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    quinta-feira, 21 de setembro de 2017

    CRÍTICA [CINEMA] | "Mãe!", por Marlo George


    Dubiedade narrativa e perfeccionismo técnico fazem do novo filme de Darren Aronofsky, Mãe!, mais um daqueles longas que não são pra qualquer um

    Afastado das telonas desde 2014, quando nos apresentou o péssimo Noé, o diretor Darren Aronofsky retorna com mais um filme que tem como fonte o livro mais vendido da história da humanidade: A Bíblia.

    Mãe!, seu novo trabalho, é uma alegórica e, digamos, utópica versão de uma das histórias mais famosas do Velho Testamento. Não vou dizer qual, uma vez que o filme tem muitas referências e citações visuais que deixam isso bem claro, tornando-se desnecessário dar esse spoiler. Especialmente porque a trama, do modo como foi escrita, entrega para a audiência situações que serão compreendidas – ou incompreendidas – conforme a experiência de cada um. Por isso, acredito, que o espectador deva descobrir isso por si só.

    Analiso que, por conta dessa aplicabilidade do texto ao conhecimento e maturidade de cada indivíduo que o filme venha recebendo elogios e alfinetadas, tanto do público, quanto da crítica. Isso vem acontecendo e podemos tomar como exemplo o fato de que Mãe! foi ovacionado e vaiado quando foi exibido no Festival Internacional de Cinema de Veneza.

    O roteiro, que foi escrito pelo próprio diretor, parece ser propositalmente dúbio. A estrutura narrativa é impecável, cíclica, mas à partir do segundo ato até sua conclusão, as decisões artísticas que representam o resultado de um "crime" cometido por dois dos coadjuvantes são péssimas, pois deixam o filme desnecessariamente confuso. Outro "pecado" de Aronofsky foi fechar sua obra com um plágio velado de um certo filme que também trata de temas bíblicos. Não direi aqui qual é, mas posso deixar uma pista: Seria inicialmente dirigido por Joel Schumacher e estrelado por Brad Pitt em 1994, mas ambos foram substituídos e o dito cujo acabou entrando em cartaz na segunda metade da década de 90. Se quiser saber de que filme se trata, basta dar uma pesquisada.


    Se Aronofsky pecou por um lado, foi agraciado por outro. Tecnicamente o filme é belíssimo e muito bem produzido. Apresentado como uma narrativa em primeira pessoa, a câmera acompanha a protagonista durante todo o longa, numa demonstração prática de direção de fotografia. Os ângulos, recursos e soluções de narrativa visual são tão impressionantes que acho que seria mais um pecado não publicarem urgentemente os storyboards de Mãe!. Tais esboços sequenciais poderiam, creio eu, servir para o estudo de cineastas e quadrinistas. O diretor tem como assinatura pessoal essa relação intimista entre o personagem principal e a câmera. Já tinha feito isso em clássicos como O Lutador (sem dúvida, seu melhor filme) e Cisne Negro (que lhe rendeu uma indicação ao Oscar), mas em Mãe! essa relação é bem mais estreita e funcionou muito bem, apesar de todo o perigo que tal ousadia artística traz.

    Porém, tamanha exposição em cena exigiu demais de Jennifer Lawrence, nossa considerada JLaw, que foi prejudicada pelas duas horas de duração. Se as tais decisões artísticas, acima citadas, fossem melhor escolhidas, e rendessem um corte de pelo menos vinte minutos, talvez não fosse tão cansativo acompanhar JLaw em seu percurso pela utopia cristã de Aronofsky.

    Uma presença muito forte em Mãe! é Javier Bardem, que interpreta o enigmático "Ele". O ator espanhol empresta seu rosto rústico à essa personagem misteriosa, reforçando sua condição de persona maior que a vida. As cenas que compartilha com JLaw e Ed Harris são as mais legais do longa. Harris também se destaca como o sujeito irritante, figuras que ele encarna sempre com maestria. Michelle Pfeiffer, que faz a mulher de Harris, tem menos espaço e spotlight que os demais, mas isso não afeta seu trabalho, que foi bem feito.

    Interessante é a dobradinha dos irmãos GleesonBrian e seu hypado brother Domhnall interpretam personagens vitais para a trama e esbanjam talento, que vem de berço, pois seu pai é ninguém mais, ninguém menos que Brendan Glesson, de Coração Valente e da Saga Harry Potter.


    Bem, assim é Mãe!, um filme com um elenco ótimo, uma produção e direção de fotografia fenomenal, mas com um roteiro que pode não agradar a todos, pois, ousa ao flertar com a experiência de cada pessoa que o assistir. Acho que a palavra é essa mesmo, experiência. Experimente Mãe! O mais importante não é gostar ou desgostar do filme. É prová-lo e formar sua própria opinião sobre o novo trabalho de Aronofsky.

    Ultimamente temos assistido filmes que, por conta da euforia, são alçados à condição de obras-primas, mas que passada a temporada em cartaz acabam sendo reavaliados e perdendo estrelinhas. Tem acontecido com mais frequência entre os blockbusters, porque são filmes mais acessíveis e por isso são facilmente super-estimados em redes sociais por pessoas que não entendem de cinema, mas que se valem de sua condição de nerd/geek/youtuber influente para ditar o que é bom ou ruim, desprovidas de qualquer critério, experiência ou crédito. Foi assim com Vingadores: Era de Ultron e, mais recentemente, Mulher-Maravilha, por exemplo. Ambos foram considerados clássicos modernos, mas tal título não perdurou, passado o furor da estreia. Mãe! vem sendo execrado. Pode ser que, no futuro, passada a influência de termômetros de crítica, como Rotten Tomatoes, ou dos inconvenientes pseudo-cinéfilos e críticos de Facebook, seja reavaliado ao ser assistido novamente, com a atenção devida.

    Eu vou assistir de novo.




    Marlo George assistiu, escreveu e vive numa casa bem parecida com a d'Ele.
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