Sam Raimi retorna ao subgênero dos super-heróis 20 anos depois de Homem-Aranha e realiza um dos maiores filmes do Universo Cinemático Marvel com Doutor Estranho no Multiverso da Loucura


Após o fiasco de Eternos, da diretora Chloé Zhao, a Marvel Studios retorna aos cinemas com Doutor Estranho no Multiverso da Loucura, filme dirigido por Sam Raimi que traz de volta o herói título em uma aventura no multiverso apresentado em Homem-Aranha: Sem Volta Pra Casa, da Sony.

E ninguém melhor que Sam Raimi para comandar a loucura. 


Um Diretor Certo para o Filme Certo

Só para relembrar, Raimi é um diretor que estreou no cinema, após ter realizado diversos curtas, em 1981 com o clássico Uma Noite Alucinante: A Morte do Demônio (Evil Dead), que teve duas sequências, série derivada, Ash Vs. Evil, e até jogos de videogame. Em 1991, ele escreveu e dirigiu Darkman, filme que faz homenagem aos filmes clássicos de terror da Universal (Drácula, Múmia, Frankenstein, Fantasma, Lobisomem, Homem Invisível e Criatura do Lago Negro) e que tem como personagem principal um super-herói, interpretado por Liam Neeson. O filme rendeu quadrinhos da Marvel ComicsDynamite Entertainment, séries de TV pela Universal e livros pela editora Jove Books. Cerca de dez anos depois, em 2002, ele iniciou a trilogia do Homem-Aranha, com Tobey Maguire, tão reverenciada pelos fãs. Além disso, ele foi produtor de duas séries geeks inesquecíveis, Hércules e, seu spinoff, Xena: A Princesa Guerreira, estreladas por Kevin Sorbo e Lucy Lawless, respectivamente.

Isso tudo só para mencionar o trabalho mais "nerd" do diretor. Há alguém melhor para lidar com os temas de Doutor Estranho no Multiverso da Loucura, como super-heróis, terror e fantasia?

Minha resposta é um robusto e redondo: NÃO!


Doutor Estranho no Multiverso da Loucura
 tem todos os ingredientes para a receita de um clássico raimiano e o diretor usou todos com a perícia de um chef. Tudo no filme funciona. A assinatura do diretor e sua estética consagrada conferiram ao longa marvete uma identidade própria, apesar de estar lidando com personagens já apresentados ao público, um universo, ou multiverso, consolidado por dezenas de filmes e séries de TV e uma linha do tempo contínua e que precisa ser preservada. Raimi conseguiu imprimir sua digital em todos os aspectos técnicos e artísticos. Sobrou espaço até para auto-homenagens que, poderiam ser uma péssima ideia, por soar arrogante, mas que cabe muito bem neste produto específico.

Temos cenas que remetem à Homem-Aranha 2, durante a batalha que inicia o filme, à Evil Dead 2, quando um ator recorrente em filmes do diretor faz uma aparição mais que especial e também à Darkman, quando temos momentos mais sinistros, especialmente os que envolvem a Feiticeira Escarlate. Até mesmo as séries Hércules e Xena foram homenageadas, quando temos as batalhas em Kamar-Taj e em um templo novo apresentado no filme. Um deleite para aqueles que, como eu, admiram a genialidade e mão firme de Sam Raimi, tanto como diretor, quanto como produtor.

Para além das homenagens, temos o estilo de Raimi. As transições de cena são um espetáculo à parte. Temos o clássico close em um personagem figurante, que não participa da ação, assistindo aos acontecimentos extraordinários promovidos pelos heróis e vilões, e que remetem ao quadrinho Marvels, de Kurt Busiek e Alex Ross, antes da mudança de cenas. Algo que vimos nos filmes do Homem-Aranha, por exemplo. Em vários momentos tivemos transições com câmeras em movimento. E até mesmo a clássica quebra da quarta parede (quando o personagem fita, propositadamente, o público) acontece durante o filme, uma das assinaturas de Raimi.

