Escrito e dirigido por Todd Phillips e estrelado por Joaquin Phoenix, "Coringa" traz, pela primeira vez no cinema, a jornada de um vilão como jamais se pensou em encenar.



Um estudo em vermelho
Assistir "Coringa" é uma tarefa dolorosa. Embora tenha sido divulgado alguns trailers, ainda não se sabe o que esperar até que finalmente se veja. É uma obra-prima, como dizem por aí? Joaquin Phoenix merece ser indicado ao Oscar pelo papel que parece ser o ápice de sua carreira? O filme deve ser aplaudido de pé e amealhar muitos prêmios ou ser evitado a todo custo?

Independente de qual for a resposta para cada pergunta acima, é importante dizer que quem responderá será a audiência - e não toda ela mas cada indivíduo, separadamente. Isso porque é um dos filmes mais complicados de se analisar dos últimos dez anos - principalmente se levarmos em conta que é fortemente inspirado em diversas histórias em quadrinhos, o que, por si só, já basta para atrair o grande público - sabe, aquele que nunca lerá uma história em quadrinhos para adultos? Pois é...

Na trama, Arthur Fleck (Phoenix) é um homem lutando para se integrar à sociedade despedaçada de Gotham. Trabalhando como palhaço durante o dia, ele tenta a sorte como comediante stand-up à noite... mas descobre que a piada é sempre ele mesmo. Preso em uma existência cíclica, oscilando entre a realidade e a loucura, Arthur toma uma decisão equivocada que causa uma reação em cadeia, com consequências cada vez mais graves e letais.

Muitos críticos e avaliadores do cinema como um todo classificaram que as referências de "Coringa" seria "Táxi Driver" e "O Rei da Comédia", ambos dirigidos por Martin Scorsese. Porém, vê-se muito mais como a influência de "Watchmen" (tanto os quadrinhos quanto o filme do visionário Zack Snyder, baseado na obra de Alan Moore e Dave Gibbons) em cena do que poderia se imaginar.



Já a performance de Phoenix pode ser comparada a uma bizarra mistura de Fred Astaire, Michael Jackson (é sério) e até mesmo... Jim Carrey em seus filmes mais adultos e provocativos. Pra falar a verdade, tem até duas singelas "homenagens" ao saudoso Heath Ledger - que interpretou o personagem em seu fatídico último papel, pelo qual ganhou o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante.

O Coringa de Phoenix começa como uma espécie de ~"man-child", um homem adulto meio infantilizado - como muitos que se vê por aí - mas no fundo é um ser abjeto na pior acepção da palavra, mesmo que tente fugir de sua sina em diversas cenas. Espertamente, o roteiro até o questiona por sua auto-piedade. A resposta não deve agradar a audiência que prefere o escapismo. O roteiro até tem respiros de bom humor, colocados na falta de traquejo social do protagonista do que em piadas rasteiras (elas estão lá mas não dá forma que se espera).

O restante do elenco é apenas operante, sem grandes arroubos. Mesmo Robert De Niro, que é mais do que uma participação especial - é um personagem crucial que movimenta a trama -, não mostra nada além do que se espera. Pode-se dizer o mesmo de Zazie Beetz, que parece ser uma espécie de bússola moral para o protagonista mas revela-se algo que nos mostra a verdadeira essência do personagem.

A violência do filme é explícita, saindo do personagem como um furioso rio vindo de um esgoto fétido. Sem exageros, dialoga muito bem com os dias de hoje e tudo de ruim que acontece ao nosso redor. Pode até ser a Gotham City de 1981 mas poderia ser qualquer lugar do mundo atualmente. Inclusive, a última cena pode parecer banal mas se prestar atenção direitinho o espectador verá que o protagonista não tem mesmo limites.

A direção de fotografia - capitaneada por Lawrence Sher, do recente "Godzilla II"  - é esmerada, com ângulos bem inusitados e bastante tomadas "over the shoulder" (quando se segue o personagem pelas costas, por sobre os ombros, geralmente quando está em mando de situação) mas, assim como a trama, não cativa. Temos grandiosas imagens que parecem "floreadas demais" em contraste àquele universo cru e pseudo-realista.

A trilha sonora composta por Hildur Guðnadóttir - de "Sicário - Dia do Soldado" - é incômoda o suficiente e marcante, casando perfeitamente naquele caos ordenado.


Mas o roteiro de Scott Silver e do próprio Phillips - que com certeza dividirá opiniões - tem alguns problemas. Os principais são:

1) A trama é muito simplista, além de óbvia. Sabe-se como o filme vai terminar mesmo que não se saiba que caminho se seguirá para chegar até seu desenlace. Sim, tem algumas viradas bem interessantes (umas no campo da especulação - e que viram a mitologia do Batman de ponta cabeça, sem trocadilhos - e outras mais pontuais mais igualmente chocantes) mas a viagem para se chegar lá é um tanto preguiçosa em alguns momentos e incômoda em muitos outros.

2) Ainda falando sobre roteiro, mesmo dando-se a leve impressão de que se trata de uma história que se passa no mundo real (ou o que quer que pareça com o que um dia foi real no início da década de 1980), um tom de fábula ou puramente farsesco se instala em muitos momentos, mimetizando o que o personagem disse em outro bat-filme ("uma hora lembro de um jeito, outra hora lembro de outro"). E ainda tem as conveniências - ou mini-coincidências - que parecem mais forçações de barra para instantaneamente ligar o passado do Coringa ao da família Wayne e, claro, à futura criação do Batman.

3) A aparente escolha em recontar trechos dos quadrinhos "A Piada Mortal" e "O Cavaleiro das Trevas" são muito acertadas mas inspirar parte da trama em "A Corte das Corujas" mostrou-se algo delicado, arriscado e até desastroso em muitos momentos.

4) O filme parece não saber quando terminar. Tem pelo menos três cenas onde poderia tranquilamente ir para a famosa tela preta e inciar os créditos mas Phillips foi auto-indulgente o suficiente para prologar a jornada final até onde deu. Não foram ~"finais" ruins mas algumas cenas bem dispensáveis.

"Coringa" é um filme difícil, tenso, forte e... perigoso. Sim, pode dar umas ideias ruins a pessoas com problemas de auto-estima e posse de arma (levando a se pensar como alguém consegue entrar armado livremente em locais onde claramente não se pode portar armas). Mas o mesmo pode acontecer com quem lê livros religiosos e diz que algum ser superior o mandou matar prostitutas... Porém, leva a audiência a assistir a tudo passivamente e a discutir por que existem sociopatas no mundo atual, que meritocracia é o jeito de pessoas com mais dinheiro dizer que pobre não melhora de vida porque não quer e que a vida só faz algum sentido se vivida sem muita exasperação porque isso não é uma atitude de pessoas corretas. O filme, nesse sentido, leva a uma profunda reflexão de que o personagem Coringa, afinal, não deve, em momento algum, ser celebrado (vejam vocês).

No fim das contas, o palhaço só quer ser a atração principal. Nem que pra isso tenha que tocar fogo no circo inteiro.



Kal J. Moon já apertou a mão do diretor Todd Phillips e tirou uma foto dele. Phillips ainda gostou quando ouviu o nome "Poltrona POP". Mas não acredite ainda pois o jeito que Kal lembra de umas coisas não correspondem exatamente à realidade...