Subscribe Us

CRÍTICA [CINEMA] | "Backrooms - Um Não-Lugar", por Kal J. Moon

Dirigido por Kane Parsons, estrelado por Chiwetel Ejiofor, Renate Reinsve, Mark Duplass, Finn Bennett, Lukita Maxwell e Avan Jogia, o filme "Backrooms - Um Não-Lugar" não é apenas mais uma produção de terror criada por um cultuado Youtuber, mas, sim, algo digno de nota - independente da lista de envolvidos.


Fanfic canônica
Sabe aquela sensação de desconforto e inevitabilidade que se tem quando está sentado em locais como recepções de hospitais, consultórios psiquiátricos ou uma casa fechada há muito tempo - e sua mente divaga sobre o que poderia ter sido aquele local antes de ser mobiliado ou onde dá aquela porta que ainda não foi aberta em sua frente? Ou, ainda, aquele barulho irritante de antigas lâmpadas fluorescentes, com luzes estéreis, não deixando, ao menos, a pessoa dormir para passar o tempo enquanto espera acontecer o que precisa ser feito? 

Esse "suportável incômodo" é perfeitamente traduzido no fenômeno "Backrooms" - que começou primeiramente como post enigmático num fórum mas rapidamente tornou-se uma história colaborativa, que se transformou em curtas-metragens no YouTube e, agora, ganha as telas dos cinemas, arrebatando crítica e público, com um "novo" tipo de terror (ou algo ancestral que foi resgatado para os novos tempos). Ou seja: os curtas-metragens, mesmo alterando parte da mitologia original, passou a ser o que, hoje, as pessoas entendem por "Backrooms".


Na trama, um ex-arquiteto divorciado que trabalha numa loja de móveis e utensílios domésticos se consulta regularmente com uma psicóloga acerca de seu trauma quando, numa noite, descobre um portal para uma dimensão paralela, semelhante a um interminável labirinto de cômodos vazios que causam uma sensação de que não é um local habitado por humanos. Ao contar isso à psicóloga e ela não acreditar, ele resolve explorar a nova dimensão com o auxílio de conhecidos. Após seus desaparecimentos, a psicóloga sai à sua procura, acaba descobrindo o portal e, ao visitar essa dimensão, acaba tendo de lidar com traumas e situações do passado - que têm ou não relação com o presente.

Assistir "Backrooms" é voltar às incômodas sensações de quando ainda existiam filmes (ou séries) de David Lynch ou David Cronemberg para serem apreciados nas telonas - ou nas madrugadas da TV - como "Twin Peaks" ou "Videodrome"... Ou a falta de explicações em episódios das fases áureas de "Arquivo X" e "Lost" - mas que sempre nos fisgavam a retornar aos canais de TV naquele mesmo dia e horário de exibição (e depois às coleções em mídias físicas). Ou ainda à inevitabilidade do destino em tramas curiosas como a do filme "Cubo", em que os protagonistas visitam cômodos bizarros e tentam sair de lá - mas nem todos conseguem com vida. Ou "Bruxa de Blair" (e o similar "Atividade Paranormal") - por conta do estilo "câmera na mão" - e até o descomunal Hotel Overlook do (livro e filme) "O Iluminado" trazem esse tipo de sensação. E "Backrooms" se utiliza desse tipo de narrativa, mesmo que o diretor alegue que não tenha se baseado diretamente em nenhum desses exemplos...


E é um conceito difícil de explicar mas - assim como em "Matrix" - pode ser resumida em uma frase: "É como descrever um cachorro para alguém que nunca viu um e pedir para essa pessoa desenhar. Ela pode até acertar alguns detalhes mas, olhando de perto, não se parece completamente com um cachorro". É como se fosse um "terror de sobrevivência" mas não ao estilo "slasher" mas sim aquele tipo de trama que exige raciocínio e algum desprendimento das convenções do estilo para experienciar algo fora da caixinha: conceitual mas sem parecer "cinema dell'arte"...

