Lembra quando você assistiu "Hellboy" (2004) e gostou, mesmo que, nos quadrinhos, o personagem seja praticamente lacônico e nada bem humorado? Lembra quando você achou "Constantine" (2005) um filme "maneiro", ainda que o ator Keanu Reeves não tenha topado pintar o cabelo de loiro e que estava muito "alegrinho" e motivado, mesmo que seu personagem estivesse com câncer terminal? Lembra quando você exultou quando assistiu o filme "Mulher-Maravilha" (2017) e "Mulher-Maravilha: 1984" (2020), independente de que quem salvou o dia no final DOS DOIS FILMES tenha sido um homem? Se você não for muito exigente nesse nível, talvez, quem sabe, possa gostar de "Supergirl". Mas saiba que você precisa rever seus valores - e ler mais histórias em quadrinhos...
Na trama - livremente baseada na graphic novel "Supergirl - Mulher do Amanhã" - escrita por Tom King, com arte da brasileira Bilquis Evely e cores do também brasileiro Mat Lopes - quando um adversário tão inesperado quanto implacável assassina toda a família da jovem Ruthye, ela sai a procura de alguém que tenha bravura e saiba guerrear para vingar sua honra. Kara Zor-El (também conhecida como Supergirl), não sem muita relutância, acaba se tornando sua parceria improvável nesta jornada interestelar após ter seu cãozinho Krypto envenenado pelo bandoleiro Krem dos Montes Amarelos - também responsável pelo assassinato da família de Ruthye - e, agora, tornou-se uma causa pessoal.
E antes que algum transeunte coloque na mesa a "carta" de que este filme "é uma adaptação, que é necessário cortar o que não funciona em tela grande" (e esse monte de bobajada dita por quem nunca teve a oportunidade de escrever um roteiro na vida, nem sabe como se começa esse tipo de empreitada), há de se dizer que, ainda que o roteiro escrito pela estreante (no cinema) Ana Nogueira (de séries como "Blue Bloods", "Diários de um Vampiro" e "Lista Negra" - e também atriz, tendo participado do elenco da série "Hightown") traz, assim como os quatro exemplos de adaptações cinematográficos do segundo parágrafo, diversos elementos da obra original. Todavia, faltou o principal: a essência.
Ainda que o filme "Supergirl" tenha seus (poucos) momentos, há de se questionar algumas motivações de sua protagonista. Por que Kara tem predileção por coisas estilo "vintage" (como filmes clássicos) e aparelhos arcaicos (como walkman)? Por que ela trata de forma rabugenta a maioria das pessoas - menos as que ela sabe que não pode enfrentar (como Lobo, por exemplo)? E por quê diabos Supergirl tem receio de ver Lobo irritado se, mais tarde, age como se ele fosse inofensivo? E por que Kara faz um discurso motivacional sobre a diferença entre vingança e justiça se... Bem, deixa pra lá, pois terminar a provocação seria dar um baita spoiler.
A questão é que a personagem Kara mostrada no filme é substancialmente inferior e diametralmente diferente do que é apresentada nos quadrinhos. Enquanto que no filme temos uma jovem adulta bem insuportável, que a maior parte do tempo come muita m&rd@ (às vezes, literalmente) - e essa piada tem cara de ter sido escrita por James Gunn -, não se preocupa tanto assim com asseio pessoal e não tem o menor respeito por quem está a seu redor - o roteiro sublinha isso, pobremente, quando mostra a manchete do jornal em que ela salva um gatinho, enquanto seu primo resgata pessoas.
Nos quadrinhos, claro, temos isso também... só que por bem menos tempo (parte de um capítulo), enquanto que, no restante da história, Kara tem porte de autoridade real, uma altivez (sem ser arrogante) quase como que vinda de uma princesa ou de alguém que sabe o que pode fazer e que tem um certo "distanciamento" (provando sua parte alienígena, sempre com um olhar de quem vê a situação de fora - e por diversos ângulos) - e não, ela não ajuda ninguém reclamando.
