"Como se come um elefante?", diz uma antiga charada. A resposta: "um pedaço por vez". E, por se tratar de um projeto planejado por tanto tempo, provavelmente foi esse o primeiro pensamento de Christopher Nolan ao aceitar o desafio de adaptar uma das obras mais aclamadas da literatura clássica.
Antes de entrar necessariamente nos meandros da adaptação cinematográfica em si, vale lembrar que os textos atribuídos a Homero (928 a.C. - 898 a.C.) ficaram populares através da tradição oral por meio de canções e declamações lá pelos idos dos séculos 8 ou 9 para serem, posteriormente, reunidos por volta dos séculos 11 ou 12. E não podemos nos esquecer que, somente a partir desses escritos, que foram possíveis traduções e adaptações em outras línguas - e, como diz o ditado italiano, "Traduttore, traditore" ("Tradutor, traidor", no sentido de que a tradução traz o propósito, mas não as palavras originais - e, em alguns casos, até outro significado para capturar a mesma ideia).
Entretanto, Nolan sempre foi considerado um bom / ótimo diretor, mas seus detratores adoram dizer que é um roteirista mediano / fraco, que só conseguiu sucesso na carreira por conta de criar suas primeiras histórias com o auxílio do irmão Jonathan Nolan. Porém, desde que rompeu sua parceria, Nolan tem se dedicado exclusivamente ao cinema - mais especificamente a seguir os passos do cultuado cineasta Stanley Kubrick (1928-1999) - enquanto seu "irmão verdadeiramente talentoso" preferiu criar adaptações televisivas de obras como "Westworld" e "Fallout", por exemplo (em vez de algo original).
O roteiro de Nolan para sua versão de "A Odisseia" parte de um princípio bem simples: como podemos recontar essa história tão amada de um jeito que possa atingir o máximo de pessoas e não cause estranheza (ou repulsa), mas que abrace tantos elementos quanto possível, a fim de trazer o âmago dessa narrativa de volta à baila? Como fazer as pessoas "comuns" gostarem dessa história pelos mesmos motivos que tantos a apreciam...?
E não entenda mal... Isso não quer dizer que a versão 2026 de "A Odisseia" se pareça com um filme de menor orçamento. Só que a parte "épica" se dá nas ações e nos diálogos, não na escala em si - como se faz em qualquer roteiro bem escrito. E, também por conta disso, muitas adaptações (lê-se "subtrações" e "aglutinações" - escolhas, né?) tiveram de ser feitas para que a narrativa se sobressaísse como algo demasiado humano - mesmo com muitas situações fantásticas ocorrendo (ainda que algumas delas nem se podem provar, por pura falta de testemunhas ao fim da jornada). A principal mudança em todo o roteiro foi transformar Odisseu num herói crível, porém - e, por isso mesmo -, falível. Existem motivações para que ele assim o seja (não seria um filme "nolaniano" se não houvesse explicações) e todas suas escolhas têm consequências (algumas boas e, a maioria, hã, bem complicadas).
O mesmo pode ser dito do nome mais subestimado deste numeroso elenco: John Leguizamo. Esse querido colombiano-americano entrou na terceira idade entendendo mais do mister de sua profissão, entregando performances cada vez mais minuciosas em matéria de dramaticidade, mesmo em filmes que não se levam muito a sério como o primeiro "John Wick" (ele diz a frase mais importante do filme, trazendo a urgência necessária àquela situação incontornável), "Chef" (o amigo leal, que embarca no sonho do companheiro por conta de não coadunar com um patrão que não reconhece o esforço laboral de seus funcionários - amigo é pra essas coisas!) e "O Menu" (com comentários cáusticos acerca de uma situação periclitante e que todos agem como se fosse normal serem torturados para se ter acesso a uma boa refeição). Mas a sua versão de Eumeu, o servo cego de Odisseu, deve fazer os mais sensíveis lacrimejarem em pelo menos um momento bem emotivo do terceiro ato de "A Odisseia".
O que dizer da Circe incorporada por Samantha Morton (do recente filme "Anêmona")? O roteiro, com a ajuda da performance dessa atriz, conseguiu o que parecia impossível: humanizar uma malfeitora - a ponto da audiência "alcançar" seus intentos e entender todas as intenções dramáticas da personagem. Não seria completamente estranho se fosse lembrada nas premiações... Lupita Nyong’o (vencedora do Oscar em "12 Anos de Escravidão") também tem algum destaque - e um momento bem interessante na trama - mesmo com pouquíssimo tempo de tela, devido à quase desimportância de sua(s) personagem nessa versão da trama.
Já o restante do elenco está correto. Anne Hathaway entrega o suficiente como a rainha Penélope, mas nada mais que isso. Tom Holland e Robert Pattinson tem papeis que são opostos (Telêmaco e Antinoo, respectivamente), mas que se complementam - ambos com uma limitação canastresca de herói e vilão de novela das seis (culpa do roteiro, porém nada que comprometa a experiência). Himesh Patel traz alguma verdade a seu Euríloco, Jon Bernthal performa bem como Menelau, enquanto que Charlize Theron e Zendaya interpretam a versão "deusas entre nós" de Calipso e Atena (ou não) - e nem a tão polêmica escalação de Elliot Page (que, um dia, foi indicada ao Oscar por seu papel em "Juno" e ainda assinava como Ellen Page mas, hoje, é um homem trans) atrapalha pois seu personagem tem bastante importância na trama (entretanto, igualmente, pouquíssimo tempo de tela). Mas, independente da interpretação de cada um desses nomes, existe um pequeno momento para brilhar - o que é bem generoso da parte do ganhador do Oscar pelo já citado "Oppenheimer".
