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    sexta-feira, 14 de outubro de 2016

    CRÍTICA [CINEMA] | "Holocausto Brasileiro", por Kal J. Moon

    Uma das maiores tragédias ocorridas no campo da medicina brasileira deu-se na bucólica Barbacena, cidade mineira onde funcionava um hospital que deveria cuidar de pacientes crônicos mas tornou-se um verdadeiro "depósito de lixo humano". Baseado no best-seller escrito por Daniela Arbex - também co-diretora ao lado de Armando Mendz -, o documentário "Holocausto Brasileiro" expõe toda a crueldade que ocorreu entre muitas paredes, muitas pessoas e muita omissão...
    A equipe de filmagem de "Holocausto Brasileiro" em ação
    Não-resposta à violência velada
    É difícil assistir a uma obra de cunho investigativo - e que, por si só, abra caminho à mais pura denúncia - sem ficar transtornado ou revoltado, uma vez que não existe a menor possibilidade de ficar impassível ante ao que é mostrado em "Holocausto Brasileiro". O documentário mostra que durante anos, homens, mulheres e crianças eram amontoados em vagões superlotados numa viagem sem volta para o Hospital Colônia, em Barbacena / Minas Gerais. O lugar era o trágico destino daqueles que a sociedade não queria por perto. Pobres (muitos deles afro-americanos), homossexuais, meninas grávidas, prostitutas, alcoólatras, crianças indesejadas, pessoas sem documento ou expulsas de casa pela família eram enviadas para lá. Cerca de 60 mil pessoas morreram durante o período de funcionamento do Colônia, que se transformou em um verdadeiro campo de extermínio - matando mais do que Auschwitz. Poucos sobreviveram. Em comoventes depoimentos e entrevistas, alguns contam, neste documentário, os horrores que viram e sofreram, falam sobre a esperança de ter uma vida normal e relatam as saudades daquilo que nunca viveram.
    Não é estranho que um hospital tivesse
    dentre suas dependências... um cemitério?
    Não tem como não se comover - positiva ou negativamente - com relatos de pessoas como o senhor que descobriu, ao ler o livro que dá origem ao documentário, que sua mãe havia sido colocada no Hospital Colônia e ele nem fazia ideia do motivo. Ou a jovem que descobre, por puro acaso, que era adotada e sua verdadeira mãe também estava naquele terrível lugar. Ou ainda saber que o Hospital Colônia tinha, em sua propriedade, UM CEMITÉRIO (não, você não leu errado) para enterrar pacientes como indigentes pois os parentes não se importavam com eles. E ninguém fez nada a respeito. São tantas as denúncias e histórias escabrosas em depoimentos que perguntamos - durante a coletiva de imprensa do lançamento do documentário promovido pela HBO no RJ em 13/10/2016 - se não houve algum entrave político na adaptação do livro.

    "Eles não tinham muito a dimensão do que essa história alcançaria a partir do momento que fiz a primeira série de reportagens. Minha entrada foi franqueada com a ajuda do Jaime Toledo - que perdeu o emprego logo que meu livro foi publicado. Ele foi demitido e a gente acha que tem toda relação. E a gente entendeu que, pro filme, teria uma dificuldade enorme de voltar lá. Mas as coisas conspiram. Eu lancei um segundo livro chamado 'Cova 312' - que fala sobre a ditadura. E um dos 'personagens' é o Jorge Nahas, que não era o presidente da FHEMIG. E ele é um humanista, uma figura incrível. Quando a gente começa a discutir [o planejamento] do documentário, ele se torna o presidente da FHEMIG. Não ficaria bem pra ele - um humanista - censurar meu trabalho. Ele ficou numa saia justa incrível, tenho certeza que ele só queria dizer 'não'. Não foi fácil. Mas pra ele, politicamente também, eu acho que vai ser complicado", explicou Arbex.

    "A gente vendo o resultado e olhando pra trás, fala assim 'como nós conseguimos?!'. A base do filme é o Hospital, são as pessoas... Então, tinha que ter autorização deles [para filmar]", completa Roberto Rios, produtor do documentário.
    A fachada do Hospital Colônia em Barbacena (MG)
    De qualidades técnicas excepcionais - que vai desde a primorosa direção de fotografia à sagaz edição de som (com a captação de gorjeios de pássaros contrastando aos terríveis relatos de tortura daquele lugar) -, esse é um documentário necessário, que abre a porta de um passado ignorado por muitos mas que não deve ser esquecido jamais. Em duas palavras: assista urgentemente.

    "Holocausto Brasileiro" faz parte da programação do Festival do Rio 2016 e estreia em 20/11/2016 em toda a América Latina com transmissão do Canal MAX (HBO).


    Kal J. Moon sempre soube que deveria temer o ser humano. Agora, tem certeza...
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