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    quinta-feira, 22 de março de 2018

    CRÍTICA [CINEMA] | "Círculo de Fogo: A Revolta", por Marlo George

    Em sua estreia no cinema como diretor, Steven S. DeKnight sente a pressão de substituir Del Toro e apresenta sequência insatisfatória do clássico "Círculo de Fogo"


    Em 2013 mergulhamos na nova versão de um universo familiar e, ao mesmo tempo, sedutor. Familiar para aqueles que já passaram dos 35 anos e sedutor para as novas audiências. Círculo de Fogo, filme dirigido por Guillermo Del Toro, é simplesmente o melhor filme de monstros gigantes do cinema, porque redefiniu, e já era hora, um gênero considerado trash e desgastado.

    Pronto, falei. Que venham os puristas com paus e pedras nas mãos! Eu tentarei me defender com meu escudo de aço gigante. De novo, pois já tinha feito elogios rasgados na época de seu lançamento, em crítica que você pode ler neste link.

    O trabalho do mexicano é tão primoroso que se tornou, para mim, uma referência desse sub-gênero dos filmes de ação e aventura. Não tem como falar sobre o assunto sem fazer referência ao clássico moderno, mesmo quando o tema das discussões são os filmes que originaram e inspiraram o trabalho de Del Toro, como Godzilla (1954), Gamera (1965) ou Guerra dos Monstros (1965).

    Agora a tão aguardada sequência, que teve seu lançamento adiado duas vezes, finalmente estreia nos cinemas, mas me decepcionou bastante.


    O que havia de mágico no filme original era seu tom adulto, apesar de seus personagens caricatos, de todos os clichês do gênero e todas as engenhocas impossíveis. Trata-se de um filme maduro, com atos muito bem amarrados e trama cativante. Em Círculo de Fogo: A Revolta todos esses elementos, que tornaram o longa anterior um clássico instantâneo, foram jogados fora para que fosse apresentado para o público um filme cômico, de fácil digestão, com bem menos ação e repleto de gags.

    O longa conta a história de Jake Pentecost (John Boyega), filho do lendário ex-piloto e Marechal Pentecost (Idris Elba). Jake era um promissor aspirante a piloto de jaeger — máquinas de combate que enfrentam os kaijus, os monstros gigantes que apavoram a humanidade — mas que decide trilhar o caminho fácil da vida bandida. Após ter o infortúnio de cruzar o caminho de uma adolescente hacker que criou seu próprio jaeger de uso pessoal (Cailee Spaeny), a vida de Jake e, consequentemente, seu destino mudam completamente. Passado cerca de 10 anos após os eventos do filme anterior, numa época em que os kaijus já tinham sido derrotados, Círculo de Fogo: A Revolta traz um novo e tenebroso inimigo. Uma ameaça que talvez seja muito pior do que um cardume de monstros gigantes do pacífico: A ambição.

    Com um filmaço de introdução e um plot irado desses, Círculo de Fogo: A Revolta tinha tudo para repetir o êxito de seu antecessor. Porém, o diretor Steven S. DeKnight entregou um filmeco com roteiro raso e soluções nada imaginativas. A trama não passa de um emaranhado de cenas previsíveis que vão assassinando tudo que foi alicerçado em 2013, num estrago de proporções épicas, digno de um kaiju desenfreado em plena Sidney, Austrália.


    Além dos "lances manjados", o filme traz também ideias requentadas. A mais descarada é uma cena que mostra a conexão entre pilotos jaeger pela primeira vez. Como num déjà-vu, a tentativa de alinhamento mental resulta na mesma coisa que aconteceu no filme original. A cara-de-pau foi tão grande que eles nem tentaram disfarçar.

    Isso pra não comentar sobre as piadinhas bobocas. De todas, só se salva a que faz referência à banda Foreigner. Dessa eu ri, porque era contextualizada e não tinha como não rir.

    Mas a tragédia não se resume ao texto. Até mesmo de onde menos se espera surgem problemas. Em se tratando de uma obra que, embora não tenha sido dirigida tem o aval de Guillermo Del Toro, espera-se que nos aspectos técnicos o resultado seja primoroso. Acontece que Círculo de Fogo: A Revolta tem um trabalho de montagem apressado. Este problema fica ainda mais flagrante nas cenas de luta que acontecem nos momentos finais do longa. Os efeitos especiais não trazem nada de novo, deixando um aspecto de trabalho requentado.


    Porém, nem tudo que é requentado é, necessariamente, ruim. Círculo de Fogo: A Revolta traz de volta alguns rostos conhecidos. Rinko Kikuchi retorna como Mako Mori, dessa vez mais velha e com tímida participação na trama. A atriz é ótima e sua personagem relevante demais para servir apenas como uma espécie de "tutora e reserva moral de burro-velho", nesse caso, Jake (Boyega). Fiquei triste pois esperava mais da Mako, minha personagem preferida do mundo de Pacific Rim.

    Está de volta também a dobradinha Gorman-Day. Burn Gorman e Charlie Day roubam novamente a cena como os irreverentes Hermann Gottlieb e Newton Geiszler, respectivamente. A presença da dupla é o único acerto do filme. Os dois adoráveis e carismáticos cientistas amalucados são a prova de que é possível criar personagens que são meros alívios cômicos, mas que ao mesmo tempo são imprescindíveis e consistentes como parte integrante do universo em que estão situados.

    Dentre as novidades do elenco, preciso salientar o esforço e dedicação de John Boyega para compor sua personagem. Seu Jake é muito convincente e nem de longe lembra o Finn, da Saga Star Wars, nem mesmo fisicamente. Este era um temor que eu tinha, pois são dois personagens semelhantes, interpretados pelo mesmo ator em filmes com elementos característicos do gênero sci-fi e que foram lançados muito perto um do outro. Ter criado essa diferença mostra que o rapaz é talentoso e deveria se meter em projetos mais inventivos. Boyega é produtor de Círculo de Fogo: A Revolta.

    Tian Jing, de Kong: A Ilha da Caveira (2017) e A Grande Muralha (2016), vive Liwen Shao, CEO de uma corporação que leva seu sobrenome e que tem papel importante na trama. É uma boa atriz e suas cenas com Charlie Day rendem alguns momentos legais, possivelmente improvisados. É uma atriz interessante, com boa presença em cena e tem lá o seu charme.


    Scott Eastwood também faz parte do elenco e talvez a única coisa notável em sua performance é a força descomunal que o ator faz para imitar o próprio pai, o mítico Clint Eastwood. Não é BOM, pega MAL e é FEIO.

    E pra completar a tragédia temos a turminha de cadetes "aborrecentes" que, liderados por Cailee Spaeny, tentam servir como ponte para angariar um público mais jovem. Infrutífero. São eles os "proto-atores" Karan Brar, Wesley Wong, Ivanna Sakhno, Mackenyu, Lily Ji, Shyrley Rodriguez, Rahart Adams e Levi Meaden. Chatos, sem função na trama e jovens demais (para morrer), não passam de figurantes, tamanha sua irrelevância no contexto do universo criado.

    Da alta expectativa à decepção, assim sobrevivi à Círculo de Fogo: A Revolta. Possivelmente os equívocos, e são muitos, são resultantes da falta de experiência do diretor, Steven S. DeKnight, que tem poucos créditos na TV e já encara um blockbuster em sua estreia no comando principal.

    Espero que o terceiro filme, caso seja produzido, tem até um gancho pra isso, resgate o espirito do original.



    Marlo George assistiu, escreveu e se revoltou.
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