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    quarta-feira, 8 de março de 2017

    CRÍTICA [CINEMA] | "Fome de Poder", por Marlo George


    A feia história de uma bela façanha empresarial é contada sob o ponto de vista distorcido do verdadeiro Rei dos Hambúrgueres americano em "Fome de Poder"

    "Dois hambúrgueres, alface, queijo, molho especial, cebola e picles num pão com gergelim". Seria mesmo essa a receita do sucesso da rede de restaurantes fast-food Mc Donald´s?

    Pode até ser. Afinal, essa é a receita do famoso Big Mac, cantarolada com a competência de um jingle "chiclete" em um reclame de TV dos anos 90. Esse jingle é tão bom, que até hoje, em pleno 2017, eu ainda me lembro da letra (leia-se receita) e até posso ouvir a canção nos recantos mais profundos de minha mente. Ecoando como um chamado ininterrupto à gula.

    Porém, a fortuna da Rede Mc Donald´s não é crédito apenas dessa mistura maravilhosa de ingredientes, mas também da persistência de um gênio relutante, que transformou uma pequena lanchonete do interior dos EUA em uma das marcas mais presentes do planeta. Este homem era Ray Kroc e sua vida, ou melhor dizendo, suas conquistas são contadas em Fome de Poder, novo filme do diretor John Lee Hancock.

    Não vou ficar aqui contando o filme, que tem uma trama bem previsível e curriqueira, mas preciso admitir que a decisão de fazer um longa baseado em fatos reais, ao invés de um documentário que seria o caminho mais óbvio, foi muito acertada. Apenas contando a história sob o ponto de vista de Kroc é possível enxergar o gênio por trás do monstro, o pragmatismo de suas ações escondido na sordidez de sua personalidade. Seria impossível sequer simpatizar com sua figura (muito bem representada pelo veterano Michael Keaton) se o enredo fosse documental. Ao contrário muito mais fácil seria odiá-lo, desprezá-lo. Mas o Kroc mostrado em Fome de Poder é sedutor, ouso até mesmo dizer admirável, como um pecado sutilmente sugerido por Lúcifer. Tentador.

    Filmado em locações escolhidas à dedo e que ainda mantém o espírito dos anos 50, época em que se passa o filme, tem direção de arte muito competente e fotografia interessante. O roteiro é muito bem amarrado e conta exatamente aquilo que escrevi na lide que encabeça esse texto, pois não era necessário contar nada além disso. O texto é enxuto e o longa não tem cenas desnecessárias. Tudo serve ao resultado final.

    John Carroll Lynch e Nick Offerman como os irmãos Mc Donald´s

    Mas o grande mérito de Fome de Poder está nas atuações de Michael KeatonJohn Carroll Lynch, que interpreta Mac Mc Donald. Keaton vem de um ótimo desempenho em Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) e estava bem em Spotlight: Segredos Revelados. Mantém o ritmo e entrega um trabalho acima do que eu esperava em Fome de Poder. Mas, preciso ser justo, o que há de melhor no filme é J.C. Lynch. Com poucas linhas, especialmente nos segundo e terceiro ato, o ator dá uma aula de interpretação. Preciso dizer que a figura trágica de Mac Mc Donald ajuda, mas sem competência a personagem poderia ser retratada de forma piegas, o que não aconteceu nas mãos de Lynch.

    Nick Offerman vive Dick, irmão de Mac e um dos fundadores do Mc Donald´s. A dobradinha com Lynch rende os momentos mais emocionantes da trama. Sóbrio, pouco dado à emoções, Dick é o oposto de Mac e isso transborda na telona nos momentos finais de Fome de Poder em uma das cenas mais bonitas que assisti esse ano no cinema. O filme tem ainda a participação de Linda Cardellini, B.J. Novak, Laura Dern, Justin Randell Brooke, Kate Kneeland e Patrick Wilson.

    John Lee Hancock esteve longe dos cinemas desde 2013, quando nos presenteou com o excelente e macabro Walt nos Bastidores de Mary Poppins, que sucedeu o tocante drama Um Sonho Possível de 2009. Fome de Poder é seu filme mais fraco, o que não quer dizer que seja um longa ruim. Hancock vem construindo uma carreira consistente, sempre levando ao público filmes que propõem reflexões.

    Recomendado para amantes de livros de auto-ajuda, deve desagradar quem é mais exigente em termos cinematográficos por ser básico demais. A única ousadia do filme foi pintar o diabo mais belo do que ele realmente é, ou melhor dizendo, foi.



    Marlo George assistiu, escreveu e sempre está à cantarar: "Tã, ram, tã, tã, tã...". Amo muito tudo isso.
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