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CRÍTICA [CINEMA] | "Birdman", por Marlo George

11:51 Marlo George 0 Comments

Se você acha que irá assistir um filme de super-heróis curriqueiro, você está redondamente enganado.

O novo filme do diretor de Babel, Alejandro González Iñárritu,  'Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)', soa como uma observação sarcástica ao showbiz. Contando a história de Riggan, um ator que caiu no abismo do ostracismo após uma breve passagem pelo mainstream, quando interpretou um super-herói em uma série de filmes dos anos 90, Iñárritu abre uma ferida profunda na fronte do mundo do entretenimento, expondo suas mazelas e facetas mais obscuras. A luta de Riggan contra todos os imprevistos e inconvenientes que podem impedir seu ressurgimento como artista seria cômico, se não fosse essencialmente trágico.

Assim como 'Walt nos Bastidores de Mary Poppins', 'Birdman' é um longa metragem sombrio. Em ambos temos como protagonistas artistas desesperados em manterem-se relevantes, apesar das conveniências da industria. Se P.L. Travers sofre enquanto tenta manter sua obra original imaculada, Riggan também sofre enquanto tenta se reabilitar artisticamente. Travers tem em Walt Disney um vilão. O inimigo de Riggan é ele mesmo, ou melhor dizendo, seu passado. Sua filmografia.


Michael Keaton, interprete de Riggan, foi uma escolha acertada para viver a personagem, que pode ser considerada uma paródia do próprio Keaton que viveu o Batman, nos filmes de Tim Burton de 1989 e 1992. Outro ator que também vive um papel que parodia sua própria persona é Edward Norton, notório por seu comportamento rebelde nos sets de filmagens e temperamento difícil. Norton vive Mike, um ator de sucesso que não se relaciona bem com seus colegas de palco. Ambos estão maravilhosos no filme e foram indicados ao Oscar deste ano.

Para ser bem sincero, todo o elenco do filme, que acabou de ganhar o prêmio de Melhor Elenco de Cinema no SAG Awards, está bem afiado em 'Birdman', em especial por se tratar de um filme difícil de interpretar. Os takes são longos, pois o filme foi editado para dar a impressão de que foi rodado de uma vez só, e assim as marcações e textos longos foram um verdadeiro desafio para o cast.


Emma Stone, que gravou suas cenas durante uma pausa nas gravações de 'O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro', demonstra que alcançou a maturidade em seu mister, com uma interpretação madura e sólida. Naomi Watts, como sempre, apresenta um trabalho bem aparado e sutil, enquanto o canastrão Zach Galifianakis, que é geralmente caricato e repetitivo, finalmente convence. Uma curiosidade sobre 'Birdman' é que Galifianakis foi o ator que menos errou as marcações e o texto durante as filmagens. Já Emma foi a que mais errou, além de chegar, quase sempre, atrasada ao set.


Nos quesitos técnicos, a edição (acima mencionada) é impecável. A dinâmica utilizada vai nos mostrando o protagonista percorrendo a linha do tempo, entre os três ensaios abertos e a derradeira estreia do espetáculo que escreveu e está dirigindo, de modo contínuo. Foi feita com tanto capricho e visão que é original ao extremo. A fotografia, à cargo do vencedor do Oscar do ano passado pelo filme 'Gravidade', Emmanuel Lubezki, também é muito virtuosa, principalmente pelo fato do filme ter sido rodado sem iluminação técnica. Toda a luz e sombra que vemos em 'Birdman' é oriunda das locações e a forma como foram aproveitadas elevam Lubezki ao status de mestre no assunto.


'Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)' é um filme visionário, ousado e uma das maiores produções que tive a oportunidade de assistir no cinema. Se há um pecado, este reside no roteiro, que por vaidade, estraga o final do filme com uma cena desnecessária e que destoa de tudo que tinha sido apresentado anteriormente. Se tivesse acabado cinco minutos antes, seria uma obra-prima.



Marlo George assistiu, escreveu e anda explodindo coisas por aí ao estalar os dedos.

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