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CRÍTICA [STREAMING] | "Elle" (Temporada 1), por Kal J. Moon

Estrelado por nomes como Lexi Minetree, Zac Looker, Gabrielle Policano, Jacob Moskovitz, Chandler Kinney, Amy Pietz, June Diane Raphael, Tom Everett Scott, Matt Oberg, Rebecca Wisocky e participação especial de James Van Der Beek (1977-2026), a primeira temporada da série "Elle" acerta bastante em se afastar do filme "Legalmente Loira" para se aprofundar no que a juventude menos afortunada dos anos 1990 estava pensando, ouvindo e produzindo - o que, infelizmente, também se tornou seu calcanhar de Aquiles...


Ousadia de sofá
Em 2018, ocorreu o anúncio da produção de um terceiro filme da franquia "Legalmente Loira" - cujos dois filmes anteriores são muito cultuados por parte do público, apesar da rejeição da crítica. Desde então, a tal produção que traria o esperado retorno da personagem Elle Woods às telonas (uma vez que o segundo filme tinha sido lançado no distante ano de 2003) passou a fazer parte do chamado "inferno do desenvolvimento" - obras que ganham roteiristas, perdem roteiristas, anunciam diretores, mas, em alguma parte do processo, por diversos motivos, não se ouve mais falar sobre o desenvolvimento e previsão de lançamento (até o momento em que são sumariamente esquecidos).

A última vez em que alguém ligado ao projeto mencionou algo foi Mindy Kalling (atriz, roteirista e produtora de séries de sucesso como "Eu Nunca"), explicando brevemente que ela e um outro roteirista haviam finalizado a primeira versão do roteiro, mas que não poderia falar muito do que se tratava [a história] e que retornariam ao projeto depois do Natal.. de 2025. Já a atriz e produtora executiva Reese Whiterspoon (que interpretou Elle Woods nos dois filmes originais) sempre que pode dá alguma declaração dizendo que espera que um terceiro filme saia em algum momento do futuro.


Eis que, do mais absoluto nada, surge o anúncio da série "Elle" - descrito como uma prequela do filme original -, com elenco escolhido e DUAS temporadas já confirmadas, além de planos para o futuro. E a ideia inicial não era emular o que foi visto nos dois filmes originais, mas, sim, mostrar as origens da personagem numa visão um pouco menos cômica e mais realista da vida do jovem norte-americanos médios e menos endinheirados, que se importam um pouco mais com a causa operária e direitos civis... Só por isso, já é um convite a assistir.

Na trama da primeira temporada - livremente inspirada no filme de 2001 dirigido por Robert Luketic E também no livro escrito por Amanda Brown -, em 1995, a jovem Elle Woods acaba de fazer 16 anos, rodeada de amigos e amigas (fúteis) na ensolarada Beverly Hills (Califórnia, EUA) e recebe a pior notícia de todas: seu pai, um renomado cirurgião plástico, cometeu um erro médico numa cliente bem famosa e a família precisa se mudar para fugir dos holofotes da mídia. Para onde? Seattle (Washington, EUA). Assim, Elle terá de se habituar a uma cidade de clima predominantemente chuvoso, com pessoas de cabelos pretos ou ruivos, que vestem roupas de cores de tons muito sóbrias, além de uma incômoda atitude passivo depressiva pairando no ar - isso tudo, no auge do movimento "grunge".


O maior acerto da criadora da série Laura Kittrell (que escreveu e produziu a ótima série "Insecure") foi deslocar o mesmo tipo de narrativa estabelecido pelo primeiro filme (Elle enquanto "estranha no ninho") para um cenário facilmente reconhecível dos anos 1990 (o movimento musical - e de moda-  "grunge") com o firme intuito de instituir o contraste entre protagonista e os coadjuvantes ("estranhos" que recebem a visita de uma mais "estranha" que o "normal"), mas sem se parecer com outros filmes da época e, sim, estabelecendo um parâmetro mais dramático e factível, a fim de que a audiência possa se solidarizar ao dilema da protagonista.

A pesquisa para a reprodução estética e "ambiental" do período é tamanha, a ponto de citar nominalmente (e sonoramente) bandas do período como Pavement, Smashing Pumpkins, Soundgarden, Pearl Jam, Oasis e, claro, Nirvana (algumas em chistes jocosos hilários!), fanzines (você não leu errado), além do próprio vestuário da juventude da época refletir perfeitamente o que acontecia naqueles tempos "cinzentos" e bem depressivos - sem contar os aparelhos eletrônicos que, hoje, seriam considerados "relíquia vintage".


