Bianca Comparato,

CRÍTICA [CINEMA] | Morto Não Fala, por Kal J. Moon

20:21 Kal J. Moon 0 Comments

Dirigido por Dennison Ramalho, estrelado por Daniel de Oliveira, Fabíula Nascimento e Bianca Comparato, "Morto Não Fala" adapta as tradições do terror clássico para o cinema brasileiro.

Causa e efeito
Há quem diga que histórias de cunho sobrenatural estejam intimamente ligadas ao público brasileiro. Talvez pelo sincretismo religioso ou por conta deste país ser habitado por um bando de supersticiosos (gente que diz não crer em nada mas não deixa de consultar diariamente o horóscopo), esse tipo de prosa tem seu atrativo por conta da curiosidade inerente ao ser humano. Afinal, o que tem ~"do outro lado"? Existe vida após a vida? É melhor ou pior. Bem, o protagonista de "Morto Não Fala" acha ambos os lados bem ruins e pode provar...

Na trama, Stênio (Daniel de Oliveira), plantonista de um necrotério,  possui um dom paranormal de se comunicar com os mortos. Trabalhando a noite, ele já está acostumado a ouvir relatos do além. Porém, quando essas conversas revelam segredos sobre sua própria vida, o homem ativa uma maldição perigosa para si e todos a sua volta..

É interessante notar que TODOS os roteiristas brasileiros que se aventuram pelo cinema de terror parecem tirar suas inspirações de antigas revistas de histórias em quadrinhos como "Spektro", "Kripta" ou "Contos da Cripta". Cada novo filme que surge nesse gênero tenta explicitar a influência quadrinística. E "Morto Não Fala" não poderia ser diferente. A estrutura, a coloração da fotografia e até mesmo cada ângulo de cena traz à memória estes gibis clássicos - e não, não tem nada de errado com isso...

Temos o protagonista com um poder especial mas que se mete numa enrascada aparentemente cada vez mais complicada, que acaba envolvendo inocentes a seu redor, gente que não deveria sofrer por conta de sua mesquinharia. E o roteiro ainda brinca com uma das maiores verdades, a de que alguém que se sente traído em seu relacionamento amoroso tem um assassinato pronto dentro de si (se vai cometer, já são outros quinhentos).

Porém, embora com algumas ideias bem interessantes, o filme deixa a desejar em alguns aspectos. O principal é o roteiro que procurar colocar diversos elementos que poderiam facilmente ficar de fora no corte final. Muitas situações davam para ser resolvidas de forma mais enxuta, excluindo talvez uma boa meia hora de filme.

Tem também o elenco, que até se esforça mas com um material que não lhes favorece positivamente, acabam não rendendo o que deveriam. É o caso de Daniel de Oliveira, que carrega o filme com a mesma expressão do início ao fim. Nem mesmo nos momentos mais agonizantes vê-se o personagem "surtar", como se conseguisse lidar com o cenário funesto que se instala em sua vida. Além disso, não há a menor explicação de como conseguiu seus "poderes" - só uma fala onde diz que "sempre conseguiu falar com mortos" e nada mais. Se o filme iniciasse com a morte de um parente intimo quando ele era criança e ouvir o cadáver o deixasse apavorado, possivelmente teríamos mais empatia com sua personagem.

Fabíula Nascimento chega quase à caricatura, algo digno de um filme slasher. E a culpa não é dela, que é atriz pra mais de metro, pois o roteiro direciona tudo para algo na linha "A Hora do Pesadelo" e "Amityville".

O mesmo pode-se dizer de Bianca Comparato, cuja personagem até tem importância na trama mas o roteiro de Cláudia Jouvin e o próprio Ramalho (baseado no livro de Marco de Castro) não categoriza a urgência disso, correndo solto com um monte de cenas dispensáveis. As crianças são meramente operantes e nem estão ruins em cena, mas não há destaques.

Entretanto, vale destacar algumas espertezas e criatividade do roteiro - e mostrando com muita competência o dia a dia de quem trabalha num necrotério sem muitos recursos -, utilizando-se de artifícios puramente brasileiros para construir algumas situações assustadoras. A que tem inspiração em "Poltergeist" é, talvez, a melhor delas.

"Morto Não Fala" não é um filme ruim mas estava quase ultrapassando o limite entre regular e bom. Faltou pouco. Acabou sendo ~"bonzinho" com ênfase no "inho" - o famoso "dá pra ver", com baixa expectativa (sempre). Pena.


Kal J. Moon não estranhou alguém que conversa com cadáveres. Tem gente que conversa com plantas...

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