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    quarta-feira, 24 de outubro de 2018

    CRÍTICA [CINEMA] | "O Doutrinador", por Kal J. Moon

    Dirigido por Gustavo Bonafé e Fábio Mendonça - baseado na história em quadrinhos criada por Luciano Cunha -, estrelado por Kiko Pissolato, Tainá Medina, Eduardo Moscovis, Carlos Betão e grande elenco, "O Doutrinador" mostra o que acontece quando um herói de gibi adquire consciência política.


    Animal selvagem
    Durante uma palestra num evento de quadrinhos e afins no RJ, Luciano Cunha contou um pouco sobre a produção do filme "O Doutrinador". Disse que ele e a equipe de roteiristas decidiam sobre uma cena que geraria bastante polêmica e se deveriam mantê-la no corte final. Uma das roteiristas alegou que ~"ia dar m&rd@" se mantivessem a cena. Ao passo que Cunha respondeu: "MAS É PRA DAR M&RD@!". Daqui a pouco voltamos a isso.

    Personagens de quadrinhos voltados à vertente política não é nenhuma novidade. Anarquia - da galeria de vilões do Batman - e o terrorista vestido como Guy Fawkes de "V de Vingança", são os primeiros que vêm à mente. Este último, bem conhecido por conta de manifestações pelo mundo. E nos quadrinhos brasileiros temos O Doutrinador. Não importa se ele é de direita, esquerda, centrista, "coxinha" ou "mortadela". Ele mata políticos corruptos sem dó nem piedade. E o filme não poderia ser diferente.

    Na trama, Miguel (Kiko Pissolato), um agente federal altamente treinado que vive num Brasil cujo governo foi sequestrado por uma quadrilha de políticos e empresários até que uma tragédia pessoal o leva a eleger a corrupção endêmica brasileira como sua maior inimiga. Com a ajuda da hacker Nina (Tainá Medina), ele começa a se vingar da elite política brasileira como o vigilante O Doutrinador em pleno período de eleições presidenciais, numa cruzada sem volta contra a corrupção.

    O filme tem bastantes cenas de ação que funcionam bem (umas muito bem produzidas e outras nem tanto assim) e a direção de fotografia de Rodrigo Carvalho - aliada à edição de Federico Brioni - mimetiza bem uma narrativa vista nos gibis, digo, nas histórias em quadrinhos.


    A trilha sonora funcional do Instituto - misturada a canções de diversos estilos como rock ("Black Hole Sun", Soundgarden) e rap ("Brasil com P", GOG com participação de Karol Conka) - traz o clima correto à produção. Aliás, começar o filme com esta última foi lance de gênio mas não terminar o filme com "Dig, Dig, Dig" (Planet Hemp) - cujos versos dizem que "político safado tem que tomar tiro na testa" - foi uma oportunidade desperdiçada (ou uma escolha da produção para não 'compactuar' com a violência do personagem, vai saber...?).

    Mesmo nos quadrinhos que deram origem ao filme, o personagem tem muito do Justiceiro (Marvel). E aqui não poderia ser diferente. Uma tragédia envolvendo parte de sua família - e a falha no sistema público de saúde que o impedem de salvar seu ente querido - criam o estopim que serve de motivação para que Miguel torne-se O Doutrinador, um sociopata que está determinado a matar a todos os políticos de sua lista de corruptos.


    Mas o filme deixa bem claro que todas as pessoas que estão ao redor do personagem - mesmo quem o ajuda - não concorda com suas atitudes extremistas. Faltou ouvir a população, faltou um take de uma enquete na TV, onde poderíamos ver opiniões polêmicas como "bandido bom é bandido morto" ou o extremo oposto, dizendo que não é bem assim - há um breve comentário dizendo que o personagem tornou-se popular mas...

    Existem algumas cenas de cunho dramático que são bem construídas - pelo menos duas podem dar aquele nó na garganta, como quando Miguel tem de explicar a sua ex-esposa o que aconteceu à filha do casal ou quando a cena final - o ápice do filme - está prestes a acontecer.


    Vamos falar do elenco. Tainá Medina está bem como a hacker Nina embora a personagem tenha exagerado um pouco no excesso de palavrões (parece que "nem f*dendo" era até um bordão, de tanto que ela repetiu isso), ainda que sua personagem tenha um passado que não foi tão bem explorado na trama. Natália Lage e Carlos Betão envergam suas personagens com dignidade. Ela como a ex-esposa de Miguel, mostrando o outro lado de uma família destruída, revelando parte da psiquê de seu ex-marido que ninguém percebe até que ela verbalize. Ele como um político corrupto - como a maioria nessa história - dono de fazendas de gados (sacou a referência?) que controla um esquema de falcatruas para se eleger como Presidente da República. Mesmo que resvalha na caricatura - o restante dos políticos em cena mais parecem saídos de novelas como "O Bem-Amado" ou "Velho Chico" -, é, talvez, quem se salve por conta de ter um arco mais completo. Destaque também para Eduardo Chagas, que vive o capanga Oliveira, personagem que vive nas sombras mas tem toda uma expressividade digna das melhores histórias escrita por Nelson Rodrigues - ou por Frank Miller! - e que deveria ter mais momentos em cena - e um desfecho melhor trabalhado.

