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CRÍTICA [CINEMA] | "Hamnet - A Vida Antes de Hamlet", por Kal J. Moon

Indicado em oito categorias no Oscar 2026 (incluindo Melhor Filme), dirigido por Chloé Zhao, estrelado por nomes como Jessie Buckley, Paul Mescal, Emily Watson, Jacobi Jupe, Noah Jupe, Joe Alwyn e Freya Hannan-Mills - dentre outros -, o filme "Hamnet - A Vida Antes de Hamlet" é, talvez, o mais bonito (e triste!) produto audiovisual deste século.


A dor do parto (e a dor de partir)
A já costumeira corrida de premiações deixa cada pessoa apaixonada por cinema meio que ansioso para assistir a todos os filmes mais ~"hypados" da temporada - por uns dois meses e que depois ninguém mais se lembra. Acontece que a grande maioria dessas produções audiovisuais são puramente descartáveis, feitas para agradar um nicho bem específico de público - de preferência, votantes das tais premiações - e, em geral, são decepcionantes em matéria de bilheteria pois não tem dinheiro para uma campanha minimamente decente de marketing para atingir a maioria das pessoas.

Mas, dentre esse mundaréu de filmes, existem pequenas pérolas, daquelas que serão estudadas em disciplinas sobre a sétima arte, laureadas em livros teóricos e, de quando em vez, relembrado nalguma retrospectiva cinematográfica em alguma pequena sala de cinema para cinéfilos que perderam a exibição em tela grande. É bem provável que estejamos diante de uma obra prima do cinema mundial. "Hamnet - A Vida Antes de Hamlet" é mais que um filme de temporada de premiações. É algo que transcende a tela e pode até ajudar as pessoas com sua singular história, humana o suficiente para emocionar, fantástica o bastante para trazer novo significado ao que já está estabelecido.

Na trama - livremente baseada no livro de Maggie O'Farrell -, Agnes é esposa de William Shakespeare (1564-1616) e luta para lidar com a perda de seu único filho, Hamnet. E esse trauma teria inspirado o velho bardo a escrever "Hamlet".


Difícil não apontar os grandes acertos desse filme sem começar pelo seu roteiro, adaptado pela própria Maggie O'Farrell - autora do livro original - e pela diretora Chloé Zhao - vencedora do Oscar por seu trabalho em "Nomadland - Sobreviver na América". Trata-se de um primoroso trabalho de adaptação, enxugando a narrativa ao mais básico possível, transpondo com exatidão e sensibilidade às telonas o que pode ser apenas sublinhado em texto.

(o que esse roteiro faz em relação à questões relacionadas às crenças populares sobre pós-vida, entremeando à inocência infantil e o grande mistério do que, de fato, acontece "do outro lado do véu" é sublime pois costura tudo o que já havia sido implementado pela trama anteriormente, revelando que a dor de um ente querido por "partir" é tão grande quanto a dor da mãe num parto)

Todos os temas principais - com destaque para a maternidade em toda sua essência - são condensados para serem apreciados pela audiência de forma ampla, sem rodeios ou floreios. É fácil de entender cada mazela que atormenta a dupla de protagonistas - e se pôr no lugar de cada um deles. E o que sobrou ainda é muito potente em matéria de narrativa.


(o único porém desse roteiro é, próximo do final, quando alguns personagens verbalizam uma "explicação palatável" para tentar diluir o verborrágico e floreado discurso shakespeariano, a fim de que plateias que não tiveram contato com esse tipo de texto possam compreender - o problema é que é bem facilmente compreensível e não havia necessidade desse tipo de exposição num texto tão polido e bem amarrado)

E que elenco fenomenal é esse? A temporada atual de premiações trouxe alguns filmes com elencos bem acima da média, com raríssimas exceções. Mas esse filme - ao lado de "Pecadores" e "O Agente Secreto" - tem um elenco que, simplesmente, não tem ninguém fora de tom. Ninguém. Mesmo. O destaque principal é mesmo de Jessie Buckley (do recente filme - e esnobado - "Pequenas Cartas Obscenas"), que faz de sua Agnes uma verdadeira força da natureza, um espírito livre, meio mulher, meio entidade. Será um crime se ela não ganhar o Oscar de Melhor Atriz esse ano...


Toda vez que a personagem sorri, parece embevecida pela vida a seu redor, redescobrindo cada momento. Sua performance traz emoção ao público em três momentos bem específicos, um em cada "ato" (o filme é dividido em mais dos habituais três atos), sendo que a sua entrega final é algo tão belo - e sem emitir uma palavra! - que, mesmo tecendo elogios de um dicionário inteiro, seria difícil traduzir em palavras.

