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    sábado, 27 de janeiro de 2018

    CRÍTICA [CINEMA] | "Todo O Dinheiro do Mundo", por Kal J. Moon

    Dirigido pelo veterano Ridley Scott, estrelado por Michelle Williams, Mark Wahlberg, Charlie Plummer e participação especial de Christopher Plummer, "Todo O Dinheiro do Mundo" é mais um filme sobre sequestro e ganância? Bem, vamos descobrir...

    A misteriosa efígie da soberba
    Há quem diga que o diretor Ridley Scott já deveria ter se aposentado de suas funções há anos. Quem somos nós para julgar se esta afirmação está correta ou não mas não vemos ninguém falando algo sequer parecido a respeito de Spielberg, por exemplo - mesmo que este tenha entregue filmes bem auto-indulgentes nos últimos anos) - ou de Tim Burton, que tem errado feio e rude há bastante tempo. Scott tem se distanciado gradativamente do esquema formulaico de fazer cinema em prol da experimentação. Nada contra. Algumas vezes acerta ("Gladiador", "Falcão Negro em Perigo"), outras erra ("Um Bom Ano", "Prometheus") e certas vezes simplesmente cria filmes "okay", sem assinatura ou personalidade marcante (como em "Perdido em Marte"). Mas a obra de Scott não deixa ninguém impassível. Cada lançamento seu gera muita expectativa - nem sempre correspondida, é verdade. Mas é bem possível que Scott esteja se cansando. Para o bem ou para o mal, "Todo O Dinheiro do Mundo" entra para o nada agradável rol dos filmes mais "okay" do diretor. E isso nunca é bom...

    Inspirado na história real do sequestro do adolescente John Paul Getty III (Charlie Plummer), neto do magnata americano do petróleo John Paul Getty (Christopher Plummer), que aconteceu na Itália em 1973. A trama narra as tentativas desesperadas de sua devota mãe (Michelle Williams) em convencer o patriarca da família (Plummer) a pagar a grande quantia exigida para o resgate. Quando ele se recusa, ela tenta influenciá-lo - com o auxílio de um ex-agente secreto e funcionário de Getty (Wahlberg) -, enquanto os sequestradores de seu filho se tornam cada vez mais inflexíveis e brutais.

    Vale lembrar que, sim, "Todo O Dinheiro do Mundo" é aquele filme que era estrelado por Kevin Spacey no papel de John Paul Getty e que, por conta das denúncias de assédio sexual contra o ator, o mesmo foi substituído - independente do trailer já ter sido lançado com o nome de Spacey atrelado ao elenco e algumas cenas com ele - por Christopher Plummer (que acabou indicado ao Globo de Ouro e ao Oscar 2018 por seu trabalho - o que não deixa de ser uma senhora esnobada nesta última premiação, assim como ao filme em si, que não foi indicado a nenhuma outra categoria, embora merecesse). O filme estava já na pós-produção quando a notícia do escândalo surgiu e Scott resolveu refilmar todas as suas cenas, contratando Plummer e, de certa forma, mudando o tom e a narrativa da película. Percebe-se isso por conta do protagonismo de Michelle Williams - o que é de se estranhar após toda a campanha de marketing apontando o trabalho - a princípio de Spacey - de Plummer como chamariz do filme.

    O grande problema de "Todo O Dinheiro do Mundo" é o roteiro blasé escrito por David Scarpa - do medonho reboot de "O Dia Que a Terra Parou" - que, por sua vez, é baseado no livro escrito por John Pearson e conta uma história real. Mesmo dando descontos em relação à época em que se passa a trama, muitas questões - que mais parecem problemas de estruturação de roteiro do que fidelidade aos fatos - vêm à mente enquanto se assiste o filme. O personagem Fletcher Chase - interpretado no automático por Mark Wahlberg - é anunciado e descrito em diversos momentos como ex-agente secreto e especialista em negociações com pessoas instáveis e difíceis como sheiks do petróleo e terroristas. Mas, aos poucos, a personagem vai ficando sem funções, tendo seu espaço ganho pela personagem Gail Harris - interpretada com garra e determinação estupenda por Michelle Williams, que merecia pelo menos uma indicação ao Oscar por sua atuação. Até mesmo a melhor ideia de barganha com os sequestradores vem dela - quando deveria ter vindo dele, uma vez que era expert no assunto, certo?

    (OK, tem UMA cena que contraria tudo o que disse, mas pareceu mais o efeito do desespero da personagem de Wahlberg do que um real negociação)

    Algumas outras situações mostradas na trama beiram o absurdo, como sequestradores ficarem MESES com o sequestrado sem se chegar a um acordo ou assassinar a vítima e os peritos forenses italianos não serem capazes de distinguir o cadáver de um jovem e de um homem de meia idade, tendo de ouvir o óbvio da boca da mãe da vítima. Além disso, o roteiro tem diálogos irritantemente expositivos, traduzindo instantaneamente o que é dito em italiano - não importa o que seja -, feito exclusivamente para quem não domina o idioma (mais ou menos como vemos em muitas novelas televisivas - porém o recurso só é válido se o que é dito fosse algo imprescindível à trama e não alguns impropérios).

