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    segunda-feira, 11 de julho de 2016

    CRÍTICA [DVD] | “Cartas na Mesa”, por Marlo George


    O final dos anos 1990 foi extremamente prolífico para Matt Damon e seu estabelecimento como um ator consistente - especialmente no papel de personagens com aura “inteligente”. Este é apenas mais um exemplo. 

    Damon, em Cartas na Mesa, é Mike, um estudante de Direito que dá duro para colocar sua vida nos eixos e colher frutos como todos que fazem uma faculdade cara como aquela - nos Estados Unidos todas as faculdades são pagas, mesmo as públicas, e o curso de Direito é uma pós-graduação, tal qual medicina. O problema é que a paixão da vida de Mike está longe de ser a legislação e os densos livros legais: o que ele gosta mesmo é a emoção nas mesas de poker. Logo no início do filme (não se preocupe, está longe de ser spoiler, é a premissa do longa) vemos que perdeu tudo e promete a sua namorada (Gretchen Mol) que ele nunca mais vai jogar poker na vida. 

    Tudo parecia normal - isto é, fora a aparente apatia de Mike nos estudos e na vida “normal” que ele levaria - até que um antigo amigo do protagonista sai da prisão. Este é recepcionado por Mike na saída da cadeia e dali para a frente a vida de ambos muda consideravelmente. Como você pode ver, a premissa do filme segue a clássica “Jornada do Heroi/Monomito” tão explorada em outros longas: um protagonista com um dom “incomum” e que é forçado por fatos que ele não pode controlar a estar num mundo onde ele não se sente confortável - até que um novo acontecimento ou o encontro com alguém do passado faz com que tudo mude. A temática já foi explorada em dezenas de filmes bem sucedidos - como Matrix/Neo, Star Wars/Luke e outros tantos, como Harry Potter e seu protagonista homônimo. 

    Aqui em Cartas na Mesa esse cara que “mexe” com a vida de Mike é “Worm”, interpretado por um Edward Norton indiscutivelmente afiado como em outras películas do final da década de 1990. Embora tenhamos elogiado Damon ao início desta crítica, podemos dizer que quem rouba a cena de modo definitivo é Norton. Na pele de um sociopata que lhe deixa tenso do início ao fim do filme, Edward faz aquele típico arquétipo que envolve e corrompe o protagonista para que ele quebre as promessas que outrora fez para sua doce namorada. Worm tem um carisma capaz de envolver o espectador e, por óbvio, Mike. 

    Norton, com um olhar vazio e manipulador, na pele de “Worm”, recém saído da prisão 
    O resto do filme se desenvolve de maneira pragmática e até que previsível - não que isso seja tão ruim, é até interessante que o longa seja honesto em desenvolver personagens sem muitas reviravoltas. Você não vê nenhum tipo de redenção na maior parte deles - talvez apenas em Mike, que volta para as mesas de poker e investe no que lhe é realmente um dom. Este está longe de ser o grande trunfo de Cartas na Mesa. Presumidamente (se não quiser spoilers, pule esta linha) o protagonista de Damon triunfa ao final do longa e volta ao topo da “cadeia alimentar” do poker e obviamente com mãos inacreditáveis e dignas de Hollywood. 

    Uma obra cinematográfica ou audiovisual como um todo pode ter sucesso aferido por muitas maneiras diferentes. Número de sequências? Bilheteria? Essas são as mais comuns. Mas quando uma dada obra acaba tendo um impacto relevante na sociedade e na vida de algumas pessoas, aí  você pode descobrir o quão bem sucedida ela foi de verdade. A novela Dancin’ Days, por exemplo, foi tema da revista americana Newsweek quando fez explodir uma coqueluche de danceterias pelo Brasil ao final dos anos 1970 - em lugares que sequer tinham cinemas, por exemplo. De maneira análoga, foi mais ou menos o que este filme fez ao final dos anos 1990: ele despertou o interesse do grande público pelo poker. “Eu e Matt conversamos depois, dizendo que deveríamos ter negociado uma porcentagem de 5% em toda mão de poker jogada após o filme ter sido feito, porque aí poderíamos ter feito uma sequência com nosso dinheiro”, disse Norton em entrevista para David Letterman em 2014 sobre a possibilidade de uma eventual sequência para o filme. 

    Uma cena é paradigmática nesse sentido: os professores de Mike estão jogando uma partida de poker e ele aparece para entregar um trabalho. Veja abaixo (em inglês). 


    Ele então fica de pé, perto de seus professores, e começa a ler o jogo de maneira brilhante e profissional - até que aumenta uma dada aposta para seu professor. Aumenta a aposta por ele, de modo que não consegue evitar a se envolver com a paixão de sua vida. O jogo prossegue e todos acabam saindo as apostas. Mike não viu as cartas de ninguém: ele leu o jogo como um profissional.  “Ler as pessoas, entender porque elas fizeram determinada jogada e traçar um mapa do oponente para no futuro prever como ele vai se comportar em uma das inúmeras situações que o jogo proporciona é de suma importância no Jogo”, relata nesse sentido o jogador brasileiro e profissional, Leonardo Bueno, ao blog da PokerStars. 

    Isso, para o grande público, demonstrou um paradigma de que o poker estava longe de ser um jogo de azar - mas um jogo de habilidade e puramente mental, tal qual o xadrez ou damas. Esse foi um dos paradigmas que ajudou o jogo a crescer no mundo inteiro. Transmissões na TV a cabo dos grandes campeonatos e a popularização do jogo na internet fez com esse bolo só crescesse. Mas o grande trunfo de Cartas na Mesa e de seus roteiristas, David Levien e Brien Koppelman, mais do que qualquer avaliação crítica, acaba sendo esse efeito “cult” que gerou ao falar de poker como algo a mais do que um elemento de filme de faroeste. Mas, sim, como um esporte de habilidade. 


    Marlo George assistiu, escreveu e sempre tem cartas na manga.
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