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    quinta-feira, 9 de novembro de 2017

    YONLU | Diretor Hique Montanari fala sobre a concepção e desafios do filme

    "Um misto de homenagem, denúncia e lamento. Tudo feito com sensibilidade e urgência, como não poderia deixar de ser". Foi assim que nossa crítica definiu o filme "Yonlu" - escrito e dirigido por Hique Montanari, protagonizado por Thalles Cabral -, baseado na história real do jovem músico e internauta brasileiro que participava de um fórum de potenciais suicidas, onde encontrou estímulo para tirar sua própria vida. O filme estreou no Festival do Rio 2017 e recebeu, recentemente, o Prêmio ABRACCINE de Melhor Filme Brasileiro de Diretor Estreante pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo 2017.

    O roteirista e diretor Hique Montanari nos bastidores de uma das cenas do filme "Yonlu"
    (Foto: Rodrigo Marroni / Divulgação "Yonlu, o filme")
    Gaúcho nascido em 1968, na cidade de Alegrete (RS) - mas hoje residente em Porto Alegre (RS) - Hique Montanari (foto) é graduado em Publicidade - com pós-graduação (especialização) em Produção Cinematográfica -, trabalha, desde 1990, com produção audiovisual, dirigindo material publicitário, roteirizando e dirigindo muito conteúdo televisivo como séries, programas, documental e ficção, entre curtas e médias-metragens. Já dirigiu material de videoarte e experimental - que lhe rendeu alguns prêmios nacionais -, além de videoclipes. Em cinema, iniciou sua carreira como assistente de montagem, assistente de direção, montador para somente em 2009, dirigir “Fogo”, seu primeiro filme média-metragem em 35mm (em preto e branco, com duração de 21 minutos, que ganhou prêmios de melhor filme e melhor fotografia para Juarez Pavelak em festival na Argentina). "Yonlu" é sua estreia na direção e roteiro de longa-metragem.

    Conversamos com o roteirista e diretor sobre o processo sensorial, criativo e executivo para se produzir um filme tão diferente como este no Brasil. Confira...


    Poltrona POP: Como surgiu o interesse em contar a história desse jovem artista e ainda direcionar o foco do filme ao público mais jovem - algo incomum nas cinebiografias do cinema brasileiro?
    Hique MontanariO meu interesse em roteirizar 'YONLU' para longa-metragem surgiu logo no meu primeiro contato com a história, em 2006. A narrativa dos fatos era muito cinematográfica: um evento real com enredo denso, com pontos de virada, conflito, drama, um personagem riquíssimo, inusitado e trágico, artístico e criativo, com conteúdo humano, existencial, às vezes beirando o filosófico. A dualidade dessa trama, ingrediente que está no filme, é o que tensiona tanto os sentimentos: o interior e o exterior, o alegre e o triste, o baixo e o alto astral, o riso e o choro, o transparente e o turvo, o claro e o obscuro. 


    Cartaz oficial do filme "Yonlu"
    (Divulgação "Yonlu, o filme")
    Sempre tive comigo mesmo o compromisso de fazer um filme digno do YONLU, digno desse criativo, talentoso e maduro cara de tão e somente 16 anos de idade. Um cara que deixa um legado artístico que ainda hoje, 11 anos depois, ainda tem ares de vanguardista. De um cara que era apaixonado por lomografias [movimento fotográfico que utiliza câmeras automáticas de baixo custo], que era ilustrador, quadrinista, poeta, compositor, letrista, músico, poliglota, de um cara que possuía uma produção de textos intelectualizados e críticos. Um cara muito além da sua idade, um multimídia. Juntei tudo isso com a minha linha de trabalho que é de uma narrativa fragmentada, de uma desconstrução formal, de uma experimentação de linguagem, de uma estética bem marcada pela fotografia e arte. Daí, surgiu o roteiro do filme, do tratamento 1 ao 12. 