Entende agora quando se diz que a competição é até injusta quando comparada com o que veio antes? Mas, frisando, o problema não é não parecer com os quadrinhos, mas, sim, que o que foi retirado de lá, foi substituído por algo bem inferior em termos de narrativa. Isso sem contar que parte do plot do filme "pega emprestado" (cof cof! PLÁGIO! cof cof!) o objetivo principal da trama de "Mad Max - Estrada da Fúria"... Pra quê? Como diria um famoso youtuber brasileiro: "Eu não sei, o filme não explica".}
Nos quadrinhos, claro, temos isso também... só que por bem menos tempo (parte de um capítulo), enquanto que, no restante da história, Kara tem porte de autoridade real, uma altivez (sem ser arrogante) quase como que vinda de uma princesa ou de alguém que sabe o que pode fazer e que tem um certo "distanciamento" (provando sua parte alienígena, sempre com um olhar de quem vê a situação de fora - e por diversos ângulos) - e não, ela não ajuda ninguém reclamando.
Entende agora quando se diz que a competição é até injusta quando comparada com o que veio antes? Mas, frisando, o problema não é não parecer com os quadrinhos, mas, sim, que o que foi retirado de lá, foi substituído por algo bem inferior em termos de narrativa. Isso sem contar que parte do plot do filme "pega emprestado" (cof cof! PLÁGIO! cof cof!) o objetivo principal da trama de "Mad Max - Estrada da Fúria"... Pra quê? Como diria um famoso youtuber brasileiro: "Eu não sei, o filme não explica".}
Lembra quando, em "Capitão América - O Soldado Invernal", Steve Rogers persegue Bucky Barnes pela rodovia, arremessa seu escudo e Bucky, com olhar raivoso, segura o escudo com uma só mão (era o VILÃO fazendo isso e você COMEMOROU)? Lembra quando, em "Batman vs Superman" (não importa se você gosta ou não desse filme), o Homem-Morcego e o Homem de Aço enfrentam Apocalypse e, quando estão quase perdendo, o Cruzado Embuçado até fecha os olhos com a certeza do fim iminente e... a Mulher-Maravilha, literalmente, cai dos céus protegendo ambos (eu vi isso no cinema e a reação de TODO MUNDO foi como vibrar com um gol de final de Copa do Mundo), ao som de uma das melhores trilhas sonoras de personagens de quadrinhos de todos os tempos? Sabe aquele momento que você tem CER-TE-ZA que o filme vai ficar IMPERDÍVEL imediatamente a partir daquele instante? Este escriba chama isso de ~"momento uau" - e "Supergirl" tenta forçar que isso aconteça, mas, infelizmente, de forma nada bem sucedida.
Apesar de ser uma produção autocentrada, sem a menor preocupação em se ligar a outros projetos da franquia, "Supergirl" é um pálido exemplo de como representar bem uma jovem mulher da nova geração e que nem se esforça em fazer algo além do básico. Além disso, com sua quarta investida, o "novo" Universo Cinematográfico DC ainda precisa encontrar seu ~"momento uau" (urgentemente, eu diria). Enquanto narrativa, é fraco, risível, mal se mantém de pé e é digno de pena. Faz-se necessário ter baixíssima expectativa e bastante tolerância para que esta peça de entretenimento surta efeito - principalmente por conta da resolução da trama. Dá pra ver? Dá. Mas em dia de promoção nas salas de cinema - ou, daqui a dois meses, no conforto de seu lar... Assista e tire suas próprias conclusões - e não esqueça de ler o quadrinho original (acredite: vai fazer diferença).
Kal J. Moon leu "Mulher do Amanhã", ama a arte de Bilquis Evely, assistiu o filme, sentiu falta tanto das cores quanto do cavalo (entendedores entenderão) e percebeu que o pai da Supergirl é o verdadeiro... Irmão do Jor-El.
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Mesmo que "Supergirl" seja um filme bem apático em matéria de narrativa, a direção de Craig Gillespie (de "Eu, Tonya" e "Cruella") mostra que este, provavelmente, tenha sido o projeto com menos liberdade artística que este veterano profissional da indústria tenha participado. Quando ele foi anunciado como diretor, parecia a escolha perfeita - visto seu bem-sucedido histórico com personagens femininas fortíssimas, complexas e bem representadas. Mas ao decorrer da rodagem, nota-se uma entrega morna, em vista da abordagem. Dá um pouco de pena pois Gillespie é talentoso e até consegue-se enxergar sugerindo uma ou outra coisa mais ousada - a produção até inicia com uma cena um pouco mais "disruptiva" mas logo se desvirtua para o padrão de filme de ação e pancadaria.