(e para quem reclamou de qualquer nome do elenco e que "não deveria" estar no filme, talvez fosse melhor assistir uma versão falada em grego arcaico e estrelada apenas por atores e atrizes oriundos daquelas bandas do Mar Mediterrâneo, porque quando admiradores da nona arte reclamam que os filmes diferem bastante do material base é tratado como besteira, mas em toda adaptação cinematográfica de literatura clássica é esse chilique todo - ah, sim: recolha os dentes...)
Já o restante do elenco está correto. Anne Hathaway entrega o suficiente como a rainha Penélope, mas nada mais que isso. Tom Holland e Robert Pattinson tem papeis que são opostos (Telêmaco e Antinoo, respectivamente), mas que se complementam - ambos com uma limitação canastresca de herói e vilão de novela das seis (culpa do roteiro, porém nada que comprometa a experiência). Himesh Patel traz alguma verdade a seu Euríloco, Jon Bernthal performa bem como Menelau, enquanto que Charlize Theron e Zendaya interpretam a versão "deusas entre nós" de Calipso e Atena (ou não) - e nem a tão polêmica escalação de Elliot Page (que, um dia, foi indicada ao Oscar por seu papel em "Juno" e ainda assinava como Ellen Page mas, hoje, é um homem trans) atrapalha pois seu personagem tem bastante importância na trama (entretanto, igualmente, pouquíssimo tempo de tela). Mas, independente da interpretação de cada um desses nomes, existe um pequeno momento para brilhar - o que é bem generoso da parte do ganhador do Oscar pelo já citado "Oppenheimer".
Já nos quesitos técnicos, vale destacar a trilha sonora composta por Ludwig Göransson (vencedor do Oscar pelo recente filme "Pecadores"), criada a partir de instrumentos que existiam na época em que se passa a história, contendo bastante percussão, instrumentos rudimentares de corda e sopro - mas não caindo na tentação de utilizar (gratuitamente) corais de vozes, por exemplo. Porém, nada memorável.
Também merece ser mencionada a direção de fotografia comandada por Hoyte van Hoytema (também vencedor do Oscar por "Oppenheimer") não por ser um trabalho "diferentão" ou "ousado", mas pelo simples fato de que o filme inteiro foi capturado para o formato IMAX 70mm, o que, per se, já torna o trabalho nada menos que memorável quando se vê o resultado - fazendo qualquer um que entende minimamente de fotografia se perguntar "como diabos isso foi captado?". Talvez, a supervisão de som de Craig Henighan (do recente filme "Ladrões" e séries como "Alien - Earth") cause alguma estranheza por parte do público - assim como a edição picotada de Jennifer Lame (que trabalhou em "História de um Casamento" e também venceu o Oscar por "Oppenheimer").
O design de produção de Ruth De Jong (que fez parte da equipe de "Manchester à Beira-Mar") e o figurino de Ellen Mirojnick (que trabalhou na série "Bridgerton") podem ser alvos de críticas da ala mais purista do público - porém, se pensarmos que se trata de uma versão de uma história de FAN-TA-SIA medieval popularizada pela tradição da oralidade (baseada em lendas anteriores à sua existência) e na verdadeira intenção em se recontar essa narrativa para audiências modernas, essa reclamação não se justifica pois, no conjunto, está bem realizado.
Também merece ser mencionada a direção de fotografia comandada por Hoyte van Hoytema (também vencedor do Oscar por "Oppenheimer") não por ser um trabalho "diferentão" ou "ousado", mas pelo simples fato de que o filme inteiro foi capturado para o formato IMAX 70mm, o que, per se, já torna o trabalho nada menos que memorável quando se vê o resultado - fazendo qualquer um que entende minimamente de fotografia se perguntar "como diabos isso foi captado?". Talvez, a supervisão de som de Craig Henighan (do recente filme "Ladrões" e séries como "Alien - Earth") cause alguma estranheza por parte do público - assim como a edição picotada de Jennifer Lame (que trabalhou em "História de um Casamento" e também venceu o Oscar por "Oppenheimer").
"A Odisseia" de Christopher Nolan não é a adaptação perfeita e esperada por apreciadores de literatura clássica, muito menos uma versão desleixada e realizada sem esmero - a essa altura do campeonato, Nolan resolveu entregar não o que parte do público espera, mas sim o que precisa. Talvez, depois de muitos anos, Nolan não se tornou apenas um grande diretor, mas, também, um admirável contador de histórias, mostrando-se em ótima forma - como os antepassados daqueles que ouviram as canções e reuniram os escritos que acabaram originando essa obra cinematográfica. Vale assistir, rever, debater e refletir. Que bom...
Kal J. Moon é um anti-herói de menos de uma dezena de estratagemas e não espera ajuda de divindades - mas são benvindas se oferecidas.
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