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    sábado, 26 de agosto de 2017

    CRÍTICA [CINEMA] | "Atômica", por Kal J. Moon

    Dirigido por David Leitch e estrelado por Charlize Theron (foto), o filme "Atômica" ('Atomic Blond') é baseado na história em quadrinhos criada por Antony Johnson e Sam Hart, se passa no final dos anos 1980 - auge da Guerra Fria -, às vésperas da queda do infame Muro de Berlim. Fica a pergunta: existe a necessidade de conhecer geo-política da década perdida para entender essa história? Resposta: sim e não.

    Enganando o enganador
    O que era marcante nos filmes de ação dos anos 1980? Boa música na trilha sonora, atores e atrizes canastrões mas infinitamente carismáticos, cenas vertiginosas e inacreditáveis, além, claro, de uma trama que podia até não resistir a uma análise mais profunda, é verdade, mas não deixava de cumprir seu papel de escapismo e entretenimento. Os tempos são outros - e o politicamente correto deixou tudo mais ~"asséptico" possível no sentido que os filmes de outrora nunca seriam sequer aprovados para produção hoje em dia. "Atômica" é, em última instância, um sintoma disso. Mesmo que procure ousar em muitos aspectos - parte disso é culpa, sim, da história em quadrinhos que deu origem ao filme -, é refreado em tantas outras partes, como se fosse um animal selvagem preso numa coleira que o impedisse de fazer o que a natureza criou-o para executar.

    Na trama, Lorraine Broughton (Charlize Theron) é uma agente disposta a enfrentar qualquer desafio e a usar todas as suas habilidades para sobreviver à uma missão impossível. Em 1989, com a proximidade da queda do Muro de Berlim, a assassina mais brutal do MI6 é enviada a cidade para recuperar uma lista de valor inestimável. Ela se une ao chefe da estação local - David Percival (James McAvoy, foto) - e se envolve num perigoso e letal jogo de espiões.

    O filme é contado através de flashbacks, onde vemos lembranças da espiã em relação aos últimos dez dias em Berlim, sendo que ela tem de relatar o que deu errado na missão, uma vez que muito foi comprometido nos eventos daqueles dias. Recurso esperto - embora manjado - do roteiro escrito por Kurt Johnstad - já acostumado com adaptações de quadrinhos, uma vez que adaptou os dois filmes baseados em "300" para o cinema - mas que peca em mostrar muito e não explicar nada a contento. Em muitos momentos, vemos uma quantidade imensa de informação simplesmente despejada na tela, de forma que fica realmente difícil acompanhar o raciocínio sem contextualizar. Porém, nos momentos mais óbvios, temos explicações completamente desnecessárias à trama, como a parte onde um personagem explica para outro quem é Sinéad O'Connor para que a audiência mais jovem ache graça da piada - mas mesmo com a explicação, se não soubermos quem é essa pessoa, não acharemos isso engraçado, certo? E sério: quando vemos alguém citar Maquiavel, já sabemos que está do lado a ser combatido...

    Mas o principal problema é mesmo a condução ~"anabolizada" do diretor David Leitch, uma vez que ele não consegue extrair de seus atores a melhor interpretação possível, simplesmente porque ele não sabe como fazer. Seu forte são as cenas de ação. Coreografia e pancadaria sem limites - mas com um nível de realismo impressionante -, Leitch filma suas cenas com empolgação e prefere com que nada se perca, como na assustadora sequência APARENTEMENTE sem cortes envolvendo capangas, um elevador e vários lances de escada. Leitch conhece cada etapa dessa parte do trabalho pois já foi dublê em diversos filmes do gênero como os dois últimos "Matrix", diretor de segunda unidade em "Ninja Assassino" e o recente "Capitão América: Guerra Civil" - mas sua chance no comando de um filme só veio mesmo com "De Volta ao Jogo", o primeiro exemplar da violenta saga de John Wick, estrelado por Keanu Reeves.

    Aí é que está: enquanto as cenas de ação são impecáveis - e até mesmo cansativas pois são intermináveis em muitos momentos onde uma edição daria uma fluidez maior à trama -, as cenas onde a dramaturgia é necessária e exigem maior cuidado são bem desleixadas. A começar pelo desempenho de Charlize Theron. Ainda que isso também seja culpa do roteiro, a atriz não traz nada de cativante para que o público possa torcer por sua personagem. Num momento específico, uma personagem diz que Theron muda seu olhar quando diz a verdade - sendo que isso não aparece na cena em momento algum. Vemos traços externos de sua luta na espionagem - corpo machucado, lacerações mil, rosto ferido, usa roupas sempre em tom de preto-branco-cinza para mostrar que ela tem camadas mais profundas e que não tem pudores, é uma verdadeira "McGyver de saias" no quesito artes marciais pois usa o que estiver pela frente para contra-atacar o inimigo, bebe bastantes doses de vodca para aguentar o tranco durante suas missões - mas não dá para se importar com quem não temos afinidade e nem sabemos muito. Nem mesmo James McAvoy e John Goodman se esforçam, uma vez que estão perdidos e se viram como podem. Não comprometem mas sempre esperamos mais deles.

    A direção de fotografia de Jonathan Sela (também de "De Volta ao Jogo") poderia ter sido bem mais ousada e abusar de uma melhor construção cromática, uma vez que os anos 1980 eram conhecidos pelo visual colorido e exagerado, tanto nos EUA quanto na Europa. Existe o esforço mas não a realização a contento. Mesmo assim, o visual ainda é melhor do que se poderia esperar de um filme de ação quase ininterrupta, onde geralmente essa parte não é bem planejada.

    Nem mesmo as canções escolhidas para compor a trilha sonora saem da mesmice, uma vez que, na Europa, ouvia-se muito mais do que era produzido apenas nos EUA. Algumas canções casam perfeitamente nas cenas mas outras parecem bem deslocadas, como o momento que toca "Father Figure" - famosa na voz do saudoso George Michael - e a pancadaria rolando, mas sem o efeito desejado. E a trilha sonora original criada por Tyler Bates não tem nada de marcante.

    "Mas, tio Kal, eu quero saber se o filme diverte, se eu posso ver com a galera da minha escola...", pode você perguntar. A resposta é: depende. Depende muito de sua expectativa - e a de muitos (como eu!) era bem alta por conta daqueles trailers maravilhosos exibidos ad nauseam pela internet. Depende também se você curte um filme de ação mais simples, sem firulas, que não está tentando te dar uma aula de História ou Geo-política. Porque "Atômica" chega a um ponto que, se você não souber algumas coisas bem específicas dos anos 1980, não vai entender a trama. Mesmo. E isso tem nome: presunção. E preguiça de contextualizar o roteiro. "Atômica" tenta complicar o que é bem simples para, no fim das contas, deixar de explicar o que não tem explicação.

    Assista no cinema, não espere muito e talvez possa se divertir. Não leve crianças - é sério! Tire suas próprias conclusões. Mas o que vemos na tela pode ser resumido como "potencial desperdiçado". Era pra ser um filmaço. Não é o pior de 2017 mas acabou sendo um filme bem "nhé". Pena.


    Kal J. Moon nunca pensou que veria um Volvo num filme novamente. E queria ver Theron matar o cara com aquela cebola...
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    Item Reviewed: CRÍTICA [CINEMA] | "Atômica", por Kal J. Moon Rating: 5 Reviewed By: Kal J. Moon
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