A já costumeira corrida de premiações deixa cada pessoa apaixonada por cinema meio que ansioso para assistir a todos os filmes mais ~"hypados" da temporada - por uns dois meses e que depois ninguém mais se lembra. Acontece que a grande maioria dessas produções audiovisuais são puramente descartáveis, feitas para agradar um nicho bem específico de público - de preferência, votantes das tais premiações - e, em geral, são decepcionantes em matéria de bilheteria pois não tem dinheiro para uma campanha minimamente decente de marketing para atingir a maioria das pessoas.
Mas, dentre esse mundaréu de filmes, existem pequenas pérolas, daquelas que serão estudadas em disciplinas sobre a sétima arte, laureadas em livros teóricos e, de quando em vez, relembrado nalguma retrospectiva cinematográfica em alguma pequena sala de cinema para cinéfilos que perderam a exibição em tela grande. É bem provável que estejamos diante de uma obra prima do cinema mundial. "Hamnet - A Vida Antes de Hamlet" é mais que um filme de temporada de premiações. É algo que transcende a tela e pode até ajudar as pessoas com sua singular história, humana o suficiente para emocionar, fantástica o bastante para trazer novo significado ao que já está estabelecido.
Na trama - livremente baseada no livro de Maggie O'Farrell -, Agnes é esposa de William Shakespeare (1564-1616) e luta para lidar com a perda de seu único filho, Hamnet. E esse trauma teria inspirado o velho bardo a escrever "Hamlet".
(o que esse roteiro faz em relação à questões relacionadas às crenças populares sobre pós-vida, entremeando à inocência infantil e o grande mistério do que, de fato, acontece "do outro lado do véu" é sublime pois costura tudo o que já havia sido implementado pela trama anteriormente, revelando que a dor de um ente querido por "partir" é tão grande quanto a dor da mãe num parto)
Todos os temas principais - com destaque para a maternidade em toda sua essência - são condensados para serem apreciados pela audiência de forma ampla, sem rodeios ou floreios. É fácil de entender cada mazela que atormenta a dupla de protagonistas - e se pôr no lugar de cada um deles. E o que sobrou ainda é muito potente em matéria de narrativa.
E que elenco fenomenal é esse? A temporada atual de premiações trouxe alguns filmes com elencos bem acima da média, com raríssimas exceções. Mas esse filme - ao lado de "Pecadores" e "O Agente Secreto" - tem um elenco que, simplesmente, não tem ninguém fora de tom. Ninguém. Mesmo. O destaque principal é mesmo de Jessie Buckley (do recente filme - e esnobado - "Pequenas Cartas Obscenas"), que faz de sua Agnes uma verdadeira força da natureza, um espírito livre, meio mulher, meio entidade. Será um crime se ela não ganhar o Oscar de Melhor Atriz esse ano...
Paul Mescal (indicado ao Oscar por "Aftersun") traz uma versão mais jovem do velho bardo e, por isso mesmo, mais falho e sujeito aos problemas de um casamento recém iniciado. Ainda que pouco se expresse com palavras que tragam seu real estado de espírito - o personagem até brinca, em dado momento, que não é bom em "conversar com as pessoas" -, mesmo assim convence como alguém que tem talento mas precisa ainda daquela chance para mostrar ao mundo no que é, de fato, bom.
Dentre o elenco infanto-juvenil, todas estão bem mas o real destaque - por conta da importância de seu personagem - é mesmo Jacobi Jupe (que esteve recentemente no filme "Peter Pan & Wendy"). Ele segura bem o peso dramático de uma cena muito importante no ato final da trama, mostrando que é um nome para se ficar de olho em produções futuras. Tudo o que faz é, a exemplo do que entrega Buckley em cena, resolvido em pequenos gestos e, principalmente, no olhar - curiosamente, parte de sua performance é parcialmente "dividida" com Noah Jupe (do filme "Um Lugar Silencioso" - e seu irmão na vida real, abaixo), num momento bem emocionante e singelo mas que pega o espectador totalmente desprevenido!
