupla principal de personagens, trabalhar bem a dinâmica entre eles e apontar o objetivo a ser alcançado. É um projeto muito bem pensado para aproveitar o ponto forte de cada ator em cena e extrair o melhor que cada um tem a oferecer. Não seria estranho se a dupla fosse lembrada nessa temporada de premiações...
O destaque óbvio da produção é a química imediata entre Ryan Reynolds (o eterno Deadpool, que esteve no recente "Deadpool & Wolverine") - aqui num estilo de atuação um pouco mais sóbria do que o costume, tentando parecer uma pessoa mais real e com menos "jeito Ryan Reynolds de ser" (o que é muito bom!) - e Kenneth Branagh (do recente "O Diabo Veste Prada 2"), muito convincente interpretando um russo decepcionado com o regime, MUITO bom de briga e que, para tornar o personagem ainda mais interessante, um verdadeiro apaixonado pela cultura POP dos Estados Unidos. A mise en scène dos atores confere bastante verossimilhança com o que aconteceria na vida real, mas sem parecer naturalista ao extremo.
A atriz e comediante Maria Bakalova (curiosamente, indicada ao Oscar por seu papel como filha de Borat no filme "Borat - Fita de Cinema Seguinte") entrega uma rara performance dramática como a filha de Nikolai, que carrega consigo um segredo que nem é tão problemático assim, mas, por conta dessa parte, o filme dá uma parada para resolver essa parte da história do coprotagonista - sim, é uma parte necessária, mas poderia ser encurtada, como ocorreu com o ator David Morse (da recente série "Mentirosos"), interpretando o pai doente de Troy, com uma passagem levemente dramática, mas sem esbarrar no melodrama barato.
Já o ator Marcin Dorocinski (que faz breve participações nos filmes "Missão: Impossível - Acerto de Contas (Parte Um)" e "Missão: Impossível - O Acerto Final") interpreta o típico vilão casca-grossa que fará de tudo para cumprir seu objetivo mais nefasto - porém, infelizmente, o roteiro não lhe privilegia com boas falas ou mesmo situações que o faça se destacar.
Kal J. Moon nem poderia, mas come um bom hambúrguer de vez em quando - porém, acrescenta bastante salada de alface para compensar...
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Talvez o grande destaque técnico seja a criativa direção de fotografia comandada por Barry Peterson (de "Anjos da Lei 2"), com ângulos diferenciados e inusitados, bom giro de câmera, ora entregando o aspecto geral da situação, ora simulando o ponto de vista da audiência, como se cada espectador estivesse fazendo parte da cena. Também não seria estranho se figurasse na temporada de premiações.
O figurino de Debra McGuire (do filme "Mistério em Paris") e a direção de arte de Caroline Alder (de "X-Men - Dias de um Futuro Esquecido") são realmente impressionantes, trazendo à mente como eram as vestimentas da antiga União Soviética na era Gorbachev. Já a trilha sonora composta por Colin Stetson (de filmes como "Hereditário" e "O Menu") é eficaz, porém nada marcante - até porque, numa boa sacada de roteiro, boa parte do que se ouve em matéria de música no filme são canções compostas por Bruce Springsteen, além de outros cantores de sucesso nos anos 1980.
"Mayday" é um filme que não precisa de muito para agradar, entretém e diverte na mesma proporção e até traz alguma reflexão sobre o que se pensava sobre o capitalismo desenfreado do militarismo dos Estados Unidos e a visão humanitária de parte da população da antiga União Soviética - porém sem maniqueísmo panfletário. Além disso, é mais uma prova que a comédia não está morta, mas falta vontade de Hollywood em ressuscitar o gênero - e, com ótimos exemplares como esse, talvez não seja uma má ideia...
(ATENÇÂO: quando o filme terminar, aguarde pois, durante os créditos, tem uma micro-cena que é uma espécie de "explicação visual" de algo que é mencionado durante toda a trama - e só vendo para entender porque é tão engraçado)
(ATENÇÂO: quando o filme terminar, aguarde pois, durante os créditos, tem uma micro-cena que é uma espécie de "explicação visual" de algo que é mencionado durante toda a trama - e só vendo para entender porque é tão engraçado)
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