Bruce Springsteen,

CRÍTICA [MÚSICA] | Bruce Springsteen - High Hopes, por Kal J Moon

12:07 Kal J. Moon 0 Comments

Um grande amigo me disse, certa vez, que não gostaria, nunca, de ser personagem de quaisquer canções escritas por Bruce Springsteen pois a grande maioria do que ele canta são contos povoados por perdedores. Bem, isso pode até ter alguma razão, dependendo do ponto de vista. Mas, até aí, o mundo está lotado de perdedores. E há um certo charme em escutar algumas das histórias desses fracassados entoadas por "The Boss" e ver, num suspiro de alívio, que não é sua própria história sendo compartilhada ali.

Bruce Springsteen começou sua carreira como músico numa banda em 1965. Ele costumava dizer que haviam duas coisas impopulares em casa: ele próprio e sua guitarra.

Arte promocional
(Divulgação)
Grande fã de Elvis Presley, fazendo aniversário no mesmo dia que o hoje saudoso Ray Charles, Springsteen só começou a ser realmente notado entre os anos 1970 e 1980, justamente por ser confundido com o cantor Bob Seger - ambos tinham um jeito parecido de cantar, além de seus repertórios conterem canções falando sobre o homem comum.


Vieram os anos 1980 e - a exemplo do que aconteceu no Brasil e o rock nacional durante as Diretas Já -, a música de Springsteen deu voz a muitos protestos em prol dos trabalhadores das indústrias de automóveis nos EUA, que estavam sendo substituídos por mão de obra barata ou por estrangeiros... Sua canção chegava às rádios do mundo inteiro e tornavam versos como "Eu nasci nos Estados Unidos" ou "Você não pode acender um fogo sem uma fagulha" relevantes a toda uma geração.


O tempo passou, a carreira perdurou e, em 1995, juntou-se a The E Street Band, no que se mostrou uma valiosa decisão até agora. Em 2013, esteve no festival Rock in Rio, onde surpreendeu o público mais jovem com uma verdadeira maratona de mais de três horas de pura música, um feito e tanto para um senhor que, no dia seguinte ao show, completava 64 anos... E este ano, temos o lançamento de "High Hopes", disco onde canções novas e outtakes se misturam a alguns clássicos - de Springsteen e outros intérpretes -, mostrando que ainda tem muita lenha para queimar.


Abaixo, segue os comentários sobre as doze faixas, uma a uma, tentando entender as inspirações por trás de um disco de rock cheio de curiosidades a respeito...


- High Hopes: Iniciando um verdadeiro desfile de petardos, temos uma cozinha muito bem entrosada com a bateria nervosa de Max Weinberg, o tenebroso baixo de Garry Tallent e a guitarra vibrante de Nils Lofgren, além do swingado piano de Roy Bittan. Essa é a primeira das sete faixas que tem a essencial participação do guitarrista Tom Morello, o que dá um molho encorpado e todo especial - e um pouco sombria, eu diria - à canção escrita e gravada originalmente por Tim Scott McConnell em 1987 - que não deve ser confundida com a clássica canção popularizada na voz de Frank Sinatra. A letra entrega alguém desesperado por conta da solidão, mesmo cercado pela rotina. "Dê-me ajuda, dê-me força / Ah, dê-me uma alma numa noite de sono sem medo / Dê-me amor, dê-me paz / Você não sabe que atualmente se paga por tudo?", reza a letra. É, sob este ponto de vista, talvez o arranjo tenha feito justiça, então...



- Harry's Place:
Outtake do disco The Rising, somos levados a conhecer o influente Harry, personagem que poderia ter sido criado por Frank Miller nos quadrinhos de Sin City. Mas, talvez, Harry nem mesmo exista, como atesta o verso "Ninguém sabe seu número, ninguém sabe seu nome / Se ele não existiu, isso era algo que todos preferiram deixar como está". Tom Morello lidera com a bela e rascante base de guitarra, seguido pelo restante da banda, numa interessante atmosfera noir moderna...



- American Skin (41 Shots)
: Originalmente apresentada por Springsteen durante um show em Atlanta no ano 2000, essa balada cantada quase que num sussurro, de forma suave e coerente, que poderia muito bem servir para encerramento de um filme, revela uma dura crítica ao incidente ocorrido no Bronx em 04/02/1999, quando quatro policiais deram um total de 41 tiros no jovem imigrante africano Amadou Dialio, de 22 anos, por confundí-lo com um estuprador e revidarem por ele ter pego sua carteira, o que julgaram ser uma arma de fogo ou uma faca. A canção apresentada no show foi filmada e compartilhada via internet pelo público daquele show e acabou sendo acusada por Rudolph Giuliani - então prefeito de Nova York - de que Springsteen criou a canção de forma a dar apoio à candidatura de Hillary Clinton. Independente da verdadeira intenção do compositor, não tem como ignorar versos contundentes como "Isso é uma arma? / Isso é uma faca? / Isso é uma carteira? / Isso é a sua vida / E não há segredo, meu amigo / Você pode ser morto apenas por viver em sua Pele Americana". Político, incisivo e, ainda assim, belo como o mais trágico dos poemas.