Porém, o que realmente chama a atenção é o tripé muito bem estabelecido desde a primeira cena: direção-atuação-roteiro. Kane Parsons pode ser um jovem diretor, estreante no cinema mas que já dirigiu e produziu diversos curtas-metragens (a maioria, "expandindo" a mitologia de "Backrooms") e parece saber bem o que quer e como quer que se pareça - mesmo que não se pareça com o que é habitual no terror / suspense atual em Hollywood.


O filme tem pelo menos três cenas que são muito acima da média em relação ao tom do restante do filme - e isso até levantou suspeitas de que Parsons pode não ter dirigido tais sequências e, sim, diretores mais experientes não creditados (o que foi prontamente desmentido pelo ator Mark Duplass, que disse que o jovem diretor esteve todos os dias nos sets de filmagens). É possível que seja apenas um diretor estreante que estudou bastante e sabe bem o que quer - mas entende-se o porquê da desconfiança quando se assiste...

O elenco principal está muito bem. A dupla protagonista Chiwetel Ejiofor (indicado ao Oscar por "12 Anos de Escravidão") e Renate Reinsve (indicada ao Oscar por "Valor Sentimental") tem um "bate-bola" esperto em diversas cenas e ninguém deixa a "peteca" cair, com interpretações afiadas de diálogos ferinos e, mesmo quando não existem, se viram muito bem com performance corporal e até de ação, pois, no terço final, há uma urgência da própria trama em resolver alguns enigmas e isso exige bastante fisicalidade de ambos os atores.

Porém, de fato, é o roteiro - que teve primeiro tratamento por Roberto Patino (de séries como "Westworld", "DMZ" e "Dia Zero") e finalização de Will Soodik (também de "Westworld" e "Homeland") - que se sobressai no fim das contas. Talvez, por isso mesmo, venham à mente mais exemplos televisivos do que cinematográficos para explicar a experiência de assistir a essa obra, uma vez que remete mais a clássicos da telinha. Mesmo não sendo algo genial - como estão afirmando por aí, pois tem decisão de roteiro bem questionável no terço final -, o conjunto é coeso e este é um projeto perfeito para servir ao propósito de Parsons, mas, ainda assim, sendo algo minimamente palatável (na medida do possível) para aquela parte do público que nem sabia que esta produção se trata de um derivado de um ARG sobre "espaços liminares".

E isso só demonstra o que Hollywood está precisando aprender há mais de quinze anos: novas vozes do cinema precisam ser fomentadas para que o público não somente se renove, mas, também, para que o negócio de fazer filmes e contar histórias se torne lucrativo novamente. E isso também deve levar em conta a equação de que, com a divulgação feita da forma correta, orçamento menor que o costumeiro e com roteiro, elenco e direção trabalhando com poucas interferências de quem acha que sabe o que é "certo" de se fazer em matéria de cinema - sério, esse tipo de abordagem "protecionista" só está levando a sétima arte a um abismo que tá complicado de se desviar -, dá pra arrebatar a audiência com mais frequência do que o habitual.

"Backrooms" pode até não ser inédito em seus conceitos ou realização, mas é o perfeito exemplo de que, quando quer, Hollywood consegue surpreender - mesmo trazendo uma atmosfera altamente reconhecível, porém inédita ao mesmo tempo. Não seria estranho se a produção ganhasse os holofotes nas premiações, reconhecendo diretor, roteiristas, elenco, direção de fotografia e cenografia. Vamos aguardar as cenas dos próximos capítulos. Cinéfilos do mundo inteiro agradecem...


Kal J. Moon também é divorciado, mora numa casa com diversos cômodos e, às vezes, se pega em um deles, tentando não pensar em nada... só existindo - como os móveis.

Em todo o site, deixamos sugestões de compra geek. Deste modo, poderemos continuar informando sobre o Universo Nerd com fontes confiáveis e mantendo nosso poder nerd maior que 8.000. Afinal, como você, nós do portal Poltrona POP já éramos nerds antes disso ser legal!