O que a grande maioria das pessoas que não estudaram sobre cinema - principalmente no que diz respeito ao que é realizado no Brasil - é que nenhum profissional da indústria cinematográfica sai de casa no firme intuito de fazer um filme ruim (nem em frente às câmeras muito menos nos bastidores). E em nosso país ainda temos diversas intempéries que podem vir a comprometer o resultado de um esforço artístico coletivo como falta ou atraso de reparte de verba de financiamento (independente do que foi acordado anteriormente), chuva em data de filmagem de cena em que deveria fazer sol, debandada de membros do elenco (ou em outro setor importante) sem aviso prévio... E tudo isso tem que ser contornado com um sorriso no rosto e bastante jogo de cintura para que o set de filmagem não se torne um local insalubre de trabalho. E é por esse monte de verídicas provocações que o filme "Morte e Vida Madalena" se estabelece em seus primeiros minutos, contando essa improvável - mas bem humorada - história de superação...
A premissa - livremente inspirada em situações reais, vividas pela produtora Ticiana Augusto Lima - é bem convidativa: Madalena é uma produtora de cinema, grávida de oito meses, que está prestes a rodar um filme de ficção científica de baixíssimo orçamento escrito por seu recém-falecido pai. Quando Davi, o diretor do filme e seu ex-marido, desaparece misteriosamente do set, Madalena precisa correr - muito! - contra o tempo para conseguir terminar o filme antes do bebê nascer.
O roteiro escrito pelo também diretor Guto Parente (do recente filme "Estranho Caminho") segue por um trilho de "desorganizando para organizar", no sentido de criar uma situação limítrofe para a protagonista resolver, melhorando um pouquinho e piorando outro fator para resolver em pouco tempo e assim vai - que é, basicamente, uma terça-feira para quem trabalha com produção cinematográfica. Mas e quando a produtora tem que virar diretora, senão o filme não sai?
Além disso, o roteiro também explora diversos elementos da já surrada "jornada do herói" como a recusa ao chamado para a aventura (o diálogo entre Madalena e seus assistentes para delegar o cargo de diretor que ela própria não quer aceitar é impagável em matéria de timing cômico) e também, pouco antes, vale destacar o inteligente uso de semiótica para antever o sentimento de recusa do cargo de diretor pelo personagem Davi - interpretado por Marcus Curvelo - pois, durante seu discurso ao assumir o projeto, ele usa uma camiseta estampada pelo icônico cartaz do clássico filme "O Exorcista" (de William Friedkin, 1973), revelando que ele sabia o problema que viria pela frente - só que, diferente daquele filme, ele foge desesperado... Sem contar o igualmente inteligente uso de flashbacks para mostrar a origem de nossa "heroína".
Ainda no aspecto da construção da escrita do roteiro, Parente foi bem feliz ao conseguir gerenciar bem a disposição de uma miríade de personagens, concedendo algum destaque em cenas que podem até parecer irrelevantes do ponto de vista narrativo numa primeira olhada, mas que complementam todo o cenário de caos, como o carteado entre ator e assistentes de produção enquanto esperam o momento de filmar ou, simplesmente, um descompromissado dedilhar de violão de um membro do elenco para entoar a belíssima canção "Meu Mundo E Nada Mais" (do gigante cantor e compositor Guilherme Arantes - delicadamente entoada pelo ator Rodrigo Fernandes) em que é virtualmente impossível que o público não cante junto.
(outro destaque do roteiro foi inserir três cenas com uma arma e criar expectativa dela ser disparada ou não - e quem estuda cinema sabe que, se uma arma aparece em cena, obrigatoriamente precisa ser disparada, senão foi um completo desperdício de artifício)
O roteiro ainda conta com diversos momentos engraçados - alguns, visando o humor de constrangimento (mas que funcionam bem) -, porém não é, necessariamente, uma comédia. Está mais para "dramédia de erros", com muitas situações cômicas e bastante drama em relação ao entorno (tem muita coisa acontecendo e que precisa ser resolvida, independente do que a protagonista está sentindo). E, talvez, quem assistir ao trailer desse filme, possa vir a se frustrar um pouco em relação sobre o que esperar - sim, a produção possui cenas hilárias, mas a trama não segue esse caminho em todo seu percurso. Não chega a ser um problema de fato pois, alinhando bem a expectativa, o resultado é bem satisfatório.
