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    quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

    CRÍTICA [CINEMA] | "Até o Último Homem", por Marlo George


    Um filme sobre um herói de verdade e que não usa malha colada, como diria Mel Gibson, Até o Último Homem, novo filme do diretor, tenta lançar um pouco de luz em sua maculada carreira.

    Após ser acusado de anti-semitismo e fundamentalismo por A Paixão de Cristo, de 2004, e ter fracassado em sua tentativa de contar uma história num formato exótico em Apocalypto, de 2006, Mel Gibson, não sem ousadia, dirige mais um filme cuja trama está impregnada de suas próprias crenças, conceitos pré-concebidos e assinatura própria. Até o Último Homem conta a história de um cristão, membro da Igreja Adventista do Sétimo Dia, que insiste em lutar na Segunda Guerra Mundial, porém com intuito inusitado: Ele quer salvar vidas, como para-médico militar, e não ceifá-las, como um soldado comum.

    Trata-se de uma história baseada em fatos reais e esse apelo já é suficiente para aguçar a curiosidade da audiência. Mas não para Gibson, que novamente deturpa a história, como o fez no excelente Coração Valente, de 1995, ao afirmar no material promocional do longa que o protagonista, o herói de guerra Desmond T. Ross, foi o único "opositor consciente" a lutar contra a Tríade. Isso não é verdade. Existem relatos de muitos outros soldados que se consideravam impedidos, por ideologias de várias naturezas e não só a religiosa, de portar armas durante a Segunda Grande Guerra.

    Deste modo, fica difícil afirmar se a história que está sendo contada na telona é relevante do ponto de vista histórico. Mas não estou aqui para avaliar sua aplicabilidade como fonte futura de consulta, e sim a sua função como entretenimento. E nesse aspecto, Até o Último Homem mostra à que veio. É um filmaço, como diria Marty Callner, uma produção "com poucos lances ruins".


    Filmado por 59 dias em locações na Austrália, Até o Último Homem tem o charme dos filmes dos anos 60, provido pela bela direção de arte de Jacinta Leong. Vou até aproveitar para falar um pouco dela, que vem sendo reconhecida, finalmente, após ter trabalhado como assistente em franquias importantes como Matrix, Star Wars e Riddick. É dela a excelente direção de arte de Mad Max: Estrada da Fúria (que lhe rendeu um Art Director´s Guild Awards na categoria Filmes de Fantasia), e desde então Leong vem chamando a atenção de Hollywood, e dos críticos. tanto é que já está escalada para trabalhar em futuros blockbusters como Alien: CovenantPiratas do Caribe: A Vingança de Salazar. Até o Último Homem é o segundo filme de guerra cuja direção de arte é de Leong. O primeiro foi Invencível, dirigido por Angelina Jolie. É um nome que você deve marcar na sua lista, pois vais ouvir muito sobre ela no futuro.

    Os figurinos, que ajudam na construção do clima "vintage" ficaram à cargo de Lizzy Gardiner, que na década de 90 fez seu debut em Priscilla, a Rainha do Deserto. Isso não é qualquer coisa. A icônica cena de Guy Pearce sob o ônibus não se tornaria clássica sem seu trabalho. Para Hacksaw Ridge (título original de Até o Último Homem) Gardiner concebeu figurinos que pareciam retirados diretamente dos tediosos filmes do Elvis Presley. Caíram justos nas personagens. O mesmo pode ser dito do departamento de maquiagem e cabelos.

    O responsável pela edição do filme foi o veterano John Gilbert, que recebeu sua segunda indicação ao Oscar de Edição este ano, a primeira foi por O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel, de 2001. Com decisões acertadas, a saturação e paleta de cores ficaram adequadas e o resultado final do filme é mais que satisfatório. Ficou com ar antigo sem artifícios datados. Um trabalho de qualidade.

    O som do filme também é incrível, e rendeu indicações ao Oscar em edição e também em mixagem de som. Já a trilha sonora composta por Rupert Gregson-Williams não convence.


    Simon Duggan serviu no exército de Gibson como Diretor de Fotografia e entregou o melhor trabalho de sua carreira. Especialmente nas cenas de ação, que são de encher os olhos. É muito bom assistir um filme no qual a fotografia lhe proporciona uma visão geral do que está acontecendo, com muitas cenas de câmera solta e ângulos vertiginosos. É possível sentir o terror da batalha através da visão, por vezes sufocante, de Duggan. Ainda não foi dessa vez, mas ele está bem próximo de uma futura e possível indicação aos Academy Awards.

    Andrew Garfield personificou o herói de guerra D. T. Ross. Com jeitão caipira simpático, conquistou sua primeira indicação ao Oscar. Merecida. Afastando-se de sua imagem de Peter Parker, da duologia O Espetacular Homem-Aranha de Marc Webb, Garfield se entrega de corpo e alma à sua personagem, garantindo-lhe personalidade e originalidade. Suas verdades e motivações são tão bem apresentadas pelo intérprete. Se Garfield vai ganhar ou não o Oscar? Certamente não, mas essa indicação é um bom indicativo de que sua carreira terá uma condução diferente daquelas que tiveram outros atores que ficaram marcados por um personagem icônico e, provavelmente, A. G. não sofrerá do "Complexo de Mark Hamill", como sofre Daniel Radcliffe, o eterno Harry Potter, por exemplo.

    O restante do elenco, que conta com Sam Worthington, Vince Vaughn (legal vê-lo em um papel mais sério) e Teresa Palmer, está bem e cumpre sua função, porém, com uma exceção: Hugo Weaving, que está extraordinário. Fugindo de caricaturas e evitando os "carões" pelos quais é conhecido, Weaving está sóbrio (o ator, não o personagem). Sua construção de personagem e preparação para viver o pai de Desmond Doss deve ter sido muito intensa. Não conheço sua biografia, mas a impressão que tive é a de um ator que conhece profundamente o drama do alcoolismo para compô-lo com tamanha primazia. Se ele não o conhece, estudou muito sobre o tema. Infelizmente ele foi novamente esnobado pelo Oscar.


    Por outro lado, justíssima foi a indicação de Mel Gibson como Melhor Diretor. É invejável a forma como ele domina a arte de dirigir cenas de guerra. Já tinha provado isso em Coração Valente, e mais uma vez nos presenteia com carnificina e beleza, de um modo como se fosse possível mesclar duas coisas tão diferentes em uma só com perfeição. Mas Gibson, sem saber que isso era impossível, foi lá e o fez. Por mais que alguns insistam em não gostar dele pessoalmente (parte dessas pessoas com motivo) somente recalcados não são capazes de reconhecer seu trabalho.

    Vale ressaltar que Gibson foi capaz de aprender com seus próprios erros. Radical em não abrir mão de seus ideais, decidiu repassá-los para as personagens e assim, todo o modo grosseiro como tratou os nipônicos e todo o fundamentalismo religioso ficou restrito à estas e não como um conceito da obra como um todo, como aconteceu em A Paixão de Cristo. Gibson mandou seu recado, por mais reprovável que seja, mas possivelmente sairá ileso dessa vez.



    Marlo George assistiu, escreveu e já quis lutar, mas não com essa farda...
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