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    quinta-feira, 8 de novembro de 2018

    CRÍTICA [CINEMA] | "Um Amor Inesperado", por Kal J. Moon

    Destaque no Festival do Rio 2018, dirigido por Juan Vera, estrelado por Ricardo DarínMercedes Morán, "Um Amor Inesperado" reflete sobre o amor depois do "até que a morte os separe".

    "Aquela tal liberdade"
    Há quem diga que Ricardo Darín não faz filme ruim. Independente de ser verdade ou não, há de se convir que o cultuado ator argentino tem escolhido projetos cada vez mais acertados, com papéis que se encaixam como uma luva, entregando sempre personagens que tem mais a dizer do que está escrito no roteiro. E as fãs de Darín não terão do que reclamar sobre "Um Amor Inesperado", não apenas pela entrega de Darín, mas por ele dividir o protagonismo com Mercedes Morán - do recente "Sueño Florianópolis", também presente na programação do Festival do Rio - e fazer uma verdadeira parceria de atuação.

    Na trama, vê-se a história de um casal que está prestes a mudar para sempre o rumo de suas vidas. Unidos há mais de vinte e cinco anos, Marcos (Ricardo Darín) e Ana (Mercedes Morán) se questionam profundamente sobre o amor, a natureza do desejo e a fidelidade. Assim, atravessam uma crise existencial que acaba levando-os à separação. No princípio, o novo cotidiano dos solteiros parece fascinante, mas aos poucos a coisa se torna monótona para Ana , ao mesmo tempo em que Marcos se vê no meio de um verdadeiro pesadelo.

    O mais interessante sobre o roteiro - escrito por Daniel Cúparo e o próprio diretor Juan Vera -  é que ele explora sem delongas o que ocorre a um casal num relacionamento amoroso estável após a saída do único filho de casa (que, aparentemente, era quem unia o casal). O marasmo e o insuportável conforto de uma vida sem preocupações acaba se instalando como um desagradável perfume de odor agridoce. O real problema do casal se dá quando percebem que sua relação não tem mais mistério, aventura, sedução ou novidade para seguir em frente - proposta que conversa bem com "El Amor Menos Pensado", título original do filme.

    A expertise da trama é se aprofundar no assunto sem soar piegas ou brega em momento algum. Os personagens têm diversas camadas e, mesmo que tenham mudado no percurso da trama por conta das novas experiências que cada um deles passam a viver longe após cerca de três anos de separação, ainda continuam essencialmente os mesmos, porém diferentes daquele momento de marasmo depois de 25 anos de casamento.


    Ainda que seja um assunto sério e até mesmo delicado, existe espaço para um sensato bom humor, em cenas engraçadas como o pior encontro da História da Humanidade (protagonizada por Darín) ou a esquisitice de uma transa regada a perfumes exóticos e absinto (protagonizada por Morán).

    A química entre Morán e Darín é perceptível, palpável e premente, fazendo-nos acreditar que ambos já tiveram uma história juntos que não assistimos. O casal de protagonistas está muito bem - assim como todo o elenco - entregando uma atuação impecável, onde Darín mostra que seu personagem é racional e sensível - até em momentos bem sutis, como quando está digitando num chat ou quando perguntado sobre um assunto do qual não tem certeza da resposta -, e Morán, mesmo em momentos de aflição, é a serenidade em pessoa.

    Mas existe espaço também espaço para cenas de ternura e compaixão - uma delas inacreditavelmente emocionante ao som de uma canção do saudoso cantor brasileiro Wando.

    Em diversos momentos, têm-se a impressão de estar assistindo uma peça de teatro, tamanha a profusão de diálogos e a postura do elenco em algumas cenas - lembrando o que foi feito em "Pequeno Dicionário Amoroso", filme brasileiro dirigido por Sandra Werneck - além da sagacidade e inteligência dos personagens (dom que os separou e também os atraem). É bem satisfatório notar que os personagens evoluem de acordo com as experiências que participam mas, no fim das contas, continuam os mesmos, porém irreversivelmente afetados pela carga emocional que passaram. Os protagonistas se redescobrem - ela na dança, ele se reavaliando -, sendo pessoas melhores do que quando começaram a contar essa história.

    Um filme sóbrio acerca da permissividade das relações humanas, para se assistir sem atropelos e preparando-se par refletir como será depois do "e viveram felizes para sempre".




    Kal J. Moon é divorciado, não usa Tinder e não tem inveja de quem acredita no amor eterno enquanto dure. O importante é ser feliz...
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