    Por conta disso, "Todo O Dinheiro do Mundo" exigiu de Scott um tipo de direção em algo que ele não é hábil: a direção emocional de atores. Scott é conhecido por conceber imagens grandiosas, criação de mundos inexistentes mas perfeitamente críveis. Porém, aqui ele tem três núcleos narrativos bem bidimensionais para desenvolver a contento. O resultado, como disse, é "okay" mas nada realmente memorável ou efetivamente emocionante - exceto pela performance e entrega de Williams, que defende seu papel como quem depende disso para sobreviver. O espectador não chega às lágrimas ao desenlace dessa conturbada história, mesmo que esteja tenso desde o início - e se essa foi a intenção, desculpe, mas o projeto já nasceu errado.
    Kevin Spacey sob pesada maquiagem no papel
    de J. Paul Getty antes de ser substituído (Divulgação)
    Outro problema foi a escalação de Christopher Plummer para substituir Kevin Spacey. Este último utilizou uma pesada maquiagem e próteses para ajudar na sua composição da personagem. Mesmo que em poucos segundos de exibição naquele trailer, vemos um Getty exausto, direto, impaciente mas, de alguma forma, com um charme que trazia uma aura humana à sua personalidade - do falso, extraiu-se o humano, demasiado humano. Plummer mais parece um velho resmungão (e "pão duro"!), uma caricatura, do que um personagem complexo - até porque não se tem muito dele em cena para que possamos decifrar o enigma do bilionário viciado em comprar obras de arte em vez de usar o dinheiro para viver ou salvar a vida do neto sequestrado. Pode até ser que tentou-se dar uma aura do protagonista de "Cidadão Kane" ao Getty interpretado por Plummer. O problema é que, mesmo sendo duro de admitir frente a tudo que sabemos, o talento de Spacey fez muita falta a esse filme - compare a cena no trailer onde Spacey responde que não vai pagar nada pelo resgate de seu neto com o que foi entregue por Plummer na cena finalizada e você vai entender o que quero dizer.

    Já a estranha química entre Charlie Plummer e Romain Duris foi uma grata surpresa. Charlie é neto na vida real de Christopher Plummer e interpreta o neto sequestrado de Getty, inicialmente um "bon vivant" e depois uma vítima real de tortura psicológica por conta dos maus tratos que sofre. Duris interpreta o sequestrador Cinquanta, que serve de contraponto à violência exercida por seu bando, compadecendo-se do rapaz em alguns momentos, entregando um ~"bandido de bom coração" (na cabeça dele, claro), oferecendo-lhe algumas chances em situações onde não havia saída lógica.

    A direção de fotografia comandada por Dariusz Wolski (do recente "Alien: Covenant", um dos melhores e mais bonitos filmes de 2017) cria ambientes bem interessantes visualmente, iniciando em branco e preto - rememorando o cinema de Fellini -, passando pelo sépia para, delicada e astutamente, embotar uma película com ar "lavado", com matizes de cor muito bem escolhidas em cada take para emular a emoção descrita nas cenas - repare na cena do trem no deserto. Aliado a isso está a edição da veterana Claire Simpson (Ganhadora do Oscar por seu trabalho em "Platoon"), principalmente no terço final, conferindo tensão e dinamismo à diversas sequências com maestria - mesmo que pudesse cortar uma boa meia hora do copião (o filme tem pouco mais de duas horas mas parece beirar as três horas de duração). Já a trilha sonora composta por Daniel Pemberton (do recente "Rei Arthur: A Lenda da Espada") é confusa e nada agradável, alternando momentos criados com o auxílio de música clássica com orquestrações sem o menor carisma - que só funciona efetivamente no terço final.

    Embora "Todo O Dinheiro do Mundo" tenha lá seus méritos - mostrando o preço pago pela soberba humana numa época em que ser rico justificava suas ações - não deve fazer o sucesso esperado que recompense todo o esforço para levar este filme às telonas. Mas ficará perfeito após aquela edição marota ao ser exibido na sessão de filmes de sábado à noite na TV aberta. Ao final, vale pela estimulante e convincente performance de Michelle Williams, além do belo visual proporcionado pela competente direção de fotografia.




    Kal J. Moon ainda está curioso para saber como era a versão do filme estrelado por Spacey. Mas, possivelmente, essa versão nunca será exibida.
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    1 comentários:

    1. A trilha sonora é parte importante dos filmes, por que dá uma atmosfera com a que captura o espectador, poucos reconhecem o grande trabalho que se faz com a música dos filmes. Daniel Permmont ele faz um excelente trabalho com música. Sem dúvida, este tem sido um filme reconhecido seu profissionalismo levou a fitas de sucesso como: filme Rei Arthur 2017, aeguramente o êxito de deve-se a o trabalho com as músicas é impressionante, cuidando cada detalhe. É uma produção espetacular.O roteiro do filme foi muito original, um dos aspectos mais notável desta produção foi a trilha sonora.

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