(o primeiro episódio mostrando a dicotomia entre a futilidade estética de Elle Woods em relação ao restante dos estudantes é um verdadeiro achado da atual produção audiovisual - lembrando bem o que foi feito no clássico "Meninas Malvadas" mas sem parecer uma cópia descarada - e o terceiro episódio, que mostra uma festa na piscina numa bela homenagem ao filme "Os Reis de Dogtown", então?)

O segundo maior acerto da produção foi a escalação da atriz Lexi Minetree (que, um dia, já assinou como "Lexi Jones" e fez pequenas participações em obscuras produções televisivas como "The Murdaugh Murders" ou "Broken")  para viver a versão adolescente da personagem Elle Woods. Além da impressionante semelhança física com a atriz Reese Whiterspoon, Minetree capta bem o "espírito" inocente e doce mas inteligente de Woods, trazendo um bom equilíbrio entre momentos dramáticos e de comédia. Apesar do restante do elenco estar bem, Minetree se destaca por ter que suportar bem o peso do protagonismo sem parecer que é o centro das atenções o tempo todo - mérito do veterano escalador de elenco David Rubin, responsável por grandes adaptações como "A Família Addams" e "MIB - Homens de Preto", por exemplo.


Até o fim dos quatro primeiros episódios, roteiro e produção estão primorosos, boa direção de atores, estabelecimento correto e "pé no chão" de personagens agindo como adolescentes de verdade (dá pra audiência repetir, diversas vezes, o meme de Leonardo DiCaprio apontando pra tela da TV, ao verificar algo que foi vivenciado consigo próprio)... Mas da metade para o final da temporada, dá pra perceber a mão pesada dos produtores, exigindo algo mais "palatável" para o grande público, como um mistério a ser resolvido à la "Scooby-Doo" ou "Harry Potter" - ou até as recentes séries "Stranger Things" e "Wandinha" -, com um "grande vilão" a ser combatido, num esforço muito grande para atrair as novas audiências que, talvez, não queiram muito saber como é ter que ser uma "patricinha de Beverly Hills" e prefira assistir essa mesma personagem ter que se decidir entre um (forçado) triângulo amoroso (com dois caras bem feios!).

Okay, o objetivo da série era, no fim das contas, agradar a audiência mais jovem e tornar essa personagem novamente relevante para saudosistas - o resultado da empreitada mostrou-se positivo pois a produção está em primeiro lugar dentre as mais assistidas da plataforma desde seu lançamento. Entretanto, tem como estabelecer esses mesmíssimos personagens e até essa mesma premissa sem a necessidade de "amaciar" a narrativa por medo de perder parte da audiência. Mas o dilema real não é o de resumir o espírito do filme original em oito episódios ou de Elle Woods passar a gostar mais de Seattle do que de Beverly Hills, mas, sim, da produção, que não se decide entre reinventar a personagem para um público mais jovem ou traz elementos dos filmes originais a fim de atender a um público nostálgico ou, ainda, quem sabe, entregar um "mais do mesmo" que se pode assistir em qualquer esquina de streaming da vida.


O problema é que "Elle" se apresenta como "prequela", mas, na verdade, é um grande dum "reboot" - e, tendo em vista o que foi apresentado na primeira temporada, muito provavelmente, a audiência nem verá o que aconteceu nos dois filmes originais (ou, pelo menos, não da forma como aquela foi contada naquela época). Só que a produção se acovarda em contar uma narrativa "fora da caixinha" para garantir que um público que anseia por novidade se contente com o mesmo tipo de produção audiovisual de sempre - pode dar certo por um período, mas não por muito tempo...

"Elle" tem seu ápice em seu prenúncio, segura bem o protagonismo até a metade, mas, infelizmente, dispensa seu atrativo inicial para uma apresentação mediana e aquém do impacto inicial - é uma boa "série do almoço", porém, poderia ser um pouco mais que isso (o que, per se, é uma grande pena). Passa de ano, mas por bem pouco. Agora, é esperar pela já prometida segunda temporada e novos personagens a entrar na vida dessa querida personagem...




Kal J. Moon também chora feio, não se rendeu à onda "grunge", prefere dias chuvosos e sabe o que é um 'zine'... 

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