Os efeitos práticos e visuais são mesclados de forma muito eficiente. Quase não dá para diferir entre uma e outra, especialmente quando o efeito é usado em personagens. As criaturas do filme também são semelhantes a que nos acostumamos a ver nas séries e filmes do diretor, com aquela aparência grotesca e irreal na medida certa. Nos últimos 20 minutos de filme eu simplesmente surtei ao ver um grupo de seres fantásticos magnificamente apresentados. Coisa assustadora e linda de se ver.


A edição e montagem também tem a dinâmica dos filmes anteriores de Raimi. A edição é de Bob Murawski, velho parceiro de Raimi, e Tia Nolan, de Sexy por Acidente.

A direção de fotografia é de John Mathieson, de X-Men: Primeira Classe, Logan e do vindouro Batgirl. O trabalho é soberbo e garante um filme belo, bem enquadrado e dinâmico.

Além disso, temos Danny Elfman, o responsável pelas trilhas clássicas de Os Simpsons, Batman e Darkman 2: O Retorno de Durant. As composições de Doutor Estranho no Multiverso da Loucura são incríveis, sendo as mais marcantes de todo o Universo Cinemático Marvel (MCU), desde Os Vingadores, de 2012, cujo tema foi composto por Alan Silvestri.

Tudo isso torna Doutor Estranho no Multiverso da Loucura um filme diferenciado dentro do MCU. Sam Raimi ter aceito retornar ao mundo dos supers foi um presente que a franquia Disney deu aos fãs.


Multiverso, Ocultismo e Muita Loucura

O roteiro de Doutor Estranho no Multiverso da Loucura é de Michael Waldron, que escreveu Rick & Morty, Loki, The Black Hole e Heels. Sim, estes são todos os créditos de Waldron como roteirista, além do vindouro projeto de Kevin Feige para Star Wars queele está trabalhando no momento. Nem precisa de mais, não acha?

Pois é. 

Assim como Raimi é essencial para o sucesso que é a realização do filme, Waldron também é importantíssimo. Quem, além do roteirista de Rick & Morty e Loki, duas séries relacionadas ao tema multiverso, poderia escrever Doutor Estranho no Multiverso da Loucura?


Waldron
foi um dos responsáveis pela criação do conceito televisivo de multiverso na Marvel Studios. Seu roteiro para o filme de Raimi é bom, acima da média dos filmes da franquia que são, não raro, regulares ou ruins. Doutor Estranho no Multiverso da Loucura não conta uma história extraordinária, mas a trama é bem crível apesar de toda a fantasia que é o conceito de multiverso. Infelizmente, esta ferramenta de roteiro do MCU, o multiverso, parece servir apenas para consertar furos de roteiro, estabelecer retcons e fazer testes de personagens perante o público. Não espere nada de muito ousado.

Porém, o filme traz muitos momentos incômodos para audiências mais sensíveis, por conta de flertes com temas religiosos e ocultistas, todos muito sutis, mas que serão um deleite para o público menos afetado. Isso pode acabar desagradando quem não entendeu que Stephen Strange é um mago e Wanda Maximoff uma bruxa. Para uma mente, supostamente subversiva, como a de Waldron, a origem mágica e oculta das personagens é um prato cheio para encher o roteiro de referências religiosas, e ele fez exatamente isso. Violento, o roteiro traz muitas cenas, bela e grotescamente visualizadas por Raimi, de virar o estomago. Temo que seja o filme mais sangrento do MCU.

Para nossa alegria, o roteiro aprofundou muito as personagens. Especialmente Wanda Maximoff. Ela é a grande personagem deste filme.


A Heroína na Minha Lancheira

Wanda não quer dominar o mundo, ela quer lamber a cria, quer seus filhos de volta. Isso nós já vimos em WandaVision, série original Disney+ do MCU que estreou no início de2021. O roteiro, inteligentemente, colocou todas as emoções e sentimentos, relacionados à relação entre mãe e filhos, como amor, medo e astúcia, nas entrelinhas, nas atuações, e não nas legendas ou na dublagem do filme. Esta relação é um dos temas principais do roteiro, que foi muito generoso com ela, agraciando-a com as melhores falas e frases de efeito do filme. Wanda é eloquente, coerente para com as suas ambições e destemida. Ela enfrenta tudo, todos e o multiverso para conseguir estar com seus "filhos", como vemos no final de WandaVision. É impossível não ficar tocado com sua dor. A realidade de sua versão do Universo 616 (universo regular da Marvel) é cruel.


