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    quinta-feira, 13 de julho de 2017

    CRÍTICA [CINEMA] | "Tour de France", por Kal J. Moon

    Dirigido por Rachid Djaïdani, "Tour de France" é um drama com pitadas cômicas - estrelado pelo rapper Sadek (foto) e o veterano ator Gérard Depardieu (foto)- que lança questões acerca do que é ser estrangeiro num país extremamente preconceituoso.

    Liberdade, igualdade e fraternidade
    Exibido originalmente na recente edição do Festival Varilux de Cinema Francês em 2017, "Tour de France" tenta mostrar aos espectadores, de forma crua, como o imaginário humano pode ser nocivo quando quer. Na trama, Far’Hook (Sadek), um jovem rapper francês de descendência árabe, para fugir de uma ameaça de morte, aceita a sugestão de fazer um tour pela França na companhia do pai de seu produtor, o amargurado e preconceituoso Serge (Depardieu). Eles percorrem juntos um ‘Tour de France’ por onde passou Vernet, pintor francês do século 18 encarregado por Luís XV de pintar os portos da França.

    "Tour de France" é um filme bem curioso quando se pensa em sua proposta e sua consequente feitura. Os cortes são rápidos e secos, quase como se fosse um longo vídeo feito para o YouTube - o recurso é válido, uma vez que parte da cinematografia do filme vem da câmera do aparelho celular de um dos personagens, o que permite deduzir, imageticamente falando, parte do maravilhamento dele pela viagem em si (e que a história pode vir da forma como ele, mais jovem, se lembra de tudo). E isso não é algo essencialmente ruim, apenas diferente e um pouco cansativo, caso o espectador não consiga "alcançar" a intenção.

    As personagens tem nuances bem interessantes. Sadek interpreta um rapper que é conhecido por esconder o rosto com o auxílio de um boné. Curiosamente, seu melhor disfarce para não ser reconhecido após a ameaça de morte é ~"sair à paisana", sem o adereço - e isso também se reflete na persona fora dos palcos ou da internet, quem ele é de verdade. Já Depardieu é um senhor bem preconceituoso em relação aos jovens, à música contemporânea e aos estrangeiros que vivem na França, achando que todos - mas principalmente aqueles descendentes de árabes - fazem parte de alguma facção terrorista. Porém, dá para perceber que o motivo é seu próprio filho ter se voltado ao islamismo como religião, renegando seu nome de batismo e cortando relações com o pai durante muito tempo - fazendo-o apenas para pedir que ajude seu amigo rapper.

    O que temos em cena é quase um 'tour de force', algo que exige um grande esforço para que seja bem executado, uma vez que a vida de um deles corre perigo. Então, ainda que possuam opiniões bem diferentes sobre diversos assuntos, terão de suportar um ao outro para chegar aos seus destinos. E é também uma jornada de redenção em muitos sentidos.

    As interpretações mais parecem improvisos em muitos momentos, onde Depardieu até arrisca uma tentativa de cantar um rap - e claro que isso é hilário! - ou onde vemos Sadek indo por um território dramático sem nenhuma experiência mas não se saindo essencialmente mal.


    O problema talvez seja o tom do filme, que se pretende como drama mas não entrega muitos momentos que se proponha à emoção. A duração e o ritmo também são conflituosos. O filme é um tanto longo demais para pouca trama - como é um road movie, vemos os personagens parando em algum lugar, travando embates ideológicos ou se entendendo -, com muitas repetições narrativas, onde um corte de pelo menos uns 20 minutos traria um pouco de agilidade à história apresentada. E, mesmo equilibrada, a trama falha em alguns momentos onde a dramaticidade é exigida mais fortemente.

    (Existe uma cena bem específica onde Sadek e Depardieu discutem para se reconciliarem em seguida que é um claro exemplo de potencial momento dramático desperdiçado - em parte, por conta da edição picotada e em parte por conta da "pressa" para que a cena se encerrasse, sendo que era a única que merecia especial atenção por parte da direção)

    E isso talvez se deva ainda à falta de maturidade artística do diretor Rachid Djaïdani - esse é apenas seu segundo longa-metragem -, uma vez que o tema lhe fale alto e possivelmente ficou difícil de se afastar para contar melhor essa história.


    Porém, "Tour de France" está longe de ser um filme ruim. A proposta de discutir enfaticamente o que é ser francês afinal - nascer de descendentes franceses ou nascer no país? - é atualíssima e encontra ecos em problemas que ressoam em outros países.

    Para se ter uma ideia, em dado momento, Sadek questiona Depardieu sobre este não representar a França pois seus discursos já não são os mesmos - e isso pode ser encarado, de certa forma, como metalinguagem, uma vez que Depardieu já não representa a nata do cinema francês (e é sempre bom ver debates inflamados que podem ser interpretados de diversas maneiras).

    Vale a pena ser visto se o espectador se permitir uma experiência diferente do habitual - o que é sempre bem vindo, aliás.


    Kal J. Moon presenciou Depardieu cantar um rap e pode dizer que já viu de tudo nessa vida...
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