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    segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

    CRÍTICA [CINEMA] | "Manchester à Beira-Mar", por Kal J. Moon

    Conhecido pelos roteiros de filmes fortes como "Gangs de Nova York" e "Máfia no Divã", Kenneth Lonergan segue mais uma vez na direção de seu terceiro filme, "Manchester à Beira-Mar" (Manchester by the Sea), estrelado por Casey Affleck, Kyle Chandler, Lucas Hedges, Michelle Williams, C.J. Wilson e participação especial de Tate Donovan, Matthew Broderick e Gretchen Mol.
    Lee Chandler (Casey Affleck) num raro momento de paz - ele tem seus motivos
    (Divulgação)

    O real e sutil peso do luto
    É bem complicado analisar um filme que muitos estão elogiando. Falar bem pode parecer que se está apenas concordando com a maioria. Criticar pesadamente pode dar a impressão de esnobar o trabalho alheio. Mas a verdade no meio disso tudo é que "Manchester à Beira-Mar" é um filme sutil, indeciso e estranho, bem estranho...

    Na trama, Lee Chandler (Casey Affleck) - um conformado faz-tudo - recebe a notícia da morte de seu irmão mais velho (Kyle Chandler), que mora em Manchester - não na Inglaterra mas numa bela locação à beira-mar próxima de Boston, nos EUA. Após resolver todas as complicadas pendências para o enterro - e põe complicadas nisso -, descobre que seu irmão deixou, em testamento, que ele seja tutor de Patrick, seu único filho adolescente (Lucas Hedges), até que este chegue à maioridade. Só que essa é uma tarefa que Lee, por motivos ligados a seu passado, não se sente apto muito menos confortável a realizar.
    Patrick (Lucas Hedges) e seu tio Lee (Affleck) num momento decisivo
    (Divulgação)

    Ir ao cinema apenas com essa informação e sem assistir o trailer - que, numa duvidosa campanha de marketing conta, de forma resumida, TODA a história do filme - é encontrar algo sutil em muitos sentidos. 

    A começar pelo roteiro e direção de Kenneth Lonergan, que contam essa história à vontade, sem pressa, fazendo com o espectador sinta o passar de meses durante a exibição - mas isso no sentido negativo da coisa. Em diversos momentos, apesar de saber o que está acontecendo e como a trama se desenrolará, há partes que poderiam muito bem ter ficado de fora da versão final por não acrescentarem nada à narrativa. Criar a sensação de 'vida real' na tela é tarefa para poucos. Mas se for para mostrar uma vida nada menos que monótona, sem personagens realmente cativantes ou com algo importante a dizer, 'Manchester á Beira-Mar' é um filme que acerta nesse quesito. Estranho é perceber o mundo aplaudindo este tipo de iniciativa...
    Randi (Michelle Williams) e Lee (Affleck): situação não-resolvida
    (Divulgação)

    Quanto ao elenco, mesmo com a direção 'solta' de Lonergan, existem alguns (poucos) destaques, que podem ser lembrados futuramente em prêmios. O nome mais celebrado é o de Casey Affleck, ator conhecido por um trabalho nada esmerado e com fama de canastrão. Seu personagem até tem uma ideia bem interessante: um faz-tudo que não sabe o que fazer para consertar uma situação que não depende de força bruta mas sim de sensibilidade pois envolvem outras pessoas. Aqui entrega um trabalho interessante e esforçado, com alguns momentos que, se não podem ser exatamente chamados de grandiosos na história do cinema, é, no mínimo, surpreendente vindo de quem vem - preste atenção numa cena que se passa numa delegacia. Surpreendente mesmo é saber que ele ganhou o cobiçado Globo de Ouro de Melhor Ator de Drama por esse papel - e ainda está bem cotado para o Oscar -, algo impensável quando se assiste o filme e percebe-se claramente sua inconstância - apesar do esforço e boa vontade. Mas a impressão que se tem é que o roteiro não lhe entregou momentos realmente desafiadores...

    Outros nomes que se destacam são Michelle Williams - linda mesmo quando desarrumada! - e o jovem Lucas Hedges. Ambos, em diversos momentos, entregam personagens críveis e com nuances sutis mas perfeitamente identificáveis. Williams mostra toda sua habilidade em trazer a dramaticidade necessária à trama, enquanto Hedges, mesmo tão jovem, entrega um personagem equilibrado, bem de acordo com sua idade. E ainda protagoniza cenas bem engraçadas com suas namoradas e com sua horrorosa banda de rock 'Stentorian'. Pena que o roteiro entrega o centro da ação para o personagem de Affleck e esquece de 'colorir' a trama com mais momentos ao redor de outras personas - algumas bem importantes mas completamente desprezadas.
    Stentorian: uma das piores bandas de rock de todos os tempos!
    (Divulgação)

    Mas curiosamente o destaque principal de 'Manchester à Beira-Mar' é sua direção de fotografia, nas mãos do habilidoso Jody Lee Lipes - egresso de documentários, clipes musicais e séries de TV - que capta a cidade de Manchester em toda sua essência, desde os lugares mais bonitos até os recônditos mais obscuros, em verdadeiros cartões postais cinematográficos.

    A trilha sonora incidental de Lesley Barber - que já trabalhou com Lonergan em 'Conte Comigo' (2000) - também impressiona, adicionando o peso daquela situação aparentemente insolúvel, gerando empatia e delicadeza em diversos momentos.

    É um filme sobre o sutil e real peso do luto. Não é eficiente justamente por conta de sutilezas em várias situações, pelas quase três horas de exibição e pelas muitas alternativas que poderiam muito bem ser utilizadas a favor da trama. Ficará muito bem naquela sessão de sábado na TV, onde o filme será mutilado e, por isso mesmo, mais acessível. Longe de ser um filme ruim, 'Manchester à Beira-Mar' também está longe de ser 'essa coca-cola toda' que estão arrotando por aí. Melhor sorte na próxima vez...


    Kal J. Moon pode ser considerado esnobe e não se importa. Mas nunca concordará com a mediocridade...
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    Item Reviewed: CRÍTICA [CINEMA] | "Manchester à Beira-Mar", por Kal J. Moon Rating: 5 Reviewed By: Kal J. Moon
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