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    domingo, 11 de novembro de 2018

    CRÍTICA [CINEMA] | "A Excêntrica Família de Gaspard", por Kal J. Moon

    Destaque no Festival Varilux de Cinema Francês e no Festival do Rio 2018 (mas entra em cartaz em 15/11/2018 nos cinemas brasileiros"), "A Excêntrica Família de Gaspard" fala sobre muitas coisas importantes como... Como o que mesmo?

    Mutatis mutandis
    Por mais que a forma como o cinema feito na Europa seja completamente desapegada do senso internacional de ritmo e narrativa ou pontos de virada, além de que as conclusões não sejam nem um pouco convencionais - afinal, não existe apenas um jeito de se contar uma história -, tudo isso é "perdoado" se a trama for bem desenvolvida, os personagens sejam cativantes o suficiente para que o espectador sinta tamanho interesse a ponto de acompanhar o espetáculo até seu encerramento e o entretenimento seja satisfatório. Porém, quando apenas um desses parâmetros é plenamente alcançado - ou nenhum deles -, temos somente uma dispendiosa perda de tempo.

    "A Excêntrica Família de Gaspard" é um filme que tenta a todo custo fugir da convenção e acaba se perdendo na virtuose de procurar uma narrativa diferenciada, que acaba se mostrando truncada, onde os objetivos da trama - além de deveras confusos - se esvaem rapidamente e o espectador termina perguntando-se por que está assistindo isso, afinal.

    Na trama, Gaspard (Félix Moati) é um jovem de 25 anos que, depois de ficar afastado por anos, se reencontra com a família para a ocasião do novo casamento de seu pai. A caminho da casa, Gaspard conhece a jovem aventureira Laura (Laetitia Dosch) e a ~"contrata" para acompanhá-lo se apresentando na festa como sua namorada. Ao chegar no lugar em que viveu, o protagonista se depara não apenas com a sua excêntrica família, mas também com as lembranças da infância num zoológico, cheio de animais exóticos, construído pelo pai.

    Apesar do plot interessante, nenhum personagem em cena é marcante para despertar o mínimo interesse pela obra em si. Nem mesmo a única digna de justificar o título de excentricidade - uma mulher adulta que veste a pele de uma ursa (e ACREDITA ser uma ursa, muito parecida com uma personagem do excelente "Capitão Fantástico") que fez parte do zoológico mantido pela família - que a versão brasileira do título do filme teima em ostentar (no original, temos o correto "Gaspard vai ao casamento", que não é original nem comercial porém 100% mais honesto com o publico).

    Curiosamente, o filme possui alguns lampejos de lucidez, como abordar momentos de insuspeita naturalidade - permitindo que parte do elenco esteja sem roupas como se houvesse realmente intimidade para tal - ou mesmo as discussões sobre a tal sonhada ~"normalidade" (o que é ser ~"normal", afinal de contas?).

    Pelos aspectos técnicos, não há muito a destacar. A direção de fotografia não é ousada nem nada mas competente e funcional, privilegiando panorâmicas - para enfatizar noções de amplitude do espaço externo - e closes - para denotar melhor as emoções evocadas pelo elenco. E ainda se utiliza bem da luz natural para captar belas cenas da natureza.

    Este é um filme sobre crescer num local alienado, sobre amor à primeira vista, sobre a permissividade humana em relação ao outro, sobre escolhas que não são tomadas por si próprios e sobre crise de identidade - e também sobre nada disso. No fim das contas, "A Excêntrica Família de Gaspard" mostra que quanto mais mudamos, mais continuamos os mesmos. Não, não é um filme ruim mas também não pode ser considerado 'bom'. Talvez 'diferente' seja mais adequado para descrevê-lo.  Indicado para assistir em dias chuvosos (quando estranhamente somos mais tolerantes), sem nenhuma expectativa e para quem totalmente abertos a novas propostas...




    Se assistir Big Brother não é nada recomendado, Kal J. Moon definitivamente não teria paciência para viver num zoo...
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