728x90 AdSpace

  • Nerd News

    terça-feira, 8 de novembro de 2016

    CRÍTICA [CINEMA] | "Elis", por Kal J. Moon

    Uma mulher de altura diminuta mas de voz grandiosa, das maiores a entonarem canções hoje clássicas na assim chamada Música Popular Brasileira. Um exuberante sorriso. E uma vida marcada por polêmicas.
    Andréia Horta na pele de Elis Regina
    (Divulgação)

    Difícil tarefa traduzir a obra e a existência da cantora Elis Regina num parágrafo. Tarefa essa aceita pelo diretor Hugo Prata no filme "Elis" e defendida com unhas e dentes por Andréia Horta no papel principal, acompanhada por Lucio Mauro Filho, Caco Ciocler, Julio Andrade, Gustavo Machado, Zécarlos Machado, Rodrigo Pandolfo, Isabel Wilker,  Icaro Silva e grande elenco.

    Soluços
    Close. Andréia Horta, já com cabelos cortados bem rentes à cabeça, dubla a canção "Como Nossos Pais" em quase toda sua extensão, iluminada por traz de sua cabeça, formando uma quase penumbra. Corta. Ônibus na estrada, onde a jovem Elis está com seu pai. Corta. Elis e seu pai conversam com produtor musical de uma gravadora no Rio de Janeiro, que explica que não pode gravar o disco pois eles demoraram dois meses para responder o convite e, naquele momento, as coisas não estavam mais fáceis como antes. Corta. Elis desce escadas e vê alguns discos de ouro. Corta.

    Embora o parágrafo acima seja um completo exagero de minha parte, a impressão que fica no filme "Elis" é que houve uma grande pressa em contar algumas histórias sobre essa grande protagonista da música brasileira. E quando digo ~"algumas histórias" e não "A VIDA" de Elis, leve isso em consideração no momento de assistir esse filme.
    Mièle (Lúcio Mauro Filho) encontra-se
    pela primeira vez com a "Pimentinha"
    O longa traz algumas das mais relevantes passagens da carreira e vida pessoal da gaúcha como a chegada ao Rio de Janeiro no dia do Golpe de 1964, o primeiro contato com Luiz Carlos MiéleRonaldo Bôscoli -que se tornou seu primeiro marido -, o rápido sucesso e amadurecimento musical, o terror imposto pelos militares, a parceria amorosa e artística com o pianista César Camargo Mariano - que rendeu espetáculos históricos como “Falso Brilhante” -, a maternidade e o fim da vida. Temos em cena os momentos mais importantes - e alguns nem tanto assim - mas nada muito aprofundado.

    "(...) o roteiro não permitiu aos atores qualquer espaço para construção de personagens ou desenvolvimento de trama"

    Sabemos, por exemplo, como Elis conhece Mièle (um caricato Lúcio Mauro Filho) e Ronaldo Bôscoli (defendido de forma bem estranha por Gustavo Machado - que está a cara do jogador de futebol Raí), como cantar no bar The Bottles lança sua carreira, como conhece um empresário gringo que agencia seus shows, como ela rompe a parceria com Miéle e Bôscoli num rompante de raiva... Mas não temos ideia - pelo roteiro escrito por Luiz Bolognesi, Vera Egito com colaboração do próprio diretor - como Miéle e Bôscoli se tornaram, em apenas dois anos, de empreendedores falidos a músicos e produtores influentes.

    Muitos detalhes são omitidos em detrimento sabe-se lá do quê, uma vez que o roteiro não permitiu aos atores qualquer espaço para construção de personagens ou desenvolvimento de trama. É como se contar essa história tivesse personagens demais e fosse melhor não se envolver muito - talvez por isso não haja nada além de citações a Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Isso sem contarmos o que ocorre ao fim da película, algo que beira o dramalhão mexicano...

    Apesar da falta de elaboração no roteiro, nem tudo está perdido no filme. Temos em Andréia Horta uma defensora ferrenha do papel, inicialmente de forma tímida mas aos poucos ~"vivendo e aprendendo a jogar" como a "Pimentinha" bem faria. O espectador deve prestar atenção na cena em que Elis dá uma entrevista numa rádio e fala sobre o futuro da música, bem próximo do que presenciamos hoje em dia.
    Lennie Dale, bem defendido por Julio Andrade

    Mas o destaque mesmo vai para Julio Andrade, que vive o dzi croquette Lennie Dale - dançarino e crooner que ensinou postura no palco e dança a Elis, cujos movimentos levaram o público a chamarem-na de 'Eliscóptero' (embora no filme seja chamada de 'Hélice Regina'). Uma composição impressionante, que rouba cada ínfimo momento que aparece. Para quem conheceu a figura, é emocionante vê-lo do auge ao ocaso sem perder a compostura.

    Outro destaque positivo vai para o ator Bruce Gomlevsky, sensível no papel do Henfil, cartunista do jornal O Pasquim que criou uma charge criticando o fato de Elis Regina ter ido cantar para militares em plena ditadura militar no Brasil. Os motivos e o desenlace dessa passagem na vida desses dois personagens são das mais bem desenvolvidas no filme.
    Elis (Andréia Horta) no espetáculo "Falso Brilhante"

    A direção de fotografia de Adrian Teijido é bem burocrática, sem inovações e com alguns momentos que deixam a desejar, como na cena em que Elis é interrogada por um militar. Um filme sobre música não deveria dar lugar ao básico jamais. Era o momento de ousadia estética!

    "Elis" é um filme que mostra, na verdade, um grande apanhado de fatos sobre a cantora Elis Regina. Nada de errado até então. Mas sua história não caberia em duas horas de exibição. Nem mesmo se tentassem com afinco - o que não foi o caso aqui.


    Kal J. Moon acredita cada vez menos "nas pessoas e mais na gargalhada".
    • Comente no site
    • Comente no Facebook

    0 comentários:

    Postar um comentário

    Item Reviewed: CRÍTICA [CINEMA] | "Elis", por Kal J. Moon Rating: 5 Reviewed By: Kal J. Moon
    Scroll to Top