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    quarta-feira, 8 de agosto de 2018

    CRÍTICA [CINEMA] | "O Animal Cordial", por Kal J. Moon

    Escrito e dirigido por Gabriela Amaral Almeida, estrelado por Murilo Benício, Irandhir Santos, Luciana Paes, Ernani Moraes, Humberto Carrão e Camila Morgado, "O Animal Cordial" NÃO tenta responder a importante questão: qual o real limite que separa os seres humanos da selvageria?


    Torrente de sangue no mundo cão...
    "O Animal Cordial" teve grande destaque no Festival do Rio em 2017, onde Murilo Benício ganhou o prêmio de Melhor Ator. E este é um dos filmes - ao lado de "Yonlu" e "Como É Cruel Viver Assim" - de uma leva dos, talvez, mais diferentes execuções na cinematografia brasileira. E como vale a pena ir ao cinema assistir filmes assim!

    Segundo a sinopse oficial, um restaurante de classe média em São Paulo é invadido, no fim do expediente, por dois ladrões armados. O dono do estabelecimento, o cozinheiro, uma garçonete e três clientes são rendidos. Entre a cruz e a espada, Inácio - o homem pacato, o chefe amistoso e cordial – precisa agir para defender seu restaurante e seus clientes dos assaltantes. Ou isso é o que o espectador PENSA que seja a história...

    O longa se passa inteiramente num único local, reforçando ainda mais a veemência teatral de seu texto e inúmeros subtextos, tanto nos diálogos - cheios de palavrões - quanto nas soluções apresentadas.

    Ainda sobre o roteiro - escrito pela própria diretora, em parceria com Luana Demange - , este toma algumas ~"liberdades artísticas" (por falta de palavra melhor) que podem incomodar os mais puristas. Porém, em sua defesa, vê-se um ferrenho esmero em não se desviar do gênero pré-estabelecido e também não há facilitações, gerando muita energia e tensão. É um desses filmes em que o espectador sai do cinema incomodado mas refletindo sobre o que terminou de assistir, tentando encontrar as peças que faltam. E acredite: muitas questões NÃO SÃO respondidas - o terço final da trama é perfeitamente questionável, principalmente por deixar os questionamentos nas mãos do espectador, que tirará suas próprias conclusões.


    (Interessante como o roteiro determina como homens e mulheres lidam com a violência. Na trama, machos usam armas de fogo, agindo por puro impulso, enquanto que as fêmeas se utilizam de lâminas cortantes com intuitos pessoais de vingança...)

    A direção de fotografia cria alguns ângulos dignos das melhores histórias de terror e suspense publicados na revista "Krypta", gerando desconforto, tensão e julgamento em diversos momentos - porque mesmo que a divulgação insista em dizer que "O Animal Cordial" é o primeiro filme "slasher" dirigido por uma mulher no Brasil (e este feito histórico não pode ser pormenorizado), chamá-lo de suspense - ou, vá lá, thriller - beneficiaria, ainda mais, sua promoção no Brasil.

    Mesmo com um elenco numeroso e surpreendentemente ativo - mais de dez personagens interagindo -, os destaques recaem sobre os ombros da tríade Murilo Benício, Luciana Paes e Irandhir Santos.

    Benício, talvez propositalmente, tem um visual limpo e macerado de John Travolta em Pulp Fiction. Mas as comparações de sua interpretação param por aí pois sua performance ora monótona ora explosiva, digna de filmes noir, deixam suas intenções claras desde o início da projeção. A cena onde ensaia uma cortês resposta de uma futura entrevista mostra que existe um grave problema em rota de colisão.


    Irandhir Santos (acima) não deixa a peteca cair, roubando todas as cenas em que aparece, alternando entre pavor, ódio, piedade e valentia, costurando tudo com tiradas ácidas porém bem humoradas. Santos traz veracidade a seu papel até mesmo quando "declama" uma receita culinária passo a passo.

    Entretanto, a composição de Luciana Paes (abaixo) é a que chama mais a atenção, cuja trilha segue num crescendo, indo de submissão à paixão até o controle da cena e seu protagonismo magnético , chegando à brutalidade animalesca, despindo-se - literalmente - de quaisquer vaidades, incluindo uma curiosa (e bizarra!) cena de sexo, criando uma personagem completa do início ao fim, num arco sólido.


    Mesmo que seja um filme bem interessante, não podemos deixar de falar de alguns "problemas" da produção como por exemplo o ritmo claudicante onde temos tensão e muitos diálogos. Um filme desse porte se beneficiaria positivamente de alguns instantes de silêncio para criar um efeito de reflexão de cada personagem. Algumas cenas são mais longas que o necessário - não, não haveria necessidade de algo entrecortado ou ~"videoclipado" como o que era feito no cinema dos anos 1990 mas faltou vigor em alguns momentos. Outro traço negativo do filme é a trilha sonora comandada por Barbara Alvarez, que criou uma sonoridade que soou over, como se tivesse sido realizada para um filme dos anos 1980 - nada que impeça o entretenimento mas...

    Visceral, tenso e com atuações inspiradas, "O Animal Cordial" não é o filme que o Brasil esperava ver, mas é o que mais precisamos neste momento errado que vivemos.




    Kal J. Moon aprecia bastante o sabor do suco que Murilo Benício bebeu (só assistindo pra saber)...
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