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    sexta-feira, 13 de outubro de 2017

    CRÍTICA [CINEMA] | "Como É Cruel Viver Assim", por Kal J. Moon

    Dirigido por Julia Rezende, escrito por Fernando Ceylão - baseado numa peça também escrita por ele - e estrelado por Fabíula Nascimento, Silvio Guindane, Débora Lamm, Marcelo Valle, Paulo Miklos e participação especial de Otávio Augusto, "Como É Cruel Viver Assim" - que está em cartaz no Festival do Rio (clique AQUI para conferir a programação) - questiona a grande dúvida de cada ser humano: o que fazer quando não se tem alternativas?


    O imensurável teatro do absurdo
    Imagine um filme onde o momento cósmico para ser executado chegou e tudo foi construído para que a arte falasse mais alto, sem firulas, rodeios ou mesmo uma certa petulância. Imagine uma direção de atores tão competente - parabéns, Júlia Rezende! - que implementa a linguagem cênica com uma verdade tão palpável que mais parece uma cena de documentário. Imagine um roteiro que é tão burilado que dá até para cogitar que essa história, por mais absurda que pareça, possa ter acontecido a algum conhecido seu, como aquelas histórias que muitos gostam de começar com "Lembra de fulano? Então...". Imagine uma trama em que o espectador espera se rebolar de tanto rir mas, ao fim da sessão, se pega pensando em sua situação como ser humano - ou mesmo na situação do país em que se encontra. Pois é, esse filme é exatamente assim.

    Há quem diga que os diálogos afiados e que parecem falar sobre qualquer outro assunto que não o tema da história se pareça muito com o que Tarantino e Kevin Smith fazem em seus filmes. Mas durante um debate após a sessão deste filme no Festival do Rio, o roteirista Fernando Ceylão fez questão de enfatizar que sua principal inspiração foi Nelson Rodrigues, que já fazia exatamente isso décadas antes de Tarantino sonhar em fazer cinema. E Ceylão está coberto de razão. Realmente, há um "perfume rodrigueano" nesta curiosa história. Clívia (Fabíula Nascimentoé a "pequena", dona de uma lavanderia e que sonha em se casar com Vladimir (Marcelo Valle), um homem que não consegue emprego de taxista e fica impressionado com o desdém das pessoas ao desprezarem uma vendedora de bolo que não possui um dos braços. Regina (Débora Lammé uma desbocada fumante compulsiva que mora de favor com o casal, foi mandada embora de seu emprego de babá e quer armar o sequestro de seu ex-patrão. Primo (Silvio Guindaneentra como o elemento dissonante, perturbador e completamente imprevisível - além de hilário em diversos momentos. E isso tudo contando com participações mais do que especiais de Paulo Miklos, Otávio Augusto - uma espécie de Don Corleone -, Zezeh Barbosa e, claro, Marcius Melhem (afinal, a história se passa em Nilópolis!). Contar mais do que isso estragaria a experiência de quem pretende assistir, ok?


    É impressionante como TUDO convergiu para que essa história fosse contada. Um elenco tão afiado onde todos estão muito bem - mas não tem como deixar de destacar Sílvio Guindane e sua indefectível construção de personagem, tão crível mas tão ~"assustadora" (por falta de palavra melhor), além, claro, da arrogância suburbana que Débora Lamm empregou em cada cena, com um cigarro que mais parece extensão de seu corpo ou de seus sentimentos (por mais funestos que fossem) -, uma direção de fotografia completamente esmerada em contar de forma visualmente atraente esta trama tão prosaica (mérito de Dante Belluti, que compôs graficamente o que parecia ser impossível: diversos planos-sequência repletos de diálogos sem parecer algo gratuito), um roteiro que já começa na metade - assim como a vida - e, desde o primeiro instante, já se conhece cada personagem e suas frustrações. Não é uma história sobre como conseguir dinheiro rapidamente. É sobre ~"outra coisa", uma coisa que talvez não tenha uma explicação razoável, como a diferença entre shampoo para crianças e adultos ou onde fica localizada a árvore onde um jogador do Vasco bateu o carro e morreu.

    Erra quem pretende assistir pensando que trata-se de uma comédia rasgada como tantas outras produzidas pelo cinema feito no Brasil - e não tem nada errado nisso pois existe um público que as consome. "Como É Cruel Viver Assim" pode ser comparado - positivamente - a "Entre Abelhas", filme brasileiro em que há um grande drama a ser desenvolvido mas existem trechos cômicos como uma espécie de alívio para instaurar uma tensão maior e reflexão ao final - tente respirar numa cena onde há um dilema envolvendo uma arma de fogo... "Como É Cruel Viver Assim" começa tenso mas doce, primaveril, deliciosamente suburbano e esperançoso. Mas termina azedo, meditabundo, filosófico até.


    O cinema brasileiro é taxado de tocar nas mesmas teclas - biografia, comédia, violência urbana - e muitos defendem uma "segunda retomada" de ideias a serem exploradas. Pode ser verdade e isso só o tempo vai poder comprovar. Mas o que se pode dizer com absoluta certeza é que "Como É Cruel Viver Assim" é um desabafo tardio, é uma história de amor, é tenso e angustiante em alguns momentos e fará o espectador rir descontroladamente em outros - às vezes, de nervoso. Porém, acima de tudo, é o filme que o cinema brasileiro possibilitou existir. E que bom que existem alternativas esmeradas como essa. Em uma palavra: imperdível. E quem quiser que conte outra!


    Kal J. Moon já viu a morte de perto quando caiu shampoo de adulto em seus olhos. Trágico...
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