Quanto ao elenco, dentro da proposta apresentada, está todo mundo correto - nenhuma atuação digna de prêmio, mas nada que comprometa também. Talvez, um pouquinho acima em matéria de qualidade dramatúrgica, possamos apontar que a composição de Eve Ridley (de séries como "O Problema dos 3 Corpos" e "The Witcher") traz bastante do que se lembra da personagem Ruthye nos quadrinhos, sua equivocada visão branco no preto do que ela julga ser justiçamento e uma certa inocência em relação à maldade alheia. Aliás, é dela a cena em que há uma baita "homenagem" (pra não chamar de plágio...) ao filme "Corpo Fechado" (2000) e segura bem a peteca ao contracenar tanto com Milly Alcock (de "A Casa do Dragão") quanto com Jason Momoa (de "Game of Thrones" e "Aquaman - O Reino Perdido").
E o vilão Krem - vivido por Matthias Schoenaerts (de filmes como "A Garota Dinamarquesa" e "Amsterdã") - é apresentado como alguém perigoso, mas com umas atitudes bem questionáveis como beber leite, comer sucrilhos ou perguntar se sua adversária está bem quando a ouve vomitando (oi?!), subutilizando um ator bem competente com um personagem muito estigmatizado, quase uma caricatura ambulante. Mas, há de se admitir que sua apresentação na trama (e principal motivação da história) é irrepreensível: ameaçadora, caótica e cruel na medida certa. Pena que degringola pouco depois...
Alcock segura bem o papel de protagonista - ainda que devesse ser coprotagonista, se levarmos em conta o quadrinho original (não, não vou deixar de falar disso, é necessário) - e entrega uma performance coerente com a proposta. Já Momoa... Bem, o personagem Lobo é vastamente conhecido por ser falastrão, boca suja, gritalhão, nada respeitador de ordens e casca grossa. Não à toa é autointitulado de "maioral". Mas a versão do filme é o que se pode esperar de uma versão para menores de 13 anos de idade - acompanhados dos pais. Faltou uma pimenta para deixar minimamente decente. Quem sabe numa próxima vez?
Ainda no núcleo kryptoniano, a dupla David Krumholtz (da cultuada série "Numb3rs" e do recente filme "Oppenheimer") e Emily Beecham (do filme "Ave, César!") - interpretando Allura e Zor-El, pais de Kara - consegue passar bem, ainda que com pouquíssimo tempo de tela, o desespero de ver seu presente desmoronar e a preocupação com o futuro da filha. Ambos compartilham as cenas mais emocionantes - e tristes - da produção (que, óbvio, saíram do quadrinho original - e que podem levar pessoas mais sensíveis a lacrimejar feito recém-nascidos). Contudo, David Corenswet (que retorna o papel de Homem de Aço de "Superman") parece um pouco desconfortável e um tanto inadequado pois seu personagem está no meio do caminho da versão que vimos anteriormente...
E o vilão Krem - vivido por Matthias Schoenaerts (de filmes como "A Garota Dinamarquesa" e "Amsterdã") - é apresentado como alguém perigoso, mas com umas atitudes bem questionáveis como beber leite, comer sucrilhos ou perguntar se sua adversária está bem quando a ouve vomitando (oi?!), subutilizando um ator bem competente com um personagem muito estigmatizado, quase uma caricatura ambulante. Mas, há de se admitir que sua apresentação na trama (e principal motivação da história) é irrepreensível: ameaçadora, caótica e cruel na medida certa. Pena que degringola pouco depois...
Alcock segura bem o papel de protagonista - ainda que devesse ser coprotagonista, se levarmos em conta o quadrinho original (não, não vou deixar de falar disso, é necessário) - e entrega uma performance coerente com a proposta. Já Momoa... Bem, o personagem Lobo é vastamente conhecido por ser falastrão, boca suja, gritalhão, nada respeitador de ordens e casca grossa. Não à toa é autointitulado de "maioral". Mas a versão do filme é o que se pode esperar de uma versão para menores de 13 anos de idade - acompanhados dos pais. Faltou uma pimenta para deixar minimamente decente. Quem sabe numa próxima vez?
A direção de fotografia de Rob Hardy (do recente filme "Guerra Civil") é funcional - e é uma grande pena que o filme não tenha aproveitado para se utilizar da paleta de cores criada por Mat Lopes nos quadrinhos (em que cada planeta meio que tinha uma matiz cromática diferenciada) pois a produção inteira parece MARROM DEMAIS e cada localidade remete à anterior por conta disso. E vale a pergunta: tá liberado abusar de câmera lenta agora? Porque Hardy tem muitas cenas utilizando o artifício, muitas das vezes sem a menor necessidade, lembrando bastante o que o cineasta Zack Snyder faz em suas produções - e é constantemente criticado por isso. Hipocrisia? Temos...
