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    quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

    CRÍTICA [CINEMA] | "Os Oito Odiados", por Kal J. Moon


    "Você assistiu 'Os Oito Odiados'? Tarantino tá ficando maluco, isso sim! Que filme doido!!", disse-me um senhor na fila do banheiro após a exibição do novo filme do diretor de "Pulp Fiction".

    E o pior é que, talvez, esse senhor esteja coberto de razão...

    Menino mimado

    A trama oficial de "Os Oito Odiados" conta que uma diligência, levando o caçador de recompensas John Ruth (Kurt Russell) e a fugitiva Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), segue à cidade de Red Rock, onde ela será entregue à justiça. No caminho, encontram o Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson), ex-soldado da União que se tornou mercenário, e Chris Mannix (Walton Goggins), sulista que acredita ser o novo xerife da cidade por direito. Por conta de uma forte nevasca, buscam refúgio num abrigo nas montanhas. Lá, encontram Bob, o mexicano (Demian Bichir) encarregado do local enquanto a dona visita a mãe; o carrasco de Red Rock, Oswald Mobray (Tim Roth); o caubói Joe Gage (Michael Madsen) e o General Sandy Smithers (Bruce Dern) um confederado. Enquanto a nevada não lhes dá trégua, os viajantes vão descobrir muito mais do que eles imaginam - mas o espectador pode simplesmente esquecer tudo e deixar-se levar pelo canhestro roteiro dirigido por Quentin Tarantino enquanto tenta (em vão) entender do que, de fato, se trata essa história.

    Em mais um texto sangrento ambientado no Velho Oeste - possivelmente nas mesmas paragens onde se passava a história de "Django Livre" porém anos depois -,  esta é, talvez, a mais teatral das histórias 'tarantinescas' desde "Cães de Aluguel".

    Temos humor - às vezes, certeiro; muitas vezes, involuntário -, longos monólogos, solilóquios, prosódia musical em cada fala, um só cenário com até mesmo um momento musical (!) e a completa certeza de que não há um protagonista - pelo menos, no sentido original da palavra.


    O texto é praticamente inclassificável e uma mistura de vários gêneros, quase uma comédia de erros, quase humor negro - com direito a MUITOS momentos que beiram o 'splatter' (e com isso, o escatológico) - quase western, quase drama . E a palavra em questão para definir é essa: "quase".

    Ao início da projeção, Tarantino tem o público em suas mãos. Guia-o por onde quer, direciona o olhar do espectador como bem deseja e, apesar do ritmo mais lento e de, inicialmente, abrir mão de sequências de ação, QUASE nos faz acreditar que "Os Oito Odiados" seria um filme inteiramente resolvido pelo poder dos diálogos. Mas todo mundo sabe, pelo menos uma vez na vida, quando está sendo enganado.

    "Os Oito Odiados" tem alguns - poucos - momentos de criatividade textual, acerta ao levantar questões ainda atuais como o racismo, dedica UMA cena que até poderia render uma indicação de Samuel L. Jackson ao Oscar - com chances de levar, se não fosse o desnecessário e nada criativo encerramento da mesma - mas atrapalha-se numa grandiosidade que, na verdade, não é lá grande coisa.

    Temos um elenco esforçadíssimo - com óbvio destaque ao já citado Jackson, o grande Bruce Dern, Jennifer Jason Leigh e, claro, Tim Roth (apesar de parecer uma versão genérica de Christoph Waltz) e uma bela fotografia, em determinados momentos. Mas nem todo esforço humano pode salvar um texto mal desenvolvido. Existe um abismo entre ideia e uma boa execução. A regra universal de que menos é mais deveria ter sido aplicada para preservar essa ideia.


    O grande problema é quando se exagera na tinta. E Tarantino tem cometido esse erro com uma constância talvez irrecuperável, como se batesse o pé e quisesse provar ao mundo que está certo. Mas ninguém consegue enganar todo mundo o tempo todo.

    O público que curte o cinema que Tarantino ajudou a popularizar não está preocupado com a forma pois já está acostumado a ser desafiado. O mais importante é o conteúdo. Esse é constantemente valorizado por todos.

    E não adianta inventar que o roteiro vazou, não adianta ameaçar largar o ofício, não adianta espernear, fazer beicinho e ir dormir sem jantar. Cinema é, acima de tudo, entretenimento. Vaidade não resolverá problemas de construção de uma história que deveria funcionar, se bem executada.
    E Tarantino: o público não é bobo e já sacou qual é a sua, ok? Só faça o que sabe fazer de melhor e iremos te aplaudir. De pé. Da mesma forma que fizemos ao final da exibição de "Cães de Aluguel", "Pulp Fiction", "Kill Bill" e, claro, "Bastardos Inglórios" - que, você sabe, talvez seja sua obra-prima...

    Caso contrário, teremos de dar razão ao senhor do início dessa crítica. E sem direito à reclamação. Afinal, devemos respeitar os mais velhos...



    Kal J. Moon ainda pensa se não seria uma ótima ideia Tarantino cumprir aquela ameaça de se aposentar após "Os Oito Odiados"...
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