    O direcionamento ao público mais jovem foi espontâneo, visto que a aura de jovem está no âmago de toda a história real e da produção artística e comportamental de YONLU. Se um roteirista / diretor faz de 'YONLU' um filme que não dialogue e não agrade ao público jovem é porque seguiu um caminho, avalio eu, que não faz jus ao personagem título do filme. 
    Mas o filme alcança além do público jovem. Fizemos exibições que emocionaram espectadores dos 16 aos 70 anos. Portanto, acredito no potencial dramático e artístico do filme para sensibilizar todas as faixas etárias. O jovem irá se identificar, obviamente, pelo fato do filme ser essa espécie de experimento, de mergulho poético, estético e existencial no universo de um adolescente deslocado da sua época.


    PP: "Yonlu" é um filme bem diferente do que se está acostumado na cinematografia brasileira. Quanto do roteiro mesclou-se - ou mudou - entre a fase da concepção e a filmagem propriamente dita?
    Hique Montanari: 'YONLU' teve 12 tratamentos de roteiro. Cada um dos tratamentos daria quase que um filme diferente do outro. Mas, desde o primeiro tratamento em 2009, tive elementos que se mantiveram até o roteiro filmado, o de número 12 (em 2016): cenas com atores reais e em animação, linguagem fragmentada / não-linear, as cenas que são liberdades poéticas e que não se encaixam no tempo passado, presente ou futuro do filme, a fotografia com texturas bem marcantes, os videoclipes com funções narrativas, o uso da música de YONLU também com função narrativa.

    Da esq. para dir.: As diretoras de arte Iara Noemi e Gilka Vargas,
    o diretor de fotografia Juarez Pavelak e o roteirista e diretor Hique Montanari
    (Foto: Rodrigo Marroni / Divulgação "Yonlu, o filme")
    Quando o filme entrou em produção, definiu-se a técnica das animações, os movimentos e o uso de câmera na mão, o uso de planos-sequências e a principal locação do filme: um grande espaço vazio no qual faríamos de estúdio, ao invés de irmos pra locações com cenários reais. Nesse espaço vazio, construímos corredores, salas, quarto, túneis, jogos de espelhos, breus, etc. Foi a partir dessa construção que surgiu a linguagem da câmera passear entre os cenários, revelando, em vários momentos, estrutura de bastidores - pontos de luz em quadro, estrutura das tapadeiras etc -, mostrando que estávamos num estúdio. E nas reuniões com as diretoras de arte (Iara Noemi e Gilka Vargas, foto), com o diretor de fotografia (Juarez Pavelak, foto), com o supervisor de pós-produção (Daniel Dode), com a empresa produtora das animações (Osso Filmes) e com o montador (Alfredo Barros) surgiu a definição de que o filme teria uma estética de “cinema analógico”. 

    PP: Embora tenha um elenco afiado, "Yonlu" tem grande parte de sua carga dramática centralizada em Thalles Cabral (foto) no papel-titulo. Como foi a escalação e a preparação dele para viver uma personagem tão única?
    Hique Montanari: Foi o Thalles que chegou primeiro na produção do filme, não o contrário. Quando ele ficou sabendo que tínhamos ganho um edital de produção de longa com 'YONLU', ele, já admirador da história, achou uma maneira de me contatar. Deixei o Thalles em stand-by, até ter clareza absoluta de que ele era o cara! Ele foi o único ator testado para o personagem de YONLU. Não precisei testar outros atores. Hoje, vendo o resultado, não imagino melhor ator brasileiro para interpretar o personagem de YONLU do que Thalles Cabral.

