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    sexta-feira, 20 de outubro de 2017

    CRÍTICA [CINEMA] | "Thor: Ragnarok", por Marlo George

    Thor e Hulk se unem para enfrentar a ameaça de Hela, nova vilã à tira-colo do Universo Cinematográfico Marvel (UCM) em Thor: Ragnarok, primeiro filme do desconhecido diretor Taika Waititi para a franquia dos "Maiores Heróis da Terra".


    Novo filme, velhos problemas

    A Marvel Studios vem cometendo, na minha opinião, dois erros fatais desde o início da segunda fase do seu universo cinematográfico. O primeiro deles são os subtítulos escolhidos para as produções, sempre grandiosos porque são baseados em arcos de histórias clássicas dos gibis, mas que, nem de longe, recontam tais histórias. A única exceção é Capitão América 2: O Soldado Invernal, que adaptou a excelente graphic-novel Capitão América: Soldado Invernal, escrita por Ed Brubaker e ilustrada por Steve Epting, de maneira adequada e respeitosa ao material original. Todos os demais filmes que trazem subtítulos que fazem referência à algum arco específico do Universo Marvel, "bebem muito pouco" do cânone dos quadrinhos. Foi assim com Vingadores: Era de Ultron, Capitão América: Guerra Civil e, agora, Thor: Ragnarok.

    O que os diretores, roteiristas e, especialmente, executivos da Marvel Studios fazem parece ser o seguinte: Batizam o filme do herói ou supergrupo com um subtítulo que cause euforia (e isso é fácil, pois basta catá-lo de algum arco amado pelos fãs), criam um ou dois elementos que justifiquem o batismo da produção, resumem ao máximo a ideia e entregam um filme que geralmente tem um enredo engessado, fraco, mas que satisfaz os fãs menos exigentes. "Era de Ultron" deveria ser uma ERA, ou seja, uma história imensa, com repercussões decisivas em filmes futuros, pois uma ERA causa esse tipo de impacto. "Guerra Civil" pressupõe uma disputa muito mais importante do que aquela "discussão de relacionamento" dos heróis Marvel que é mostrada no filme dos Irmãos Russo. "Ragnarok", por sua vez, deveria ser o crepúsculo dos deuses asgardianos, uma narrativa de seu ocaso. Mas não foi isso que aconteceu, pois, novamente eles bolaram uma história previsível e simples demais e não a basearam nos diversos gibis que contaram o evento apocalíptico do mundo de Thor.


    Essa simplicidade do roteiro nos leva ao segundo erro grave da Marvel Studios: O péssimo aproveitamento dos vilões. Em Thor: O Mundo Sombrio fomos apresentados à um vilão maravilhoso, Malekith, que poderia ter sido utilizado em Ragnarok, figurando ao lado de Hela como um aliado poderoso. Zemo era tão insignificante em Capitão América: Guerra Civil que nem mesmo Barão ele era, título que ostenta nos quadrinhos. Perdeu a nobreza, coitado. Tinha um plano excelente, mas que foi sub-aproveitado porque a "DR marvete" era mais importante para os roteiristas. Falando em Barões, temos ainda Wolfgang von Strucker, que apareceu na cena pós-crédito de Capitão América 2: O Soldado Invernal, mas que não durou nem 10 minutos em Vingadores: Era de Ultron. Recentemente, em Guardiões da Galáxia Vol. 2, estivemos perante Ego, um ser cósmico super-mega-ultra-hyper poderoso pra cacimba, e novamente tivemos uma baixa.

    Qual o problema com os vilões, Marvel Studios? Não gosta deles?

    Pois nós adoramos! Sem bons vilões não tem história de supers que se sustente. Imagine só: Vingadores: Guerra Infinita sendo um mega evento cinematográfico que reuniria toda essa corja de malfeitores contra os heróis Marvel?

    Na minha opinião: Seria o máximo!


    Pegada infantil

    Dito isso, posso resumir que Thor: Ragnarok traz os mesmos problemas dos filmes acima citados, pois tem uma história simples e um sub-aproveitamento dos personagens coadjuvantes. Porém, a simplicidade do roteiro tem um lado positivo. Ao criar uma história fácil de digerir, com atos bem definidos e sem uma narrativa emaranhada, os roteiristas Eric Pearson, Craig Kyle e Christopher Yost entregaram um filme, digamos, infantil. Isso é bom, afinal, é um filme do Thor, herói que recentemente caiu nas graças do grande público, especialmente das crianças, e ainda traz de volta o Hulk, que todo mundo adora. Thor: Ragnarok, apesar do subtítulo funesto e da vilã diabólica, tem esse apelo. Trata-se de um filme infantil, para a molecadinha e para a nossa própria criança interior, aquela que vive nos corações de todos os adultos.

