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    terça-feira, 7 de março de 2017

    CRÍTICA [CINEMA] | "Silêncio", por Kal J. Moon

    Baseado no homônimo livro escrito por Shusaku Endo (já publicado no Brasil), Martin Scorsese volta à direção no filme "Silêncio", estrelado por Andrew Garfield, Adam Driver e Liam Neeson. E deixa a seguinte questão no ar: até onde ir em nome da fé?
    Os padres Garupe (Adam Driver) e Rodrigues (Andrew Garfield) escondidos
    para não serem vistos pelo exército japonês (Divulgação)

    Embate ideológico
    Antes de assistir "Silêncio", deve-se levar em conta algumas escolhas puramente mercadológicas de Martin Scorsese. A principal talvez seja elencar atores não-lusitanos para interpretar padres portugueses por volta do ano de 1640 - e isto ainda acarreta ver todos esses personagens falando inglês como se fosse sua língua-máter, gerando diálogos estranhos em alguns momentos que o espectador SABE que se referia à dificuldade de pronúncia do português de Portugal e não da língua inglesa (sabemos que escolher atores portugueses limitaria o alcance - e aceitação - do filme em outros países). A segunda é a escolha do tema pois vemos um outro Scorsese na tela, com outra adaptação oriunda de um livro - mas bem diferente de "O Lobo de Wall Street" tanto em tema quanto em execução -, divagando entre caminhos um tanto perigosos para um diretor consagrado como ele. A terceira é encarar que, talvez, esse filme tenha de ser assistido mais de uma vez para que se dê seu devido valor.

    Na trama, dois jovens padres jesuítas - Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Francisco Garupe (Adam Driver) - se oferecem para ir ao Japão do século XVII à procura de Padre Ferreira (Liam Neeson), seu mentor desaparecido, que pode estar morto ou ter abandonado a fé cristã. Com o país fortemente fechado ao mundo exterior pelo shogunato - e com o Catolicismo proibido -, eles enfrentam perseguição e violência numa jornada de resgates, descobertas espirituais e muitas decepções.
    Padre Ferreira está desaparecido e, dizem, pode ter abandonado a fé cristã... (Divulgação)

    Scorsese manteve a feitura desse projeto há mais de sete anos. Concluí-lo não era apenas uma questão de honra mas sim provar a si mesmo que essa história merecia ser contada. E merecia mesmo. O roteiro - co-escrito por Jay Cocks, que já trabalhou com Scorsese em 'Gangs de Nova York' - é uma viagem à diferentes culturas e crenças, com todas as suas dificuldades em relação àquilo que chamamos hoje em dia de "fé cristã". E isso visto sob os olhos do jovem Padre Rodrigues - Garfield em total entrega ao papel -, que inicia firme em seu propósito mas, como todo herói, vacila ante às situações enfrentadas, faz com que cada parte dessa jornada valha a pena. Mesmo que Scorsese pareça, em muitos momentos, desistido de ser aclamado por todos.

    O problema, talvez, seja a época em que foi lançada. Scorsese toma direções bem questionáveis em cena, visto seu currículo, como efeitos especiais baratos, com claro uso de computação gráfica em muitas cenas sem o devido tratamento necessário para que o espectador "esqueça" que há algo que não deveria despertar tanta atenção - repare em todas as cenas que envolvem fogo. Questionável também é o encerramento da trama, com algo que não faz muito sentido se acompanharmos toda a saga do personagem e tudo o que ele passou.
    Inoue (Issei Ogata, à direita) governa com mão de ferro e palavras mordazes (Divulgação)

    De qualquer forma, o embate ideológico promovido por Scorsese é válido, atual e totalmente indispensável. O elenco é bem esforçado, com destaque óbvio a Andrew Garfield - que foi recentemente indicado ao Oscar 2017 por seu papel em 'Até o Último Homem' mas é em 'Silêncio' que ele demonstra todo seu potencial. Adam Driver está correto em sua personagem mas tem pouco tempo de tela para demonstrar o que sabe - porém o faz com destreza. Liam Neeson ainda faz o mentor de forma automática e que nada tem de muito especial ou que fique marcado na mente das pessoas. Mas é bem interessante ver a desenvoltura em cena de Issei Ogata, que interpreta o Governador Inoue, nobre de palavras pérfidas e atitude soberba. E vale destacar também o desempenho de Yosuke Kubozuka, que faz um personagem bem interessante - e até cômico em dados momentos -, mostrando a dualidade do dogma da confissão, pontuando diversos estados de espírito do Padre Rodrigues (Garfield).

    O figurino - criado por Dante Ferretti - vai de vestes maltrapilhas às belas roupas utilizadas no Japão feudal pelos nobres da ocasião, capturando o espírito da época. E a direção de fotografia de Rodrigo Prieto - indicado ao Oscar 2017 pelo trabalho nesse filme - merece cada elogio por buscar ângulos diferentes e bem ousados para contar visualmente esta história.

    Um filme que merece ser visto, questionado, debatido e analisado. Pode não ser um grande clássico mas discute temas que estão ao nosso redor até hoje e estarão sempre por aí.


    Para Kal J. Moon, fé demais não cheira bem...
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