Todos os elogios ao extenso elenco não seriam completos sem falar da segura direção de Chloé Zhao, que, possivelmente, entregou a obra de sua vida e pela qual será lembrada. Um elenco sem uma boa direção para guiar à "visão" que a produção tem que ter transparece perdido em tela, como se cada pessoa, por mais que esteja se esforçando, não sabe direito "o caminho" - o que não ocorre aqui.
Os momentos de montanha-russa emocional são dirigidos com maestria de quem sabe exatamente o que está fazendo e o que quer em cena. Do gorjeio de amor primaveril, à intensa dor do parto, passando pelo suplício da perda de um filho (duas dores intrinsecamente interligadas, que somente pais - e, principalmente, mães, que amaram a criança primeiro - podem "alcançar") até chegar ao inconteste momento em que se entende o ciclo da vida e todas suas intempéries, tudo é feito para que a audiência tenha plena certeza de que a vida de Shakespeare foi tão conturbada quanto sua obra - mas que, mesmo assim, era algo que poderia acontecer com seu vizinho ou até mesmo com você, poltronauta.
Os momentos de montanha-russa emocional são dirigidos com maestria de quem sabe exatamente o que está fazendo e o que quer em cena. Do gorjeio de amor primaveril, à intensa dor do parto, passando pelo suplício da perda de um filho (duas dores intrinsecamente interligadas, que somente pais - e, principalmente, mães, que amaram a criança primeiro - podem "alcançar") até chegar ao inconteste momento em que se entende o ciclo da vida e todas suas intempéries, tudo é feito para que a audiência tenha plena certeza de que a vida de Shakespeare foi tão conturbada quanto sua obra - mas que, mesmo assim, era algo que poderia acontecer com seu vizinho ou até mesmo com você, poltronauta.
A trilha sonora composta por Max Richter (em sua primeira indicação ao Oscar por seu trabalho neste filme) é etérea e ambiente, nada intrusiva. Em alguns momentos, mal percebe-se que há música - ela está lá mas não da forma usual. Aconchega-se aos poucos e, aí sim, faz-se presente - percebe-se exatamente isso na já citada cena final. Suas composições são um presente a apreciadores de trilha sonora.
Muito do que essa produção apresenta também é mérito da fenomenal direção de fotografia comandada por Lukasz Zal (duas vezes indicado ao Oscar, por seu trabalho nos filmes "Ida" e "Guerra Fria") - aliada à montagem do brasileiro Affonso Gonçalves (de "Segredos de um Escândalo" e do filme brasileiro vencedor do Oscar "Ainda Estou Aqui") e da própria diretora -, pois estabelece muito do cerne da ação se movimentando da direita para a esquerda (principalmente em eventos traumáticos) para, quando chega o momento da "resolução", estabelecer tudo ao centro e finalizar o fluxo narrativo da esquerda para a direita - num belíssimo simbolismo visual de que é hora de superar o passado e seguir em frente rumo ao futuro.
O design de produção de Fiona Crombie (duas vezes indicada ao Oscar, por "A Favorita" e por esse filme), aliado à direção de arte de Emily Norris (de "A Teoria de Tudo"), Tim Blake (de "Noite Passada em Soho") e companhia - além do figurino concebido por Malgosia Turzanska (do recente "Sonhos de Trem") - dispensa o luxo para criar uma cercania bem mundana, pacífica, mas que não está livre de males como a temível Peste Negra.
Não é sempre que acontece mas o ano de 2025 trouxe pelo menos dois clássicos ao cinema. E "Hamnet - A Vida Antes de Hamlet", com certeza, é um deles. Uma experiência sensível e de emoção genuína. Um verdadeiro banquete cinematográfico. Se ganhar algum Oscar em qualquer categoria, será mais do que merecido. Assista numa sala de cinema, reflita e permita se emocionar. Acredite: vai te fazer bem...
Kal J. Moon também não é bom em conversar com as pessoas e acredita que, um dia, vai sorrir novamente sem sentir o peso do pesar...
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