    Outra coisa interessante que notei foram duas referências aos desenhos animados que rolavam na TV nos anos 80, os infames "desenhos desanimados da Marvel". Uma delas seria um spoiler, então não vou contar, mas é muito evidente e é relacionada ao desenho do próprio Thor. Quem assistia a animação ou lia os gibis do Deus do Trovão, na época, vai adorar. Eu amei. A outra é o character design do Hulk que está muito parecido com a versão televisiva do "excêntrico", "neurótico" e "anti-estético" super-herói (pegou a referência?). Se não foi acidental, certamente foi intencional.


    O próprio "Planeta Hulk", que eu ansiava por ver na telona, teve uma versão suavizada. Na visão de Waititi, o planeta Sakaar é estranhamente espalhafatoso e carnavalesco, contrastando com o Sakaar dos quadrinhos do arco Planeta Hulk, escrito por Greg Pak, onde é retratado como um planeta hostil e violento. Pouca coisa foi retirada do gibi, apenas as personagens Korg e Miek, que servem como alívio cômico. Korg foi interpretado pelo próprio diretor e ficou bem legal. O Rei Vermelho não está lá, pois foi substituído pelo Grão-Mestre, versão cômica do personagem criado por Roy Thomas e Sal Buscema em 1969. Interpretado pelo carismático Jeff Goldblum, de A Mosca (1986), soou como uma versão ainda mais afetada do Colecionador, de Guardiões da Galáxia. A vantagem de ter Goldblum no elenco, encarnando personagem tão "estranho", é a certeza de que ele não vai errar a mão ou exagerar na tinta. Se o fizesse, seria um fracasso retumbante, mas Goldblum manteve a linha e seu Grão-Mestre não incomoda muito.

    Tantos alívios cômicos, o uso exagerado de piadas (a maioria sem graça) e história bobinha corroboram minha teoria de que Thor: Ragnarok é, sem delongas, o primeiro filme declaradamente infantil da Marvel Studios. Novamente, termino outro parágrafo concluindo que: Se não foi acidental, certamente foi intencional.


    Novos e antigos amigos... e inimigos

    Como já falamos do mito Goldblum, passemos agora para o restante do elenco.

    Cate Blanchett aceitou o papel de Hela, vilã do filme, para agradar o filho (que inclusive faz uma participação especial em uma das cenas), fã da Marvel e que garantiu que isso seria um empurrão em sua carreira. A vencedora do Oscar foi lá e fez aquilo que sabe fazer, e muito bem. Blanchett está diabolicamente linda e sua Hela é infernal, ameaçadora e reverenciável. Sua voz, marcação em cena e timming fazem toda a diferença. O plano da malfeitora é, como já disse, simples, mas sua presença implacável a coloca entre os grandes vilões de filmes de HQ´s de todos os tempos.

    Hela é a personificação definitiva da femme fatale do inferno.


    Ainda falando em vilões, Skurge debuta nos cinemas através do ator Karl Urban. Aparece pouco, mas sempre em momentos importantes, sendo imprescindível para a trama. Uma pena que sua última cena, que parece ter sido arrancada das páginas do gibi, não emociona. Urban é um bom ator, já provou isso diversas vezes e mostrou competência mais uma vez.

    Lembra do Kurgan? Aquele vilão irado de Highlander: O Guerreiro Imortal?

    Se não, corra e vá assistir logo. Mas se a resposta é sim, bastaria eu dizer que ele empresta sua voz para o megavilão Surtur para você sair correndo de medo?

    Pois é! Clancy Brown é Surtur e eu praticamente surtei perante o poder de sua voz gutural. Muito bom ir ao cinema e reencontrar antigos ídolos.

    A velha patota de Thor também faz uma participação especial em Ragnarok. Volstagg, Hogum e Fandral retornam à telona, mas Sif não deu as caras no filme. Uma pena. Os três primeiros, interpretados, respectivamente, por Ray Stevenson, Tadanobu Asano e Zachary Levi tem pouco tempo de tela, como aconteceu em Thor: O Mundo Sombrio, mas os acontecimentos nos quais se envolvem são decisivos. Pena que tudo acontece muito rápido, possivelmente para abrir espaço para as novidades do elenco do filme.

    Novidades como Tessa Thompson e sua inconvincente Valquíria. Aparentemente desinteressada, inexpressiva e antipática, a atriz não me agradou novamente. A assisti em Querida Gente Branca, filme que a revelou, e também não tinha gostado. Pelos mesmos motivos.


