Um novo filme live-action estrelado pelo "Homem Mais Forte do Universo" estava no chamado "inferno do desenvolvimento" - projetos cinematográficos que encontram dificuldade de sair do papel por diversos motivos - desde a estreia do primeiro filme estrelado por Dolph Lundgren em 1987.
Dentre muitos rumores, disseram que "Cyborg - O Dragão do Futuro" (estrelado por Jean Claude Van Damme em 1989) seria a tal continuação (na verdade, somente reutilizaram alguns cenários do filme original a fim de economizar) ou de que os cineastas Jon M. Chu (que já havia dirigido "G.I. Joe - Retaliação") e McG estariam interessados no projeto (com roteiro de Richard Wenk, que, na época, havia escrito "Os Mercenários 2"), além ainda das ventilações infundadas envolvendo os roteiristas Terry Rossio (de "Piratas do Caribe - A Maldição do Pérola Negra") e Christopher Yost (de "Thor - Ragnarok") - ambos, supostamente, estariam atrelados à produção...
Mas o projeto, de fato, só começou a ganhar forma quando a dupla de cineastas Adam Nee e Aaron Nee (do esquecível filme "Cidade Perdida") foi contratada pela Netflix para desenvolver a produção, que seria estrelada por Kyle Allen (que, na época, havia participado como Romeu do pequeno filme "Rosalina"). Tudo ia bem quando a "locadora vermelha" puxou a tomada da empreitada, mesmo tendo, supostamente, já teria gasto aproximadamente 30 milhões de dólares na pré-produção (e há quem jure que tenha sido bem mais do que essa vultosa quantia).
E eis que em 2026, o novo filme "Mestres do Universo" - mesmo título do filme original de 1987 - finalmente chega aos cinemas, com direito a marketing agressivo no Brasil, que contou até com trio elétrico e presença de astros e diretor da produção - aparentemente funcionou pois nosso país tornou-se o segundo em matéria de bilheteria. "Mas, e aí? O filme é bom ou não?!", pode o incauto poltronauta indagar. A resposta, como na maioria das adaptações, é... "depende".
Na trama, após 15 anos de separação, a lendária Espada do Poder guia o Príncipe Adam de volta a Etérnia, onde ele descobre seu lar destruído sob o domínio diabólico do usurpador vilão Esqueleto. Para salvar sua família e o que restou de seu mundo, Adam precisa unir forças com seus aliados mais próximos - Teela e Duncan / Mentor, além de outros destemidos guerreiros - e abraçar seu verdadeiro destino como o superpoderoso He-Man.
Ora temos piadas de cunho sexual e insinuações homoeróticas - numa produção que, a princípio, deveria ser voltada para toda a família - e ora com mensagens positivistas acerca de resolver os problemas com diálogo e bom senso em vez da violência. Além dessa incômoda dicotomia, o roteiro deixa diversas brechas para serem preenchidas pela audiência e, desnecessariamente, corre para resolver algumas situações enquanto não desenvolve o que deveria ser considerado mais importante.
Por exemplo, quando o pequeno Adam cai no Planeta Terra - sendo enviado pela Rainha Marlena e pela Feiticeira para sobreviver ao ataque de Esqueleto -, não se sabe o que aconteceu com ele após isso, se foi adotado por alguém ou parou num orfanato até a maioridade... A audiência só sabe o que o personagem conta e reconta (diversas vezes), mas não o que realmente interessa - e não, não precisaria menos que um minuto para mostrar o que aconteceu, praticando o "show don't tell" (ou "mostre, não conte", algo que este roteiro se esforça bastante em não fazer).
A direção de Travis Knight (que já retorna para animação - onde realmente se destaca - ainda em 2026 com "O Bosque Selvagem") busca apenas o operacional mas falha nos claros problemas que o roteiro oferece, principalmente quando se trata dos momentos de humor constrangedor - que raramente funcionam. Por conta disso, ainda que o elenco seja esforçado - como Sir Idris Elba ou Jared Leto (talvez os melhores em cena) -, muito acaba se perdendo por conta do pobre e mal equilibrado texto que lhe foi entregue (e a direção ficou "vendida", tendo que "se virar" com o que tem para trabalhar).
