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CRÍTICA [CINEMA] | "Whiplash - Em Busca da Perfeição", por Kal J. Moon

11:58 Kal J. Moon 0 Comments

"Não existem duas palavras em nossa língua mais prejudiciais do que 'bom trabalho'".
Talvez essa frase dita pelo professor de música Terrence Fletcher no filme "Whiplash - Em Busca da Perfeição" - que faz parte da programação do Festival do Rio 2014 - possa resumir os dois lados do brilhantismo de um artista e os reais motivos para que ele se torne um grande astro.

"Quem não tem talento, entra numa banda de rock"

Poucas vezes se teve notícia de um filme tão visceral, maduro e ousado ao falar de música sem ser uma biografia ou documentário. E sem ser enfadonho também.

Afinal, quem se interessa pelo que faz um baterista? Ou melhor: quem - além de músicos - se interessa pela trajetória desses profissionais? E ainda mais um que toque jazz, ritmo cult que não é apreciado por todos...


A inusitada história do obstinado e terrivelmente sincero baterista de jazz Andrew Neiman - interpretado por um absurdamente seguro Miles Teller (do remake de "Footloose", "Divergente" e que será o super-heroi Sr. Fantástico no polêmico reboot do "Quarteto Fantástico") - que encontra mil desafios pela frente para alcançar seus objetivos é simplesmente fascinante.

O pior de seus desafios, certamente, é enfrentar o instrutor musical Terrence Fletcher - defendido de forma incisiva por um insano J.K. Simmons (o eterno J.J. Jameson da trilogia "Homem-Aranha" dirigida por Sam Raimi). Simmons tem, certamente, as melhores falas de sua carreira...

E o que vemos em tela grande é, certamente, um dos maiores embates que o cinema mundial já pode, um dia, proporcionar.


Ambos são fortíssimos candidatos ao Oscar e não será surpresa se os dois concorrerem à estatueta de Melhor Ator, dada à entrega e credibilidade transmitida por cada um.

O protagonista quer vencer na vida executando a arte que lhe apetece. Ser baterista de jazz exige dedicação exclusiva, algo que desagrada seu pai - um perdedor nato com aspiração à escrita e que acabou virando professor, abandonado pela esposa (que não poderia ter sido interpretado por ninguém além de Paul Reiser, que, um dia, já foi protagonista do seriado "Mad About You"), sua família inteira - que vê sua dedicação à música como uma completa perda de tempo mas apoia os primos que praticam rugby pois esporte é sinônimo de futuro garantido - e até mesmo sua namorada Nicole (a correta Melissa Benoist), que se enfurece quando ele a dispensa pois sabe que terá muitos momentos em que deveria estar com ela mas que sua fixação no treino da música não permitirá que faça algo menos produtivo como namorar.

"Você vai tocar no meu tempo ou vou te f*der feito um porco!"

Mas as tentativas de aprovação junto ao severo e exigente instrutor Fletcher - severo a ponto de partir à violência como gritar, dar fortes tapas no rosto de Neiman ou mesmo jogar um instrumento nele - tornam esta história mais do que uma simplória trama sobre músico. Transforma-a num exemplo de superação. Superando a todos os que o cercam, família, colegas de escola, namorada, pai e até mesmo seu professor.

Destaque à cuidadosa direção de fotografia a cargo de Sharone Meir, privilegiando closes em movimentos mínimos dos músicos em cena e nas portas que o protagonista atravessará, evidenciando uma quase devoção, um respeito quase sagrado pela música.

O diretor Damien Chazelle - que também é o roteirista - não tinha dinheiro para bancar o filme e decidiu realizar um curta-metragem da mesma história. Foi selecionado pelo Festival Sundance, ganhou como Melhor Curta e assim conseguiu financiar o longa - que ganhou o prêmio de Melhor Filme do júri e do público. Ele também tirou a sorte grande ao escalar Miles Teller, que toca bateria desde os quinze anos de idade mas precisou passar por intensas sessões de aulas adicionais (quatro horas por dia, três dias por semana) a fim de aprender o jeito "jazzístico" de tocar o instrumento. Muito do sangue nas baquetas é do próprio ator, que tocou em 70% das cenas, sendo substituído apenas por Ryan, que era seu instrutor.

Detalhes técnicos à parte, dizem que as melhores histórias são aquelas em que o protagonista enfrenta muitos obstáculos mas consegue ultrapassá-los por mérito próprio, sem facilidade, para triunfar ao final. Nem que seja no último segundo.

Com "Whiplash" é exatamente assim. Esta história leva o espectador à tensão, às lágrimas mas também proporciona os inevitáveis aplausos com a subida dos créditos. Aplausos de pé.
Em uma palavra: imperdível.



Kal J. Moon assistiu, criticou e nunca mais ouvirá a canção "Caravan" da mesma forma novamente...
Estreia: Festival do Rio 2014
Direção: Damien Chazelle
Roteiro: Damien Chazelle
Elenco: Miles Teller, J.K. Simmons, Paul Reiser, Melissa Benoist.
>>> Eleito melhor filme de drama (júri e publico) no Festival Sundance
Sinopse: Andrew Neiman é um jovem e ambicioso baterista de jazz, cujo único objetivo na vida é chegar ao topo do seu conservatório de música de elite na costa leste dos EUA.Atormentado pela carreira fracassada do pai como escritor,Andrew anseia dia e noite por se equiparar aos grandes gênios da música. Terence Fletcher, um professor reconhecido tanto por sua capacidade como instrutor quanto por seus métodos terríveis, é o regente da melhor banda de jazz da escola. Fletcher descobre Andrew e transfere o aspirante a baterista
para a sua banda, mudando para sempre a vida do rapaz. A paixão de Andrew por atingir a perfeição rapidamente se converte em uma obsessão, enquanto seu professor implacável continua a pressioná-lo ao limite da sua capacidade — e da sua sanidade.

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