    Idris Elba marca terreno novamente com seu Heimdall. É um ator excelente, assim como o personagem, que merecia um filme solo, especialmente após os eventos de Ragnarok.

    Brilham também os ótimos Anthony Hopkins, Benedict Cumberbatch e Tom Hiddleston. Hopkins é um mestre e esbanja talento em uma cena na qual pai e filhos se encontram após um certo tempo separados. Um momento tocante. O Doutor Estranho retorna em uma participação especialíssima. Achei que Cumberbatch estava mais Doutor Estranho em Thor: Ragnarok do que em seu próprio filme solo. Quem já leu os quadrinhos vai perceber isso.

    Loki, interpretado por Matt Dam..., digo, Tom Hiddleston, novamente é a cereja do bolo da produção. A Marvel lança um longa, tem o Loki, é certo que o ator britânico vai roubar a cena. Isso vem acontecendo com tanta frequência que já está se tornando redundante ficar fazendo elogios à sua performance. Divino. Cômico quando precisa ser, dramático quando a cena requer isso, Hiddleston doutrina.

    Finalizando temos nossa dupla de super-heróis preferida (depois do Batman e Robin, é claro): Hulk e o protagonista, ThorMark Ruffalo, que assumiu os músculos do Gigante Esmeralda desde Os Vingadores (2012), é um ator que começou fazendo comédias românticas bobocas (que ele faz até hoje) e foi com surpresa que recebi a notícia que ele seria o novo Hulk, após Edward Norton desistir da personagem. Ruffalo já está fazendo o Hulk faz tempo e eu acabei me acostumando com a ideia. Curto seu trabalho, apesar de o ator usar sempre as mesmas caras e bocas em todos as produções que participa.


    Outro que conquistou seu lugar no Olimpo Marvete definitivamente foi Chris Hemsworth. O que ele não tem de técnica, esbanja em carisma. É um dos poucos entre os galãs grandalhões que é carismático. Ele é natural, disciplinado e focado, e usa isso tudo à seu favor, disfarçando suas limitações com os recursos que tem. Conforme vai ficando mais velho, mais convincente como Thor ele fica. Uma pena que a direção optou por tosar as madeixas da personagem, injustificadamente, para adequá-lo à moda. Sério, o Thor ficou ridículo com o cabelo curto. O Deus do Trovão deveria ficar cada vez mais enrugado e cabeludo, pra ficar cada vez mais parecido com uma ilustração do Earl Norem.

    Gosto do Thor. Só não tô curtindo o novo visual.


    Sons, mundos e criaturas côsmicas

    A trilha sonora, que mescla música clássica com enfadonhos sintetizadores, típicos da década de 80, é assinada por Mark Mothersbaugh, de Anjos da Lei (2012), e não funciona. Acredito que a função principal da trilha é marcar o ritmo do filme, sendo elemento imprescindível nas cenas de ação. Isso não acontece em Thor: Ragnarok. O filme passa e você sequer se dá conta de que a trilha sonora está lá. Não faz diferença nenhuma. Pra piorar, em duas cenas de ação importantes, o diretor abriu mão da trilha sonora e a substituiu por uma canção famosa da banda Led Zeppelin, à exemplo do que David Ayer fez em Esquadrão Suicida. Não funcionou no filme da DC Comics, por que daria certo num longa da Marvel?

    Além do mais, sintetizadores e outros instrumentos modernos, como guitarras elétricas, por exemplo, não combinam com personagens lendários como Thor, o Deus do Trovão, mesmo que a aventura se passe nos dias de hoje. Uma simples questão de estilo.

    O filme peca ainda, e muito, em sua direção de arte. Os figurinos, maquiagem e cenários são feios. A insistência em tornar o filme atrativo para gamers pôs tudo à perder. Ficou estranho, como o vestido certo, na garota errada.

    As cenas de ação são incríveis, muito bem coreografadas, mas foi prejudicada pelo departamento de computação gráfica. Aliás, tudo que foi filmado em chroma keyer (praticamente o filme inteiro) não foi editado de modo a dar legitimidade às cenas. Tudo parecia falso.

    Porém, Thor: Ragnarok é um filme honesto. Poderia ser muito melhor, mas ousadia não é uma das qualidades da Marvel Studios.

    Como sempre, o filme traz duas cenas pós-créditos e tem participação do Stan Lee (lógico). Fique ligado.



    Marlo George assistiu, escreveu e já amassou uma lata de cerveja que nem a Hela amassou a Mjolnir. Mas queria mesmo era saber fazer aquela magia da cerva do Doc Strange. Meu bolso agradeceria.
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