728x90 AdSpace

  • Nerd News

    segunda-feira, 13 de novembro de 2017

    CRÍTICA [CINEMA] | "Uma Razão para Viver", por Kal J. Moon

    Dirigido por Andy Serkis, estrelado por Andrew Garfield, Claire Foy, Tom Holllander e grande elenco, "Uma Razão para Viver" ('Breathe') mostra as desventuras de uma família numa luta desleal pelo direito à condição humana de sobrevivência.

    O (necessário) drama da inclusão social
    Um tema tão atual e digno de discussão é o que move a trama de "Uma Razão para Viver". Até saber o real motivo para se produzir este filme, o espectador se perguntará o que tem de especial uma história sobre um homem do século passado que luta por seus direitos para ser digno de um atendimento médico melhor do que o que ele estava recebendo. Mas desde que foi anunciado este projeto e o fato de saber que ninguém menos que o MITO Andy Serkis seria o diretor, já se pronunciava que algo de muito interessante viria por aí. "Uma Razão para Viver" pode ser tudo, menos nada especial.

    Na trama, baseada na incrível história real do britânico Robin Cavendish (Andrew Garfield), jovem que se apaixona por Diana (Claire Foy) e planeja viver uma vida repleta de aventuras ao seu lado. Porém, aos 28 anos, ele recebe o diagnóstico de poliomielite e fica tetraplégico. Contrariando todas as ordens médicas e convenções sociais da época, eles decidem continuar aproveitando a vida e viajar o mundo, ajudando outras pessoas.

    O roteiro escrito por William Nicholson (de "Gladiador" e o recente "Os Miseráveis") condensa toda as agruras da família Cavendish desde que eles se conheceram, passando pelos momentos difíceis da descoberta da poliomielite - que impediam Robin Cavendish de respirar sem o auxílio de aparelhos (daí o nome original do filme) - mas contando também momentos alegres (alguns inacreditáveis como aquelas histórias relatadas frugalmente em reuniões familiares de fim de ano), equilibrando drama, romance, tragédia e bom humor. Parte da trama tem um incisivo tom de sermão em prol da inclusão social que pode irritar alguns - mesmo que com momentos espertos de correlação visual - mas que se torna inteiramente necessário em diversas partes por conta da importância dos acontecimentos descritos.

    Há quem vá reclamar que algumas cenas são carregadas de melodrama, o que pode até ser verdade, dependendo da expectativa. Mas temos de nos lembrar que essa é uma história que se passa no início do século passado e parte da missão dessa saga é emocionar e criar mecanismos para que o espectador entenda que havia a real necessidade da humanidade conhecer o drama desses personagens. Sabe aquelas cadeiras de rodas mais confortáveis acopladas às maquinas respiratórias portáteis, que permitem um conforto maior ao pacientes com problemas locomotores? Surgiu a partir de uma ideia de Cavendish. Sabe aqueles carros adaptados para caber uma cadeira de rodas maior que as normais, com segurança e dignidade? Outra ideia dele. Sabe por que você já viu ou ouviu falar desses equipamentos? Porque ele e sua família viajaram o mundo para informar especialistas da área que doentes não eram coitados e que deveriam ser incluídos na sociedade, deixando de ser relegados a uma ala de hospital quando não havia necessidade disso. Entendeu por que esse filme é necessário? Pois é, nada melhor do que um filme como esse para alcançar as massas...

    O elenco faz um trabalho correto, com momentos interessantes. Mas nada que ofusque o trabalho da entrosada dupla Andrew Garfield e Claire Foy, onde se concentra o foco dramático e narrativo. Foy sai da juvenil aventureira para uma decidida matriarca que fará de tudo - e quando se diz tudo é tudo mesmo - para dar a seu marido a dignidade que ele necessita para continuar vivendo (o que justifica, por um lado, o título nacional). Mas Garfield entrega um desempenho muito acima da média, criando empatia com a audiência de forma que se torce pela personagem e entende-se o que se passa em sua cabeça somente com o olhar desse esforçado ator que já surpreendia o mundo desde o obscuro filme "Não Me Abandone Jamais". Não ficarei nada supreso se surgir outra indicação ao Oscar por esse papel. Destaque também para Tom Holllander, que interpreta irmãos gêmeos com uma destreza de se fazer inveja - e interessante o jogo de cena criado por Serkis para lidar com situações em que essas personagens contracenam ao mesmo tempo.