Outro destaque do elenco é Tavinho Teixeira (do filme "Carro Rei") que, ao contrário da atuação de Bonoba, aqui meio que se coloca como antagonista - não na ideia de vilão, mas de "caos ambulante" (num contraste digno de chuchu e jiló) -, com bastante expansão de gestos, caras e bocas, além de presença cênica marcante. O diálogo sobre Stanley Kubrick (1928-1999) é um dos pontos altos do texto e não teria o mesmo efeito se um ator menos capaz o dissesse... Além disso, também tem as cenas do tal filme fictício que está sendo rodado, fazendo com que o ator tenha que interpretar AQUELE personagem ator interpretando um outro personagem, o que, por si só, é bem difícil, mas funciona que é uma beleza - e pelo tom de voz e estilo de atuação, a audiência pode sacar rapidamente em qual ator brasileiro esse personagem tresloucado é inspirado...
O que não é, de fato, satisfatório no filme? Algumas cenas se alongam além do ponto, criando algumas "barrigas" na narrativa - em muitos momentos, por conta de sua proposta de equilibrar drama e comédia, a história pára no intuito de mostrar instantes de reflexão. Talvez isso seja resultado de gerar uma minutagem da versão final da produção (pouco menos de uma hora e meia) e apresentá-la como longa-metragem em festivais (e não como média-metragem, formato que tem pouca visibilidade no cinema brasileiro). Independente da motivação, fica aquela sensação de "já entendi, vai pra outra cena"...
Sobre o elenco, Noá Bonoba (também de "Estranho Caminho") faz parte do centro de atenção e encara um tipo de comédia que é muito difícil de executar: o da personagem que não é expansiva em movimentos e nem fala alto, quase minimalista em termos de performance. Puxando pela memória, quantas personagens fogem desse estereótipo nas comédias brasileiras? A atuação de Bonoba aliada à direção e confiança no roteiro de Parente geram momentos que são de desopilar o fígado e também de se compadecer com a via crucis da protagonista (provavelmente, dessa ideia veio o título do filme, emprestado do clássico livro de João Cabral de Melo Neto, 1920-1999). Porém, em algumas (poucas) cenas, esperava-se alguma expansão pois a personagem está numa performance constante, com pouquíssima alteração de expressão facial, por exemplo (para fazer justiça, existem dois momentos em que isso, de fato, ocorre) - o motivo pode ser a inspiração na produtora Ticiana Augusto Lima (porém, para quem não a conhece pessoalmente, fica com cara de "piada interna" ou de personagem pouco interessante para ser uma protagonista, independente da proposta ser exatamente essa).
(curioso como o filme trabalha as questões de gêneros de seus personagens em relação ao elenco escalado: Noá Bonoba é uma pessoa LGBTQIAPN+ e dá vida a uma mulher grávida, sendo que a versão infantil de sua personagem é interpretado pelo ator mirim Raul Lôbo e seu filho recém-nascido é vivido por Olívia Maria Pocã, a quem o filme é dedicado - e antes que alguém reclame a mão para reclamar dessas escolhas, o filho recém-nascido do casal Richards no recente "Quarteto Fantástico - Primeiros Passos" também foi interpretado por uma menina e ninguém nem notou...)
(curioso como o filme trabalha as questões de gêneros de seus personagens em relação ao elenco escalado: Noá Bonoba é uma pessoa LGBTQIAPN+ e dá vida a uma mulher grávida, sendo que a versão infantil de sua personagem é interpretado pelo ator mirim Raul Lôbo e seu filho recém-nascido é vivido por Olívia Maria Pocã, a quem o filme é dedicado - e antes que alguém reclame a mão para reclamar dessas escolhas, o filho recém-nascido do casal Richards no recente "Quarteto Fantástico - Primeiros Passos" também foi interpretado por uma menina e ninguém nem notou...)