    Kiko Pissolato não é carismático nem empático. Ele deveria ter tido um trabalho de direção de atores mais dedicado, indicando algumas dicotomias em determinadas cenas, para que ele alcançasse a reação correta. OK, ele é bom nas cenas de ação - muitas delas desempenhadas por ele mesmo - mas não "alcança a nota" quando se exige um pouco mais dramaturgicamente falando (isso nem é culpa do roteiro, uma vez que o filme entrega essas cenas).

    O roteiro - escrito por Mirna Nogueira, LG Bayão, Rodrigo Lages, Denis Nielsen e Guilherme Siman (com supervisão de George Moura) - tem algumas ideias bem interessantes mas se perde com muitas facilitações ao protagonista, sem uma explicação convincente e muitas exposições desnecessárias (uma vez que o filme, definitivamente, não é destinado ao público infanto-juvenil - apesar de haver apelo para tal). Porém, a cena final - e suas ramificações e possibilidades - faz com que o filme termine numa nota positiva, que alguns dirão que é gratuita e irresponsável mas outros dirão que é pura ousadia. Prefiro dizer que é uma escolha arriscada de roteiro mas perfeitamente plausível perante ao que é mostrado na trama.

    O filme também é deveras longo, onde um corte de pelo menos uma boa meia hora, retirando algumas situações desnecessárias, trariam frescor à trama.


    [ATENÇÃO - ALERTA DE SPOILER]

    O PARÁGRAFO SEGUINTE CONTÉM POTENCIAIS SPOILERS REFERENTES À TRAMA DO FILME E ISSO PODE COMPROMETER SUA DIVERSÃO, CASO LEIA ANTES DE ASSISTIR! PROSSIGA POR SUA PRÓPRIA CONTA E RISCO! (Para ler, selecione o parágrafo seguinte com o mouse. Para não ler,  faça como O Doutrinador na foto acima e pule para o parágrafo seguinte...)


    Muitas situações mostradas no filme não foram bem trabalhadas ou são apresentadas de forma bem equivocadas. Alguns exemplos: O Governador do Estado é morto por um extremista e várias pessoas ligadas a ele também mas seus correligionários não fazem nada para aumentar seu efetivo de segurança nem demonstram estar apavorados por que mesmo, hein? Alguém descobre onde a hacker Nina, comparsa do Doutrinador, trabalha, COMETE UMA CHACINA e qual a primeira coisa que ela faz? Corre para onde o Doutrinador está escondido, sem pensar que pode estar sendo seguida! (EU TERIA ME MUDADO DO ESTADO!) Isso após uma cena onde mostra que ela já tinha cometido uma burrice de deixar dados importantes que poderiam incriminá-la GRAVADOS NO PRÓPRIO CELULAR... A coisa mais inteligente que alguém pode dizer para outra pessoa no meio de um tiroteio é que se levante e corra para bem longe. NO MEIO DE UM TIROTEIO?! Todas as equipes de segurança que aparecem no filme é completamente inútil, não existe NINGUÉM que possa fazer frente numa luta corporal com o protagonista...

    [FIM DO ALERTA DE SPOILER]

    Lembra da tal cena polêmica que falei no segundo parágrafo? Pois é, ela ESTÁ no filme - e se você leu os quadrinhos originais, sabe que é AQUELA CENA que se passa no Congresso Nacional (e acho que "vai dar m&rd@"). E esta cena, por mais duvidosa que possa parecer, acaba elevando o nível da trama, gerando empatia pela jornada do personagem, encerrando numa nota positiva.

    Mesmo com alguns problemas, "O Doutrinador" está longe de ser um filme ruim. Cumpre o papel de entretenimento e ainda tem a seu favor criar argumento suficiente para uma saudável e civilizada discussão política ao final da exibição - sério, TODOS na sessão em que estive começaram a debater sobre o aspecto político do roteiro - onde o público verá nas telas muito da indignação do povo brasileiro. Em tempos polarizados como os que vivemos, nada pode ser melhor do que isso...



    Kal J. Moon assistiu, comeu mariola e quer ver uma série de TV contando as origens do personagem Oliveira...
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