    Falando em Serkis, não tem como não falar de seu estilo de direção. Ele que destacou-se como ator de personagens fantásticos em filmes como as saga "O Senhor dos Anéis", "O Hobbit" - onde também foi diretor de segunda unidade de ambas as trilogias -, "O Planeta dos Macacos", dentre outros sucessos, manteve a fleuma inglesa de cada personagem retratada neste filme, defendendo-os de quaisquer tipos de pasteurização, não facilitando em nada a compreensão desse "universo" diferenciado. Em muitos momentos, ~"vemos" a mão de Serkis orientando o porte, a postura, a delicadeza, a ira incisiva, a perspicácia, exatamente como ele mesmo faria se estivesse em cena. Serkis não pormenoriza o drama mas preenche diversas cenas com o bom humor inglês. Cenas que começam trágicas descambam para algo alegre e leve. O inverso também ocorre, numa cena que, com certeza, fará o espectador perder o fôlego, sentindo a gravidade da situação. Começou marcando diversos gols nesse sentido.

    Os aspectos técnicos do filme também se destacam com o esmero necessário para se contar uma história como essa. O figurino criado por Charlotte Walter (de "Orgulho e Esperança") é correto - mesmo que não tenha nada que realmente se destaque; os cenários projetados por Sara Wan (de "Como Eu Era Antes de Você") entregam a credibilidade que a trama necessita; a trilha sonora original composta por Nitin Sawhney (egresso da TV, compôs para curtas e documentários, além de ter colaborado no vindouro "The Jungle Book", adaptação de Mogli igualmente dirigido por Andy Serkis) cria a atmosfera ideal em cada ciclo da trama, indo do jovial e primaveril início ao cálido e emocionante final; a maquiagem desenvolvida por David Malinowski (de "Animais Fantásticos e Onde Habitam") funciona em muitas cenas onde Garfield segue envelhecendo com o passar dos anos mas erra quando comparado ao que foi realizado em Foy, que parece envelhecer apenas na última cena em que aparece, num close, como se ela estivesse congelada no tempo.

    O destaque maior vai mesmo à cuidadosa direção de fotografia comandada por Robert Richardson (ganhador do Oscar por seu trabalho em "A Invenção de Hugo Cabret"). Muitas de suas cenas remetem ao trabalho do ilustrador estadunidense Norman Rockwell, com crianças de bochechas rosadas, com algo em tom de azul em algum lugar da cena, uma paleta que vai do azulado, passando pelo cinza londrino ao marrom euro-central, misturando matizes claras e escuras com perfeição. O que dificultou seu trabalho foi a edição picotada de Masahiro Hirakubo (de "A Duquesa"), interrompendo, na primeira metade do filme, a dramaticidade de uma cena quando se ia, de forma seca, a outra que não estava emocionalmente conectada.

    "Uma Razão para Viver" pode não ser um filme perfeito em todos os aspectos mas está longe de ser algo que não deva ser visto no cinema. Seja pela grandiosidade do tema, seja pela exuberância visual ou seja apenas por uma história interessante e inacreditavelmente inédita. Andy Serkis, meu nobre, tens - ainda mais - meu respeito. Um brinde ao seu grande talento.



    Kal J. Moon achou engraçado ver Andrew Garfield - um ator que já viveu o Homem-Aranha no cinema - interpretar um personagem chamado... Robin!
    • Comente no site
    • Comente no Facebook

    0 comentários:

    Postar um comentário

    Item Reviewed: CRÍTICA [CINEMA] | "Uma Razão para Viver", por Kal J. Moon Rating: 5 Reviewed By: Kal J. Moon
    Scroll to Top