Paul Mescal (indicado ao Oscar por "Aftersun") traz uma versão mais jovem do velho bardo e, por isso mesmo, mais falho e sujeito aos problemas de um casamento recém iniciado. Ainda que pouco se expresse com palavras que tragam seu real estado de espírito - o personagem até brinca, em dado momento, que não é bom em "conversar com as pessoas" -, mesmo assim convence como alguém que tem talento mas precisa ainda daquela chance para mostrar ao mundo no que é, de fato, bom.


É bonito de ver que um filme finalmente tenha conseguido mostrar como é que se porta um autor em crise criativa - mesmo que pareça mais um animal selvagem e irreconhecível por sua amada. Mescal não ter sido indicado ao Oscar 2026 - na opinião desse escriba, merecia mais do que DiCaprio, que é mais coadjuvante do que ele - é um erro que somente as gerações futuras poderão reivindicar.

Dentre o elenco infanto-juvenil, todas estão bem mas o real destaque - por conta da importância de seu personagem - é mesmo Jacobi Jupe (que esteve recentemente no filme "Peter Pan & Wendy"). Ele segura bem o peso dramático de uma cena muito importante no ato final da trama, mostrando que é um nome para se ficar de olho em produções futuras. Tudo o que faz é, a exemplo do que entrega Buckley em cena, resolvido em pequenos gestos e, principalmente, no olhar - curiosamente, parte de sua performance é  parcialmente "dividida" com Noah Jupe (do filme "Um Lugar Silencioso" - e seu irmão na vida real, abaixo), num momento bem emocionante e singelo mas que pega o espectador totalmente desprevenido!


Todos os elogios ao extenso elenco não seriam completos sem falar da segura direção de Chloé Zhao, que, possivelmente, entregou a obra de sua vida e pela qual será lembrada. Um elenco sem uma boa direção para guiar à "visão" que a produção tem que ter transparece perdido em tela, como se cada pessoa, por mais que esteja se esforçando, não sabe direito "o caminho" - o que não ocorre aqui.

Os momentos de montanha-russa emocional são dirigidos com maestria de quem sabe exatamente o que está fazendo e o que quer em cena. Do gorjeio de amor primaveril, à intensa dor do parto, passando pelo suplício da perda de um filho (duas dores intrinsecamente interligadas, que somente pais - e, principalmente, mães, que amaram a criança primeiro - podem "alcançar") até chegar ao inconteste momento em que se entende o ciclo da vida e todas suas intempéries, tudo é feito para que a audiência tenha plena certeza de que a vida de Shakespeare foi tão conturbada quanto sua obra - mas que, mesmo assim, era algo que poderia acontecer com seu vizinho ou até mesmo com você, poltronauta.


A trilha sonora composta por Max Richter (em sua primeira indicação ao Oscar por seu trabalho neste filme) é etérea e ambiente, nada intrusiva. Em alguns momentos, mal percebe-se que há música - ela está lá mas não da forma usual. Aconchega-se aos poucos e, aí sim, faz-se presente - percebe-se exatamente isso na já citada cena final. Suas composições são um presente a apreciadores de trilha sonora.

Muito do que essa produção apresenta também é mérito da fenomenal direção de fotografia comandada por Lukasz Zal (duas vezes indicado ao Oscar, por seu trabalho nos filmes "Ida" e "Guerra Fria") - aliada à montagem do brasileiro Affonso Gonçalves (de "Segredos de um Escândalo" e do filme brasileiro vencedor do Oscar "Ainda Estou Aqui") e da própria diretora -, pois estabelece muito do cerne da ação se movimentando da direita para a esquerda (principalmente em eventos traumáticos) para, quando chega o momento da "resolução", estabelecer tudo ao centro e finalizar o fluxo narrativo da esquerda para a direita - num belíssimo simbolismo visual de que é hora de superar o passado e seguir em frente rumo ao futuro.


O design de produção de Fiona Crombie (duas vezes indicada ao Oscar, por "A Favorita" e por esse filme), aliado à direção de arte de Emily Norris (de "A Teoria de Tudo"), Tim Blake (de "Noite Passada em Soho") e companhia - além do figurino concebido por Malgosia Turzanska (do recente "Sonhos de Trem") - dispensa o luxo para criar uma cercania bem mundana, pacífica, mas que não está livre de males como a temível Peste Negra.

Não é sempre que acontece mas o ano de 2025 trouxe pelo menos dois clássicos ao cinema. E "Hamnet - A Vida Antes de Hamlet", com certeza, é um deles. Uma experiência sensível e de emoção genuína. Um verdadeiro banquete cinematográfico. Se ganhar algum Oscar em qualquer categoria, será mais do que merecido. Assista numa sala de cinema, reflita e permita se emocionar. Acredite: vai te fazer bem...




Kal J. Moon também não é bom em conversar com as pessoas e acredita que, um dia, vai sorrir novamente sem sentir o peso do pesar...

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