Sangue, Porrada e Supers: A Receita do Sucesso

Acho que ninguém (nem eu) tinha parado pra pensar o que atraiu toda uma geração (a minha) a curtir, aos 20 e poucos anos, o desenho japonês (sim, naquela época nós não chamávamos de anime ou animê) Os Cavaleiros do Zodíaco

O fato é que, inexplicavelmente, todo cara que eu conhecia, e algumas gurias também, ficaram apaixonados pela saga de Masami Kurumada e não perdia nenhum episódio das aventuras de Seiya e os outros. Eu naturalmente já iria me comportar desta maneira, pois já amava desenhos japoneses e curtia todo tipo de entretenimento baseado em super-heróis, ou seja, eu já era um nerd (por mais que relutasse em assumir isso), mas alguns dos meus amigos jamais tinham expressado qualquer interesse em nada disso desde a infância.

E eis que a resposta para esta pergunta jamais feita acaba de cair em meu colo enquanto assistia Invencível, na Prime Video: O interesse vinha de muito sangue, porrada, super-heróis e, concluindo a lide acima, uma animação bem tosca.

Sim! Porque se há alguma relação de causalidade entre o interesse dos adultos naquele anime dos anos 90 e o atual frenesi em torno da nova série da Amazon Prime, só pode ser esta.


Invencível
, série animada baseada nos quadrinhos de Robert Kirkman, Cory Walker e Ryan Ottley, que teve 144 episódios e foi concluída em 2018, é violenta, assim como as HQs. 

A trama é repleta de segredos de família, problemas de relacionamento e muitas reviravoltas. No final de todos os episódios temos ganchos que nos mantém interessados no que o roteirista reservou na sequência da história. Todos os personagens que são apresentados tem função nos acontecimentos da série, sendo Invencível uma aula de como se escreve para a TV.

Os dilemas e angústias das personagens transbordam pela tela. O herói da trama, o jovem Mark Grayson, ainda indeciso sobre seu futuro e tendo de lidar com as incertezas do presente, tem que se mostrar à altura de um desafio tão grande quanto seus recentemente despertados poderes. Algo que irá ter um impacto gigantesco para sua família e, por tabela, para o planeta Terra inteiro. 

Sua mãe, Debbie, uma mulher forte, inteligente e independente, acaba por se colocar em uma situação delicada, que vai contra seus princípios, colocando à prova sua própria personalidade. Sem dúvida a personagem mais legal da saga.

Até mesmo seu pai, e aqui preciso resguardá-lo de spoilers, apesar de toda altivez, é frágil, demonstrando que até mesmo por trás de uma capa pode haver uma enorme vulnerabilidade.


Ao capturar todas as nuances da intrincada rede de sentimentos que é apresentada na tela, só posso dizer que a equipe de roteiro, composta por Simon Racioppa, Chris Black, Curtis Gwinn, Christine Lavaf e Ryan Ridley, está de parabéns. E vale ressaltar que a história da TV difere dos quadrinhos, pois algumas passagens, consideradas pesadas para serem exibidas na televisão, por serem muito polêmicas, foram suavizadas.

A edição da série, de Scott Winlaw e Matthew Sipple, é muito interessante em termos de animação. A dinâmica do trabalho realizado faz com que a série seja gostosa de assistir. O design de produção também é muito bom, Edison Yan e Youngsoo Kim foram muito arrojados e certamente pesquisaram bastante para apresentar o universo criado nos quadrinhos no TV. O visual nos remete à animações como Liga da Justiça Sem Limites e Batman: A Série Animada, criando um clima nostálgico em quem amava estas obras-primas da DC Comics.

A dublagem brasileira é, como de costume, excelente. Não assisti com o som original.

Porém, nem tudo é perfeito. Como já tinha citado acima, eu achei a animação tosca para os padrões atuais e cheguei a citá-la como ingrediente que compõe o charme da série, mas isso não foi proposital. E nem dá pra dizer que foi por falta de dinheiro, pois a equipe de animação é imensa. Parece que foi uma decisão estética, mas que não me agradou. Tomara que a segunda e terceira temporada, que foram confirmadas um dia antes da estreia do último episódio da primeira, tenham um trabalho mais cuidadoso.


Mesmo assim, Invencível ainda é uma série animada incrível, com muito potencial e pode vir a ser o ponta-pé para que outros personagem da Image Comics, como Spawn, Savage Dragon e Gen 13, ganhem novas animações. 

Pode até ser que já esteja nos planos da Amazon ter seu próprio multiverso de super-heróis. Invencível bem que pode ser o "Homem de Ferro" que irá impulsioná-lo. E a possibilidade disso dar certo é enorme, pois o público eles já ganharam, visto o reboliço em torno da série nas redes sociais.

Marlo George assistiu, escreveu e já escondeu bebida em casa. Não de um robô, mas de sua mãe