Como o roteiro insiste nessa proposta de ser um "He-Man 1.0" (uma versão beta, ainda em desenvolvimento e cheia de problemas primários, que deveriam servir de alerta para não lançar precocemente), a produção acaba tendo que arcar com decisões equivocadas de figurinos - que, na maioria das vezes, lembram vagamente os personagens das animações, mas, em outras, mais parecem personagens novos -, maquiagem e penteado (somente para assumirem visuais clássicos ao final da projeção, como se dissesse "você viu como esse He-Man surgiu e agora é do jeito que você se lembra da infância".
O real problema dessa produção é ser tão indecisa a ponto de não poder entregar um agradável espetáculo audiovisual por conta de visões limítrofes de que a mitologia desses cultuados personagens realmente precisasse ser ~"atualizada para novos públicos" - sim, Pedro Bó, existem histórias que necessitam de alguma atualização mas não é o caso de aventuras medievais fantásticas criadas apenas com o firme intuito de vender bonecos articulados e acessórios. Não se pensou nisso quando adaptaram a trilogia "O Senhor dos Anéis" para o cinema, por exemplo - adaptou-se o que seria "suportável" tanto para fãs quanto a neófitos e deixou-se de fora aquilo que causaria estranheza (como Tom Bombadil).
ISSO é um processo de escrita chamado de "adaptação" - se chegar a um nível de fidelidade ímpar, pode ser chamado de "transcrição" ou "transliteração", quando muito pouco é limado da obra original. Mas o que geralmente tem sido feito em Hollywood com transposições de obras consagradas para o meio audiovisual é a total "transgressão", quando pega-se (poucos) elementos básicos e resolve-se inventar novas motivações, inserir discursos progressistas ou até mesmo insinuar inclinações políticas onde nunca existiu tal postura.
Curiosamente, "Mestres do Universo" tem sido atacado por conta da quantidade das chamadas ~"pautas de diversidade" que aparecem no roteiro - sim, verdade, tem bastante. Mas em relação as personagens femininas da produção, por exemplo, são tão "maltratadas" narrativamente falando, que não dá pra entender o raciocínio que levou à composição das mesmas (exceto por terem sido escritas por homens que não sabem como criar uma personagem feminina minimamente crível).
Maligna (vivida por Alison Brie, do ótimo "Bela Vingança" e do recente "Juntos"), tinha grande potencial para ser uma grata surpresa (por conta da forma como Esqueleto a tratava, poderia ter preparado um estratagema para manipular a todos e se tornar a detentora dos poderes do Castelo de Grayskull - ISSO, SIM, SERIA EMPODERAMENTO FEMININO!), mas, com pouquíssimo tempo de tela e completo desperdício de talento da atriz, acabou sendo apenas mais uma lacaia do vilão, que não entendia bem suas piadas e seus mandos ou desmandos...
Ainda nos quesitos técnicos, a trilha sonora de Daniel Pemberton (do recente "Devoradores de Estrelas") - que conta com auxílio luxuoso do guitarrista Bryan May (da seminal banda Queen) - é bem irregular e nada marcante. Existem momentos decentes mas nada empolgantes - e quando apenas uma música de uma grande banda de rock traz alguma empolgação a um filme, algo está muito errado.
Mesmo com todos esses problemas, a tal pressa se apresenta inclusive nas cenas pós créditos, onde aparecem personagens que devem ser apresentados numa vindoura sequência - se os executivos assim desejarem -, já estabelecendo um "universo compartilhado", pois tudo "já existe", só não apareceu ainda...
"Mestres do Universo" é um desperdício de talento, tempo e dinheiro, que pode trazer alguma alegria a corações nostálgicos, mas, definitivamente, não conquistará novos públicos - a bilheteria mundial da produção está aí para não deixar esse escriba faltar com a verdade. Assista com baixa expectativa - e em dia de promoção na sala de cinema, que é o certo - e tire suas próprias conclusões.
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