    O roteirista e diretor Hique Montanari observa o ator Thalles Cabral
    no intervalo de uma cena de "Yonlu" (Foto: Rodrigo Marroni / Divulgação "Yonlu, o filme")
    Precisávamos de um talentoso e criativo ator jovem que cantasse, tocasse violão, falasse em inglês, com mente aberta à proposta de um filme diferente, com segurança e capacidade de memorizar muita quantidade de texto, tanto em português quanto em inglês. O Thalles trouxe todo esse combo para o filme 'YONLU'. Todos saíram ganhando. Ele, por estrear no cinema com esse personagem tão rico e complexo, num filme nada usual. O filme, por contar com a dedicação, profissionalismo, empatia, generosidade e talento do Thalles, num personagem marcante. Para interpretar YONLU, Thalles Cabral foi preparado pela atriz Liane Venturella - preparadora de todo o elenco, além de interpretar a mãe do protagonista no filme. Liane preparou Thalles para a criação da psiquê e gestual do personagem, além de fazer um trabalho super importante que foi o do ator saber dosar a tensão, a intensidade e o tipo de sentimento para cada uma das cenas. O tom dos sentimentos do personagem - às vezes não muito acima nem muito abaixo, às vezes mais neutro - foi peça chave pra diretor e ator trabalharem as nuances de interpretação no filme. Thalles também fez preparação de inglês com a atriz e preparadora Cláudia Sachs, fez inúmeras leituras de mesa do roteiro, fora ter estudado as letras, as partituras e a execução no violão de quase todas as 13 músicas de YONLU que estão na trilha sonora do filme.


    PP: Mesmo tendo ciência que "Yonlu" não era uma produção super-privilegiada financeiramente falando, o filme se superou contando com um visual poderoso, misturando linguagens - com direito até a um balé aéreo num prédio. Como foi contornar as restrições financeiras para conseguir viabilizar o visual que o filme merecia possuir para funcionar tão bem?
    Hique Montanari: 'YONLU' é um filme de orçamento de um milhão de reais. Ou seja, um filme de baixo orçamento - sendo que existem valores ainda menores para produção de filmes. Esse valor foi dividido entre 60% do FSA / ANCINE e 40% do Pró-Cultura RS / SEDACTEL (Secretaria de Estado da Cultura, Turismo, Esporte e Lazer do RS), num edital de Arranjos Regionais do FSA.

    O ator Thalles Cabral recebendo o Prêmio Abraccine
    de Melhor Filme Brasileiro de Diretor Estreante por "Yonlu"
    (Foto: Divulgação "Yonlu, o filme")
    A otimização das filmagens para a redução do número de diárias - 20 diárias orçadas, sendo que rodamos em 18 diárias e meia -, a concentração da maioria dos cenários numa única locação, os importantes apoios culturais que o filme obteve como equipamentos de luz e maquinaria (Naymar),  ilha de edição/montagem (Talho Editores) e etapa completa de finalização (Post Frontier) foram fundamentais para driblarmos o baixo orçamento. Outro fator fundamental foi o eficaz gerenciamento de recursos pela Produtora Executiva (Luciana Tomasi, da Prana Filmes). Soma-se a otimização da técnica das animações, em acertos com a produtora Osso Filmes, para que produzíssemos um 2D bem artesanal, indo de encontro ao melhor estilo para as animações do filme.


    PP: "Yonlu" foi seu primeiro longa-metragem e já ganhou o Prêmio ABRACCINE de Melhor Filme Brasileiro de Diretor Estreante pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Quais seus próximos passos e projetos futuros?
    Hique MontanariEstou investindo em mais dois projetos de longa-metragem. Ambos estão com seus roteiros prontos e sendo inscritos em editais de produção. Um é a A História Mais Triste do Mundo”, adaptação do livro infanto-juvenil do escrito Mário Corso. Apesar do nome insinuar desolação, o livro é de uma riqueza de otimismo, de fé no melhor do ser humano, de tom inclusivo e de respeito às diferenças. O outro projeto é uma adaptação do livro “Exílio”, da escritora Lya Luft, um drama no melhor estilo dos filmes de Ingmar Bergman – intimista ao extremo, flertando com a narrativa fantástica. Era isso. Fazer cinema, mesmo com todas as adversidades, vicia!

    >>> Lembrete"Yonlu" entrará em circuito comercial das salas de cinema brasileiras no primeiro semestre de 2018. No exterior, também entrará em circuito comercial, embora não tenhamos maiores informações sobre isso. O filme ainda está e será inscrito em inúmeros festivais nacionais e internacionais de cinema, antes de se estabelecer no circuito comercial.

    Kal J. Moon agradece ao diretor Hique Montanari - em nome da Equipe Poltrona POP - por essa entrevista. E recomenda: assista o filme "Yonlu" num cinema perto de você.
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