Outro destaque do elenco é Tavinho Teixeira (do filme "Carro Rei") que, ao contrário da atuação de Bonoba, aqui meio que se coloca como antagonista - não na ideia de vilão, mas de "caos ambulante" (num contraste digno de chuchu e jiló) -, com bastante expansão de gestos, caras e bocas, além de presença cênica marcante. O diálogo sobre Stanley Kubrick (1928-1999) é um dos pontos altos do texto e não teria o mesmo efeito se um ator menos capaz o dissesse... Além disso, também tem as cenas do tal filme fictício que está sendo rodado, fazendo com que o ator tenha que interpretar AQUELE personagem ator interpretando um outro personagem, o que, por si só, é bem difícil, mas funciona que é uma beleza - e pelo tom de voz e estilo de atuação, a audiência pode sacar rapidamente em qual ator brasileiro esse personagem tresloucado é inspirado...
O restante do elenco está bem funcional, representando bem como funciona um set de filmagem, com piadinhas acerca de acontecimentos anteriores ou fofoca em outras produções, além do chamado ao profissionalismo quando necessário. O momento em que todos os personagens cantam um pedacinho da seminal letra da canção "Porto Solidão" (imortalizada na voz do saudoso cantor Jessé, 1952-1993) mostra que, apesar dos diversos problemas enfrentados, as diferenças entre cada um deles não são levadas para o campo pessoal ao final da jornada - outro momento impossível de não cantar junto.
Na parte técnica, a direção de fotografia comandada por Ivo Lopes Araújo (de "Bacurau") - aliada à montagem do próprio Guto Parente, Taís Augusto e Ticiana Augusto Lima (ambas também de "Estranho Caminho") - trabalha bem as propostas narrativas, tanto no filme fictício (com boas tomadas em branco e preto, para emular a captação antes da aplicação de cor na parte da edição) quanto na "realidade" dos personagens, ora em momentos de agitação - em tom quase documental -, ora em cenas mais contemplativas, com bom estabelecimento de blocagem visual. Um belo trabalho que merece reconhecimento na temporada de premiações.
Também impressiona a direção de arte de Taís Augusto, a maquiagem e penteado de Elen Barbosa (do recente filme "O Shaolin do Sertão 2") e o figurino criado por Thaís de Campo (sim, também de "Estranho Caminho"), principalmente nas cenas do fictício filme de ficção científica, que exigem maquiagem pesada - ao estilo "Guardiões da Galáxia", por exemplo -, cenários peculiares e trajes bem fora do comum, gerando um resultado bem harmônico na telona.
Seria bem injusto não mencionar a trilha sonora original (e mixagem) de Paulo Gama (de filmes como "Reza a Lenda", "Motorrad", "Aumenta Que É Rock'n'Roll" e da cultuada série "Pico da Neblina"), que traz um bom equilíbrio entre cenas de contemplação de personagens, intensificação de um perigo iminente e até mesmo o já citado tédio da espera num set de filmagem, com bom uso de percussão e instrumentação "atmosférica", num resultado bem elegante e funcional.
"Morte e Vida Madalena" é um filme de baixíssimo orçamento, mas não é nada ridículo no que entrega. Na verdade, é um belíssimo exemplo de que, com iniciativas que pensam fora da caixinha, o cinema brasileiro pode, sim, contar histórias que se diferenciam das demais e até se destacar em meio ao mar de mesmice que é propagado desde, bem, desde sempre, entretendo cinéfilos de carteirinha, curiosos sobre produção cinematográfica e a quem quer assistir a um bom filme, independente do país em que foi produzido. Assista numa sala de cinema pois esse vale cada centavo do caro ingresso...
Kal J. Moon é sagitariano como Ridley Scott, Woody Allen e Spielberg, mas já ouviu bastantes canções de Jessé em momentos de fossa...
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"Morte e Vida Madalena" é um filme de baixíssimo orçamento, mas não é nada ridículo no que entrega. Na verdade, é um belíssimo exemplo de que, com iniciativas que pensam fora da caixinha, o cinema brasileiro pode, sim, contar histórias que se diferenciam das demais e até se destacar em meio ao mar de mesmice que é propagado desde, bem, desde sempre, entretendo cinéfilos de carteirinha, curiosos sobre produção cinematográfica e a quem quer assistir a um bom filme, independente do país em que foi produzido. Assista numa sala de cinema pois esse vale cada centavo do caro ingresso...
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