No início do filme, Stephen Strange diz que uma ação altruísta de Wanda pode colocá-la de volta nas estampas de lancheiras escolares, sugerindo que um ato heroico a tornaria uma heroína novamente (por causa dos acontecimentos de WandaVision, que a tornaram uma vilã). Após toda sua jornada no MCU, posso garantir que Wanda Maximoff, a Feiticeira Escarlate é, certamente, a "heroína da minha lancheira". Que personagem maravilhosa.

Elizabeth Olsen defende muito bem a personagem. Em sua breve aparição na cena pós-crédito de Capitão América 2: O Soldado InvernalWanda é apresentada como uma garota de aparência perturbadora, ao lado do irmão, Pietro (Aaron Taylor-Johnson). Mas nos filmes posteriores, como Capitão América: Guerra Civil, por exemplo, a aparência sombria da personagem desapareceu, só retornando em WandaVision. Agora, nas mãos de Raimi, Olsen está mais apavorante que nunca. A personagem volta a ter aquele ar de protagonista de filmes de terror que vimos em sua primeira aparição no MCU. Ela é, sem dúvidas, a melhor atriz do elenco, que é maravilhoso.


O Amor Está no Ar, Digo, Multiverso

Um dos episódios mais legais de What If?, que como WandaVision, é uma série original da Disney+, é o que traz como personagem principal o Doutor Estranho. Nele, temos um pouco mais da relação de Stephen Strange com a sua amada Christine. Neste novo filme, temos novamente a exploração deste amor como uma das motivações centrais do personagem. Stephen a ama e, por isso, se sacrifica ao abdicar este amor para se dedicar à manutenção da paz ao lado dos Vingadores. Após eventos traumáticos, o casal protagoniza, em Doutor Estranho no Multiverso da Loucura, uma das cenas mais ternas e belas do MCU. Apenas um olhar e uma frase são o suficiente para fazer qualquer expectador lacrimejar.


Benedict Cumberbatch e Rachel McAdams
estão de volta como Strange e Christine, respectivamente. A química entre eles é incrível. As atuações são memoráveis.

Outros rostos conhecidos retornam, como Benedict Wong, como Wong, e Chiwetel Ejiofor, como Mordo. Benedict Wong tem mais tempo de tela, e quanto mais tempo de tela para Wong melhor. O personagem é cativante e foi, sem dúvidas, uma das melhores aquisições do MCU. Já Ejiofor aparece menos, tem participação especial no filme, mas brilha como sempre. Ele é um dos meus atores favoritos da nova geração.

Temos outras aparições de personagens do MCU, e do Universo Marvel em geral, mas não darei spoilers. Só adianto que todas foram incríveis.


Mas eu não posso terminar sem mencionar Xochitl Gomez, essa atriz de nome difícil de pronunciar e que conquistou o meu coração. Ela interpreta America Chavez, personagem que eu só tinha conhecido através de animações recentes da Marvel, e não dos quadrinhos, mas que é essencial para este novo momento da franquia. Os poderes da personagem eu deixarei você, que não a conhece, saber quando assistir o longa. Mas o poder do carisma desta menina norte americana, ainda adolescente, é impressionante.

Doutor Estranho no Multiverso da Loucura é, afinal, um filme tocante, intrigante, fascinante e imperdível. Quem ama cinema irá se divertir muito com a genialidade e visão de Raimi, com o roteiro esperto de Waldron, com a música de Elfman e com a dedicação do elenco. Um primor.



Marlo George assistiu, escreveu e vive, com seu rabo-de-cavalo, no multiverso da loucura, como todo brasileiro.