Conan: Ciméria,

CRÍTICA [QUADRINHOS] | Conan: Ciméria, por Jorge Caffé.

13:45 Holtz Caffé 0 Comments

Quando Kurt Busiek foi confirmado para a reformulação da série em quadrinhos do Conan pela Dark Horse, ele foi enfático em dizer que não utilizaria os textos descritivos de Howard, uma vez não ser necessário descrever as imagens desenhadas pelo artista.  Obviamente, essa foi uma referência a longa fase anterior do personagem, na Marvel Comics. Roy Thomas, responsável pela adaptação, sempre dizia ser impossível enxugar as histórias de Howard, uma vez que seu texto era vibrante e envolvente.

Uma comparação entre a fase Marvel e a primeira etapa da fase Dark Horse nos permite perceber o efeito disso. Enquanto o Conan da Marvel tinha uma leitura densa, o da Dark Horse era bem mais leve.

Quando alcançou a edição 50, a Dark Horse decidiu zerar a numeração, dando inicio a uma nova fase na saga do personagem, junto com uma nova série. Timothy Truman foi chamado dessa vez para os roteiros, e experiente autor tanto de quadrinhos como de livros de RPG (tendo trabalhado para a extinta TSR - criadora do Dungeons and Dragons - e autor de Grimjack - que pode ser encontrada em sebos sem muita dificuldade), além de ser lembrado pela reformulação do Gavião Negro numa minissérie pós Crise das Infinitas Terras, decidiu respeitar o texto de Howard, mesmo que em escala menor que Roy Thomas.

Kurt Busiek
Conan foi criado para revistas PULP da década de 30 do século passado, e suas histórias eram avaliadas pela sua extensão. Os autores tinham a tendência de alonga-las para receberem mais, porém o trabalho do editor era exatamente de perceber quando isso ocorria e enxugar o excesso. Essa era a magia de Howard. Ele tornava cada palavra parte de uma descrição ou evento indispensável para a história.  

E na primeira história de Truman à frente de Conan, pode-se perceber como ele desempenha isso de forma competente. A história, inédita, e não uma adaptação, mostra um jovem Conan voltando para a Ciméria (sua terra natal) após uma viagem pelos reinos civilizados do sul. Paralela a história do próprio personagem título da série, pode-se acompanhar, por flashback, as aventuras de Connacht, avô de Conan, cujas viagens  aos reinos do sul motivaram o bárbaro em sua jornada aos reinos civilizados.

A versão brasileira, pela Mythos editora, apresenta as duas primeiras histórias da segunda série do personagem, uma versão ilustrada do poema "Cimmeria" originalmente publicada como uma edição especial de 0,99 dólares. A arte fica por conta de Tomás Giorello, que já havia assumido algumas edições antes da renumeração, com uma participação especial de Richard Corben nos flashbacks de Connacht. Tanto Giorello quanto Corben funcionam bem na selvageria da Era hiboriana e nas paragens bucólicas da Ciméria. Mas a arte de Corben se encaixa de forma maestral a narrativa de Connacht, surpreso e impressionado com os costumes civilizados e os terrores religiosos dos sacerdotes, como sangrentos sacrifícios humanos. Connacht, diferente do neto que inspiraria, não teve altas aventuras heroicas, sendo seus contos mais sombrios e introspectivos. Mesmo sendo criações de Truman, esses contos seguem a tradição das aventuras  PULPS da origem de Conan, eventos repentinos de um dia ou uma única noite, com toda a narrativa e ação focadas em eventos curtos e diretamente relacionados. Mais uma grande sacada e respeito para com o autor original. 

Timothy Truman
A fase de Truman já acabou há muito tempo nos Estados Unidos, mas aqui no Brasil, ainda estamos na metade dela -  "Ciméria" é seguido por "O Colosso Negro" e "Companheiros Livres" - mas com certeza terá momentos de grande divertimento e satisfação. A Mythos Editora tem feito um trabalho primoroso oferecendo ao público uma variedade de histórias de diversas editoras, mostrando que o mundo dos quadrinhos nãos e resume a capas e rajadas cinéticas. (O que muito me agrada também...)

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Jorge Caffé leu, escreveu e é o novo crítico do Poltrona Pop.

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