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CRÍTICA [CINEMA] | "Se Eu Fosse Você 3", por Kal J. Moon

Dirigido por Anita Barbosa, estrelado por Cleo Pires, Rafael Infante, Valentina Daniel, Paulo Rocha, Yohama Eshima e Dan Ferreira, além de participação especial dos veteranos Tony Ramos, Glória Pires e Rosi Campos, o filme "Se Eu Fosse Você 3" resiste ao teste do tempo e entrega uma diversão bem mais antenada aos tempos modernos...


Passando a tocha
A franquia "Se Eu Fosse Você" existe desde 2006 (exatos vinte anos!), é composta por três filmes e uma série de TV (que durou duas temporadas, exibidas entre os anos de 2013 e 2015), sendo um grande sucesso do cinema e no imaginário coletivo brasileiro - gerando até uma deliciosa paródia pela galera do saudoso programa "Choque de Cultura".

A ideia não era nova: pessoas em conflito emocional acabavam, misteriosamente (ou não) trocando de corpos e tendo de lidar com os problemas através de espírito de equipe e compreendendo as dificuldades de calçar os sapatos de outro alguém - temática explorada em filmes como "Sexta-Feira Muito Louca" (a versão original de 1976 tem Jodie Foster adolescente no elenco!), "Vice-Versa" (com Fred Savage pouco antes de estrelar a série "Anos Incríveis") e até o recente (e cultuado) anime "Your Name". A questão é que a fórmula poderia ser aplicada em personagens de qualquer lugar do planeta, explorando particularidades daquela cultura e, claro, que o Brasil acertou em cheio em replicar aqueles conflitos com nosso tempero.

Essa terceira incursão da franquia cinematográfica tende a pisar (um pouco) o pé no freio, abordando o estabelecimento do problema e sua consequente resolução sob um ponto de vista mais íntimo, fazendo com que o escopo da produção seja bem menor que os dos dois filmes anteriores - o que, por um lado, é bom, uma vez que existem menos cenários, personagens e possibilidades a se explorar; mas, por outro lado, limita um pouco alguns aspectos da trama que poderiam ser melhor explorados.


Na trama - duas décadas depois da última troca de corpos entre Cláudio e Helena - sua filha Bia agora é adulta, é responsável pela cozinha de um famoso restaurante na pacata cidade turística de Miguel Pereira (interior do Rio de Janeiro) tem uma filha e mora junto com Aquiles, um instrutor de esportes radicais e guia num parque ecológico da região.

Durante um desentendimento entre o casal, ambos proferem a fatídica frase "Se eu fosse você", trocam de corpos um com o outro e enfrentarão um novo desafio pois Bia está esperando a visita de jurados de um importante ranking gastronômico em seu restaurante enquanto que Aquiles tem uma competição de corrida e esportes radicais para vencer no parque onde trabalha. O problema é que Bia morre de medo de altura e não tem perfil atlético - e, pra piorar, Aquiles precisa aprender a cozinhar para conseguir tocar o restaurante! Além disso, Bia descobre que está grávida, mostrando que, mais do que nunca, será necessário se colocar no lugar do outro... literalmente. 

O roteiro escrito por Leandro Soares (do recente filme "Família, Pero No Mucho" e do vindouro "Overman - O Filme") estabelece bem a premissa de um casal que, talvez, não esteja muito em sintonia, tentando resolver um problema grave que precisa de atenção e esforço mútuo. Também não perde muito tempo explorando muitas facetas desse relacionamento: o que se sabe é o que é dito pelos personagens e pronto.

Porém, mesmo que possa parecer um pouco de exigência, saber como esse casal tão diferente se conheceu e se apaixonou poderia resolver alguns conflitos da trama de forma um pouco mais orgânica. Nada que, necessariamente, estrague a experiência - mas complementaria algumas situações que aparentam alguma falta de lógica como as reclamações e a decisão de separação por parte de Bia, por exemplo (os motivos apresentados não são nem um pouco razoáveis perante ao que a trama aborda como "defeitos" da parte de Aquiles, por exemplo). É como se os problemas abordados não fossem lá tão grandes assim antes da troca de corpos...

A direção de Anita Barbosa (que codirigiu o filme "Tudo Por Um Pop Star" - e, anteriormente, foi assistente de direção do filme original) é funcional e coordena bem o caos instaurado e a providencial restauração à ordem. O que leva à atuação da dupla Cleo Pires e Rafael Infante, que tem a difícil missão de substituir Tony Ramos e Glória Pires nesse novo capítulo da franquia. 


Cleo Pires (do recente filme "O Velho Fusca", mas já chamava a atenção desde que apareceu interpretando a versão mais nova da personagem de sua mãe na minissérie "Memorial de Maria Moura") segura bem a peteca e consegue captar bem o jeito quase aparvalhado mas de bom coração do personagem Aquiles, até ao abrir um pouco mais a boca ao sorrir (uma característica marcante do ator Rafael Infante) e imprimindo bem o modus operandi psicológico dele.

Já Rafael Infante (mais conhecido por inúmeras esquetes do grupo "Porta dos Fundos" e do recente filme "Um Pai em Apuros") até consegue entregar uma performance convincente, mas faltou alguma sutileza em reproduzir parte do comportamento da personagem Bia - Cleo Pires interpreta de forma um pouco mais "centrada" e "focada" do que o que o ator apresenta em sua versão daquela pessoa...

O restante do elenco está bem funcional e não existem muitos destaques pois a trama faz com que os coadjuvantes orbitem em função dos protagonistas, sem arcos narrativos significativos ou realmente importantes na história.


A direção de fotografia comandada pelo trio Lucas Bobst (da série "Homem em Chamas"), Gustavo Lucciola (da série "Cidade Invisível" e do vindouro filme "Cabras da Peste 2") e Fernanda Pinheiro (do recente filme "Corrida dos Bichos") se utiliza bastante do recurso de filmagens com drones, garantindo ótimas panorâmicas em externas, com bom controle de luz natural e captura ideal de paisagens - mas também deixando o produto com "cara de comercial". A trilha sonora do saudoso Guto Graça Mello (1948-2026) também é funcional, evocando o tema principal da franquia, mas adicionando batidas mais modernas em outros trechos.

"Se Eu Fosse Você 3" é o típico filme leve, divertido, gostosinho de assistir e com um tantinho de emoção, feito especialmente para ser assistido naqueles dias em que se precisa desanuviar um pouco a mente. Que não demore mais vinte anos para ter outro exemplar da franquia...


Kal J. Moon ainda quer saber o que aconteceu com os personagens de Thiago Lacerda e Lavínia Vlasak após trocarem de corpos no final do primeiro filme, riu da piada envolvendo Nova Iguaçu e já teve uma vizinha fofoq- hã, "cronista da vida pública" chamada... Dona Neide.

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