A equipe de maquiagem e penteado (coordenada por Emma Bailey, da série "The Acolyte") tem a difícil tarefa entre emular o que foi mostrado nos quadrinhos e, a partir disso, gerar algo que parece o cruzamento entre o que foi visto em "Guardiões da Galáxia" e "Star Wars" - mas que, ainda assim, soasse "novo". O resultado é bem positivo - aliado ao eficiente figurino de Michael Mooney (do obscuro filme "Lentes do Mal") e Anna B. Sheppard (indicada ao Oscar por seu trabalho em "Malévola" e que também trabalhou em "Operação Overlord").
A trilha sonora composta por Claudia Sarne (de "Outcast" e "Black Mirror" - além de ser esposa do também compositor Atticus Ross) é, assim como o filme, morna, quase fria. Não é de se admirar que diversos sucessos POPs façam parte da produção com canções de nomes como Modest Mouse, Halsey, Fela Kuti, Tom Jobim e Vinícius de Moraes (é sério!), Ella Fitzgerald e uma do Eagles of Death Metal (que você pode imaginar em que cena foi inserida). Porém, mesmo tendo produção executiva de James Gunn, essa miríade de faixas nem sempre se encaixam bem nas cenas, com letras que mais servem para ilustrarem o que está sendo visto - e não, não tem legendas traduzindo o que é entoado nessas canções (e não, também não toca "Call Me", da Blondie, - canção que retornou aos charts por conta dos materiais promocionais - em momento algum da exibição ou dos créditos).
(existe, na produção, uma grande homenagem à desenhista brasileira Bilquis Evely - no filme em si - e, ao final dos créditos, uma menção tanto a ela quanto ao roteirista Tom King "em profundo agradecimento", ACIMA de outros nomes de lendários artistas dos quadrinhos como Otto Binder, 1911-1974, e Al Plastino, 1921-2013, dentre outros, que trabalharam com Supergirl - e não, não tem nenhuma cena pós-créditos)
A equipe de maquiagem e penteado (coordenada por Emma Bailey, da série "The Acolyte") tem a difícil tarefa entre emular o que foi mostrado nos quadrinhos e, a partir disso, gerar algo que parece o cruzamento entre o que foi visto em "Guardiões da Galáxia" e "Star Wars" - mas que, ainda assim, soasse "novo". O resultado é bem positivo - aliado ao eficiente figurino de Michael Mooney (do obscuro filme "Lentes do Mal") e Anna B. Sheppard (indicada ao Oscar por seu trabalho em "Malévola" e que também trabalhou em "Operação Overlord").
A trilha sonora composta por Claudia Sarne (de "Outcast" e "Black Mirror" - além de ser esposa do também compositor Atticus Ross) é, assim como o filme, morna, quase fria. Não é de se admirar que diversos sucessos POPs façam parte da produção com canções de nomes como Modest Mouse, Halsey, Fela Kuti, Tom Jobim e Vinícius de Moraes (é sério!), Ella Fitzgerald e uma do Eagles of Death Metal (que você pode imaginar em que cena foi inserida). Porém, mesmo tendo produção executiva de James Gunn, essa miríade de faixas nem sempre se encaixam bem nas cenas, com letras que mais servem para ilustrarem o que está sendo visto - e não, não tem legendas traduzindo o que é entoado nessas canções (e não, também não toca "Call Me", da Blondie, - canção que retornou aos charts por conta dos materiais promocionais - em momento algum da exibição ou dos créditos).
Apesar de ser uma produção autocentrada, sem a menor preocupação em se ligar a outros projetos da franquia, "Supergirl" é um pálido exemplo de como representar bem uma jovem mulher da nova geração e que nem se esforça em fazer algo além do básico. Além disso, com sua quarta investida, o "novo" Universo Cinematográfico DC ainda precisa encontrar seu ~"momento uau" (urgentemente, eu diria). Enquanto narrativa, é fraco, risível, mal se mantém de pé e é digno de pena. Faz-se necessário ter baixíssima expectativa e bastante tolerância para que esta peça de entretenimento surta efeito - principalmente por conta da resolução da trama. Dá pra ver? Dá. Mas em dia de promoção nas salas de cinema - ou, daqui a dois meses, no conforto de seu lar... Assista e tire suas próprias conclusões - e não esqueça de ler o quadrinho original (acredite: vai fazer diferença).
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