- Just Like Fire Would
: Esta é uma cover da canção de 1986 escrita por Chris J. Bailey e originalmente gravada pela banda The Saints. Em dezembro de 2013, durante uma entrevista, Springsteen contou que gostava muito desta canção e ela estava em sua mira por pelo menos vinte anos. Meio folk meio country, em marcha lenta e ritmada, oferece um bom tema pra história de um trabalhador comum norteamericano, que vive pelas estradas, dorme em hotéis baratos e consome vinho e amores fugazes. O arranjo de trompetes deu um ar quase mexicano, integrando-se bem ao tema proposto por Springsteen e Tom Morello.



- Down in the Hole:
Outro outtake do disco The Rising, temos uma calma balada que segue as mesmas experimentações da canção Streets of Philadelphia porém com letra menos pessimista mas igualmente contemplativa. O belo solo de violino executado por Soozie Tyrell traz a calidez necessária a este libelo ao envelhecimento.



- Heaven's Wall:
Outtake do disco Magic, gravada algumas vezes entre 2002 e 2005, finalizada em 2007, talvez a canção mais controversa do disco - ao lado de American Skin. Com ritmo e percussão muito bem marcada por Springsteen e Ron Aniello, deixando a guitarra principal a cargo novamente de Tom Morello, temos uma espécie de celebração com personagens do Antigo Testamento. Nada errado com isso mas sempre há quem torça o nariz para temas como esse explorados como uma boa canção pop.



- Frankie Fell in Love
: Embora também seja um outtake do disco Magic, essa clássica baladinha rock - que pode tranquilamente figurar como trilha sonora de qualquer comédia romântica estrelada por Jennifer Aniston - dá uma iluminada no repertório, fazendo desta uma canção bem "pra cima". A letra - que fala de amor - traz uma muito bem humorada conversa entre Einstein e Shakespeare, simbolizando o eterno combate entre razão e emoção quando alguém se apaixona...



- This is your Sword
: Gravada entre 2012 e 2013, teve bateria executada por Josh Freese no lugar de Max Weinberg pois este estava ocupado na turnê Wrecking Ball. Essa é uma daquelas canções que tem forte influência no cancioneiro protestante norteamericano, com direito a mandolim, banjo, piano, órgão e violino. Mais uma vez, temos uma canção otimista, composta por versos como "Os tempos são tenebrosos, trevas cobrem a terra / Mas o mundo está cheio da beleza do trabalho de Deus". Belos arranjos e interpretação competente.



- Hunter of Invisible Game
: Embora tenha começado a escrever esta canção apenas por achar que era um bom título, Springsteen começou a imaginar um futuro pós-apocalíptico, numa terra devastada, onde o protagonista tem de caçar para sobreviver e manter-se são. Curiosamente, é uma canção leve, calma, cantada por Springsteen de forma quase falada, com toques de violino e orquestra. E é uma das favoritas de Tom Morello pois ele lutou muito para trazê-la ao disco e ouvia muitas vezes para "fazê-la funcionar". Deu certo.



- The Ghost of Tom Joad: regravação da canção que deu título ao disco de Springsteen em 1995, já foi gravada pelas bandas Rage Against the Machine (de onde veio Tom Morello) e Mumford and Sons, com participação de Elvis Costello. Mas por que regravar uma canção tão querida e emblemática quanto esta? Talvez para batizar com fogo a parceria com Morello. Se a original já era um rock clássico, incisivo e questionador, aqui temos uma versão "revista e atualizada", até mais pesada, com um toque moderno apenas em seu final, onde ouvimos scratches ao fundo do solo de Morello. Curiosidade: Tom Joad é o icônico personagem do filme Vinhas da Ira, dirigido por John Ford e protagonizado por Henry Fonda, que acabou tornando-se símbolo de justiça social e movimentos de protestos nos Estados Unidos.



- The Wall
: Inspirada pela visita de Springsteen a um evento de veteranos militares, onde leu, na lista de homenageados, o nome de Walter Cichon, da banda The Mofits, o primeiro rockstar com quem teve contato e que lhe serviu de inspiração. Foi composta originalmente em 2005 e nos dá uma breve ideia do que é o ocaso da carreira de um astro do rock na velhice, que depende de outrem para levá-lo aos lugares que precisa ir ou que se dá conta que almoça em grandes salões cheios de gente e vazios de real companhia. Soa como um toque de recolher a um veterano. Um belo solo de corneta, executado por Curt Ramm, completa esta bela canção.



- Dream Baby Dream
: Finalizando o disco, temos a cover da canção escrita por Martin Rev & Alan Vega, gravada originalmente pela banda Suicide em 1979. Aqui, a versão foi modificada para dar um ar mais atmosférico, como num mantra, com direito a violão acústico, sintetizador, piano e mandolim. O resultado causa uma certa estranheza, resultando no único ponto baixo do disco, que poderia muito bem ter sido deixada de fora. A letra também não ajuda muito, quando há uma dupla leitura, onde pode ser tanto uma canção de ninar quanto a descrição de um ritual sexual.



O disco ainda vem com um belo encarte contendo as letras (exceto a última faixa) e um texto explicativo de autoria do próprio Springsteen falando sobre a produção e como foi trabalhar com a The E Street Band. Além disso, temos também incluso no pacote um DVD com o registro do show de Londres em 2013, com clássicos como Glory Days, I'm on Fire, Cover Me, Born in the USA, dentre outras, totalizando mais doze sucessos. Um verdadeiro presente para os fãs, antigos e novos.


Kal J. Moon não existe. Ele é, na verdade, o personagem da canção "Dancing in the Dark"...


Título: High Hopes
Artista: Bruce Springsteen & The E Street Band
Duração: 1:06:00
Faixas: 12
Distribuição: Sony Music
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